Alemães acusaram brasileiros de maus tratos com prisioneiros, mostra documento

Prisioneiros alemães são interrogados por Pracinhas. Eles tem um cartão pendurado no pescoço com seus dados

Na guerra psicológica no front da FEB valia de tudo. Um documento secreto, disponível no Museu dos Campos Gerais, em Ponta Grossa/PR, enviado pelo Comando do V Exército para o Comando da FEB, conta uma história dessas em que os alemães estavam preocupados em fazer com que seus soldados não se entregassem aos brasileiros. O relato era o seguinte:

ESTES SÃO NOSSOS INIMIGOS

Um italiano que cruzou as fronteiras afirmando o seguinte: em dezembro de 1944 eu fui de Pistóia à Canevaccia (pelo MLR21) para chegar às proximidades de Canevaccia onde eu guardei algumas coisas.

 Com o produto da sua venda, pretendíamos iniciar uma nova vida após a guerra. No entanto, nossa casa em Canevaccia foi destruída e muitas de nossas coisas foram roubadas. Na estrada para Porretta eu vi oito prisioneiros alemães capturados em um caminhão aberto.

Eles estavam algemados, com as mãos à sua frente. A população civil Italiana jogou algumas pedras neles. Embora muitos dos que foram acertados gritassem, os guardas, que eram brasileiros, não fizeram nada para conter a situação. Este relatório da testemunha ocular foi gravado por um inquérito de/para uma corte marcial. Essa é a prova de que nossos inimigos não tratam os Prisioneiros de Guerra Alemães de acordo com as regras militares (isto é, de uma forma correta), mas sim os acorrentam como criminosos desonestos.

Tal conduta é uma brecha da Convenção de Genebra, à qual os aliados tanto se referem. Todas essas condutas são falsas. Tão falsas quanto as propagandas contra nossas fronteiras. Essa mesma propaganda que até promete aos prisioneiros Alemães o mesmo tratamento que seus próprios soldados. O inimigo tornou bem claro para nossos soldados o que pensar de seus folhetos e propagandas faladas.

O comportamento dos alemães mostrava que a presença brasileira era bem perceptível na linha de frente e que havia o medo de que os soldados deles se rendessem sem lutar.

Brasileiro também não era santo

Diz uma frase que guerra é guerra e há relatos brasileiros que dão conta de que volta e meia os Pracinhas davam uma abusada no tratamento com prisioneiros. Um caso é o do soldado José Barberino dos Santos, um negro alto e magro, mais conhecido pelo apelido de “Bascuia”, figura mítica da FEB em Curitiba/PR, que antes da guerra teve uma infância muito pobre e que entrou para a Infantaria para mudar de vida. No Exército, além do corneteiro do 11º Regimento de Infantaria, era membro do grupo de elite de Max Wolf Filho, mas, fora de serviço era o que os jovens chamam hoje de “Zoeira”. Tomava uns goles e desaparecia no front, vivia brincando com todo mundo.

Depois de Montese, o Coronel Adhemar Rivermar de Almeida pediu que ele escoltasse um prisioneiro para a retaguarda. O prisioneiro foi no banco de carona na frente e o Barberino no banco de trás. Adhemar dirigia. No meio da viagem o prisioneiro começou a gemer e cada vez gemia mais. O motorista parou o carro e perguntou o que se passava.

Acontece que Barberino tinha a baioneta no fuzil e estava cutucando o prisioneiro sempre que o Adhemar descuidava. Repreendido, ele disse que não tinha culpa, porque a cada solavanco, o prisioneiro vinha para trás e a baioneta cutucava o alemão. Essa história está no livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”.

O prisioneiro devia mesmo estar apavorado, pois, a propaganda do Eixo dizia para terem medo dos negros brasileiros. Pelo menos é o que conta Gustavo Carlos Alexandre Stal, que era um dos interrogadores de prisioneiros da FEB. No livro “Depoimentos de Oficiais de Reserva sobre a FEB”, ele diz que o boato alemão era de quem fosse pego por um negro, teria os olhos furados, a língua arrancada e seria degolado. Daí o medo do tedesco.

Já no livro “Quebra canela”, Raul da Cruz Lima Júnior admite que em Castelnuovo, prisioneiros alemães foram colocados na frente dos brasileiros para guiá-los em meio a campos minados. A lógica era: vocês colocaram as minas, vocês sabem onde elas estão. Por sorte, deu certo, ninguém explodiu e eles entraram vitoriosos na cidade. Eram 28 prisioneiros.

Por outro lado, César Campiani Maxiamiano, em “Barbudos, sujos e fatigados” relata casos de brasileiros salvando italianos e alemães de linchamento, pois, a população queria se vingar dos inimigos.

Do outro lado o bicho pegava

Já no lado alemão, os abusos eram bem piores. Altino Bondesan, no livro “Um pracinha paulista no inferno de Hitler”, conta que após ter caído prisioneiro com um grupo de colegas em Sommocolonia, um dos poucos reveses da FEB, passou humilhações e privações diversas, desde surras, até fome e maus tratos. Só não morreu em campos de prisioneiros alemães, porque segundo ele, não era a vontade divina. Na Alemanha era usado para trabalhos degradantes. Como era branco, sofria menos que os negros, que ainda eram vítimas do racismo do Reich. Foi libertado por tropas dos Estados Unidos, já no final da guerra.

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