Diretoria do Exército confirma que é falsa a história dos “três de Montese”

ALERTA/SPOILER: os soldados mortos podem ser considerados heróis, afinal, morreram em serviço pelo Brasil. Este artigo não busca desmerecer nenhum deles. O propósito foi apontar inconsistências no discurso quanto às possíveis mortes em Montese e tentar sanar dúvidas que surgiram há algum tempo. Hoje essas dúvidas não existem mais.

Na foto, os três soldados brasileiros que deram o sangue pela Pátria na Itália. Da esquerda para a direita: Geraldo Rodrigues de Souza; Arlindo Lúcio da Silva e Geraldo Baêta da Cruz.

A Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEX), por meio do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx) confirmou que os soldados do 11º Regimento de Infantaria, Geraldo Baêta da Cruz, 28 anos, natural de Entre Rios de Minas, padioleiro; Arlindo Lúcio da Silva, 25 anos, de São João del Rei, 2ª Cia de Infantaria/Pelotão Iporan Nunes; e Geraldo Rodrigues de Souza, 26 anos, de Rio Preto, soldado da Cia de Comando do III Batalhão, não morreram em troca de tiros até as últimas munições contra alemães em Montese.

Segundo o órgão máximo de pesquisa histórica do Exército Brasileiro, também não há “evidências históricas do enterro desses militares por parte dos alemães”.

O questionamento foi levantado aqui na página no último dia 25/09/2020. Na ocasião, locais, funções e versões não batiam e os fatos eram desconexos entre si. Houve revolta de alguns leitores e até mesmo ameaças contra redatores, na página do Facebook, por parte de perfis anônimos que foram prontamente banidos.

Naquela reportagem a DPHCEX já havia ajudado com materiais de pesquisa, porém, faltava a confirmação oficial de que a história era mesmo falseada. Esta confirmação aconteceu esta semana, graças a um esforço de pesquisa contínuo dentro da Diretoria. (VEJA A REPORTAGEM ANTERIOR AQUI)

Confira na íntegra todos os fatos relatados na matéria do blog e agora confirmados pelo Exército:

1. Em atendimento ao seu e-mail, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército, por meio do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx), confirma somente as mortes ocorridas nas seguintes condições:

– o padioleiro do Destacamento de Saúde do 11º RI, Geraldo Baêta da Cruz, morreu na explosão de uma granada, quando se dirigia em auxílio ao pelotão do Tenente Ary Rauen, entre Motaurígula e as Fraldas de Montese (Adhemar, livro Montese, 1985, pag. 146);

– Geraldo Rodrigues de Souza, da Companhia de Obuses (canhões), do 3º Batalhão do 11º RI morreu na localidade de Natalina e não em Montese; posteriormente foi enterrado no Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, na quadra B, fileira 9, sepultura nº 98;

– Arlindo Lúcio da Silva, atirador de Fuzil Automático (FA) da 2ª Companhia do 1º Batalhão do 11º RI morreu em Montese, por um franco-atirador inimigo, consequência do seu ato de bravura ao investir sobre uma posição inimiga, descarregando seu FA (Decreto de concessão de medalha).

2. Além disso, esta Diretoria não encontrou evidências históricas do enterro desses militares por parte dos alemães.

História já tinha virado música e série

Conforme tradição popular, Arlindo e os dois Geraldos teriam lutado até a morte para não se renderem aos alemães, no combate de Montese/Módena, Itália, em 14 de abril de 1945, durante a II Guerra Mundial.

O fato rendeu diversas homenagens. Eles aparecem em web séries (como “Heróis”, de 2011, do diretor mineiro Guto Aeraphe), em centenas de notícias de jornais, em quadrinhos, discursos, artigos e na música “Smoking Snakes”, da banda sueca Sabaton. O grupo chegou a vir ao Brasil fazer shows justamente por causa da canção que conta a história dos soldados que teriam lutado até a morte. Os músicos chegaram a ganhar medalhas de mérito pela composição, no Museu do Expedicionário, em Curitiba (PR). Foi em 2016.

Porém, conforme documentos consultados, o fato mostrava não ser verdadeiro. A morte dos três soldados é fato consolidado. No entanto, ainda restavam questionamentos sobre as circunstâncias em que morreram e se foram realmente enterrados pelos alemães. Agora, o Exército confirmou que nem um e nem outro procedem.

Como começou essa história?

O 2º sargento do 11º Regimento de Infantaria, que pertencia à Cia de Comando do 11º Regimento, Gentil Palhares escreveu um livro, em 1951, chamado “De São João del Rei ao Vale do Pó”. Ele narra que os três brasileiros “foram encontrados nas imediações de Montese”, sendo que Arlindo e Geraldo Baêta já estavam em estado de decomposição.

Livro que teria gerado a versão mal interpretada

Mas, o próprio Palhares só ficou sabendo disso depois da guerra. Isso porque ele foi ferido em 15 de abril de 1945 em Montese e precisou ser evacuado – ou seja, deixou o campo de batalha. “As opiniões são as mais diferentes sobre o que pode ter sucedido aos três bravos. Entrementes, a mais aceitável é que, tendo sair do serviço de patrulha, como de fato saíram, distanciaram-se os três companheiros, desgarraram-se dos demais elementos, talvez por força de um ataque imprevisto dos alemães e, encontrando pela frente uma tropa de efetivo elevado, não relutaram, dando combate, preferindo a morte a entregar-se. Ficaria o feito anônimo se os próprios alemães que os alvejaram, naturalmente, após encarniçada luta, não tivessem reconhecido e exaltado a bravura dos seus contentores”, escreveu Palhares nas páginas 259 a 261 do livro.

Versão de Gentil Palhares foi contestada em 1968

O escritor Francisco José dos Santos Braga registrou o embate entre o jornalista Lincoln de Souza e Gentil Palhares por meio do jornal “A Comunidade”, de São João del Rei, em 1968. Os textos foram mostrados no blog que o escritor mantém.

Lincoln questionava a veracidade do texto sobre os três heróis de Montese. “A informação que deram a Gentil Palhares foi completamente errônea: trocados os nomes das vítimas, da Unidade (Regimento Sampaio e não Tiradentes), da região, da data do sepultamento e até dos dizeres da tabuleta”, colocou o autor.

Palhares respondeu em outro artigo e disse que a história era verdadeira. “O que suscitou dúvida e vem trazendo controvérsia é pura e simplesmente uma questão de semelhança de fatos acontecidos, algo rotineiro nas guerras. O Sampaio teve, também, caso idêntico, três soldados que morreram heroicamente na linha de frente e que, post mortem, receberam suas promoções e justas citações. Mas não se trata dos três soldados desaparecidos das fileiras do 11º RI e que depois foram encontrados da forma já descrita”, explicou o autor. No entanto, Palhares não voltou a falar que os homens tinham lutado até a morte contra os alemães.

Conhecida desde 1945

A história já era conhecida pelo menos desde 1945, quando em 08 de agosto daquele ano, Walter Prestes (ou Valter, porque há escrito das duas formas), jornalista do “Diário de Notícias” do Rio de Janeiro e parente do chefe do Pelotão de Sepultamento da FEB, Lafaiete Vargas Brasiliano, publicou uma notícia sobre o tema. Segundo Walter, o próprio chefe do serviço de sepultamento teria lhe contado o fato, quando desembarcou no Brasil, no dia 03 daquele mês. Há uma foto ilustrando a notícia. Porém, a foto é de Precaria e não de Montese.

Informações e fotos trocadas no jornal de 1945, também contribuíram para a história ganhar fama

Ele escreveu que os corpos foram achados “em um terreno abandonado pelos alemães”. Os três estavam bastante decompostos e teriam sido identificados pelas digitais e algumas fotos de suas fichas pessoais. Completou que ninguém sabia como eles tinham morrido e qual o motivo dos alemães os terem enterrado.

No dia 10 de agosto de 1945, Walter Prestes cobrou as autoridades para que esclarecessem como tinha sido a morte dos três. Não obteve respostas. Em 18 de agosto a notícia já tinha ganhado o Brasil e estava sendo publicada no Correio do Povo, de Jaraguá do Sul (SC). Como o assunto havia rendido boa audiência ao Diário de Notícias, em 23 agosto de 1945, quando mais um escalão da FEB chegou, Walter voltou a citar os três mineiros, desta vez em notícia do jornal “A Noite”.

A falsa cruz de Montese

Duas fotos falsas de supostas sepulturas dos “três de Montese” circulam pela Internet.

Esta primeira, abaixo, é de três soldados da 5ª Cia do 1º Regimento de Infantaria, mortos nas proximidades de Precaria, em 24 de janeiro de 1945, após terem sido surpreendidos por uma guarnição alemã, que matou Aristides José da Silva (Leopoldina/MG), José Graciliano Carneiro da Silva (Recife/PE) e Clóvis da Cunha Paes de Castro (Açaré/CE). O sargento Virgolino Loyola (Ignácio Loyola de Freitas Virgolino) foi ferido e feito prisioneiro. Os outros integrantes da patrulha conseguiram voltar para à base de partida em segurança.

Esta é a cruz dos três de Precaria e não de Montese. É a mesma que apareceu no jornal de 1945, com informações erradas

Depois de mortos, os três foram enterrados pelos alemães e receberam uma cruz em que se lia: 3 bravos Brasil (escrito em alemão).

Em março daquele mesmo ano os corpos foram exumados, quando o front brasileiro avançou. Uma das fotos está abaixo. As outras preferimos não colocar porque mostram os corpos dos Pracinhas.

Esta é a foto da exumação dos corpos em Precaria. Notem que ela também apareceu de maneira errada para ilustrar aquele texto de jornal do Walter

Já esta outra foto, é de alguns túmulos alemães pós-guerra, o que se nota (mesmo com a baixa resolução), pelos formatos das cruzes, letras góticas e pelo pequeno jardim improvisado na frente das mesmas. Jamais os alemães teriam como fazer um túmulo tão bem feito durante o primeiro ou segundo dia de combate por Montese e as plantas também não teriam como crescer tão rápido. Fontes na Itália também confirmaram que a foto é falsa e que, possivelmente, nem em Montese tenha sido tirada.

Cruzes alemãs do pós-guerra. Imagem do Youtube

As conclusões anteriores e atuais

Três soldados brasileiros foram enterrados pelos alemães, próximo a Precaria, uma localidade da Itália, e receberam uma cruz com os dizeres: 3 bravos Brasil. Não eram os mesmos de Montese.

Três soldados da FEB NÃO morreram lutando até a morte em Montese e depois foram homenageados pelos inimigos. A informação teria nascido do livro do já citado Gentil Palhares.

Segundo o Exército, não há evidências históricas que os três de Montese tenham sido enterrados pelos alemães, já que, morreram em locais diferentes.

Os seis mortos podem ser considerados heróis por terem dado a vida pelo Brasil.

75 anos depois, o mito que rendeu homenagens aos três de Montese, está desfeito.

Pós escrito

Mesmo com todas as informações acima, ainda houve quem duvidasse do Exército e da origem da mensagem. Para quem tem dúvidas, segue o print do e-mail recebido pela Redação. A única coisa ocultada nele, foi o telefone particular do Coronel que fez a pesquisa nos arquivos da instituição. Basta clicar para aumentar:

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