Aumentaram um ponto: Cinco exageros ou mentiras que contam sobre a FEB

Divulgação: Wikimedia Commons

Na época da 2ª Guerra Mundial, os pracinhas ficavam bastante irritados quando contavam histórias exageradas sobre seus feitos. O correspondente Rubem Braga registrou o fato em uma de suas crônicas:

“Nossos homens têm, de um modo geral, avançado. Às vezes são obrigados a parar, às vezes sofrem contra-ataques – e depois avançam outra vez – tudo isso lentamente, como não pode deixar de ser, em virtude da relação de forças e da natureza montanhosa do terreno. Esses homens que estão na frente não pretendem ser bichos sobrenaturais, nem pensam em derrotar os nazistas a gritos ou a pelego. Eles lutam. Não são muitos, mas lutam – e lutam honradamente, lutam direito, lutam um dia e noite, ao frio e à chuva, uma luta penosa. Não precisam que ninguém – aqui ou aí – exagere o que fazem, entre a tralalás patrioteiros. Eles não são monstros: são lavradores, trabalhadores de vários ofícios, estudantes, moços de escritório, simples filhos de família – são rapazes brasileiros que foram mandados para aqui ou que vieram como voluntários. E eles dão conta do seu recado!”. (Itália, dezembro de 1944, Crônicas da Guerra na Itália)

Dito isso, seguem os fatos:

01 – A fogueira de Montese

Montagem com informação falsa que circula na web

A mentira: dois grupos de combate foram enviados para Montese para procurar os alemães. Como fazia muito frio, fizeram uma fogueira gigante e se aqueceram em uma noite fria de inverno e os alemães ao verem aquilo, teriam achado se tratar-se de uma armadilha. Afinal, quem em sã consciência faria fogo na frente dos inimigos? Não há registro dessa história em nenhuma bibliografia histórica sobre a FEB e nem em livros de memórias.

02- O cabo que encarou e venceu 200 alemães

A história foi exagerada e circula por alguns sites e portais. Ela dá conta que um cabo brasileiro teria vencido quase 200 alemães de uma só vez. A distorção se dá em torno do cabo Marcílio Luiz Pinto, do 6º Regimento de Infantaria, que teria tomado a frente de um grupo de patrulheiros brasileiros e americanos e, sozinho, enfrentou 200 alemães em uma batalha, fazendo vários deles prisioneiros e depois, recebendo pelo ato, uma medalha de honra.

O cabo existiu e foi condecorado por ato de bravura. O problema está no exagero dos fatos. Abaixo colocamos como está registrado na história de verdade, nos documentos de citação de combate da FEB:

“Em 8 nov.44, como membro de uma patrulha encarregada do reconhecimento dos arredores da localidade de Torre de Nerone, o Cabo Pinto participou de um ataque de surpresa a uma posição inimiga, durante o qual, mesmo sob grande risco, avançou sobre um ponto forte inimigo, capturando vários prisioneiros, além de quantidade significativa de equipamentos e munições. Momento depois, o Cabo fez recuar uma patrulha alemã que tentou libertar os prisioneiros e durante essa ação matou diversos inimigos. Em conjunto com outros membros de sua patrulha, trouxe os prisioneiros e o equipamento aprisionado para as linhas brasileiras. Demonstrou coragem, tenacidade, iniciativa e senso de cumprimento do dever. Foi condecorado com a Silver Star dos EUA”.

Ou seja, o fato, em si, aconteceu, mas em nenhum momento se fala nos 200 inimigos e a historiografia oficial não registrou tal fato. O que pode ter acontecido é que em uma reportagem publicada na época pelo jornal “A Noite”, o próprio cabo alega (e exagera) que eram “190 alemães”. Mas, caso o número fosse correto e a história 100% verídica, certamente estaria em alguma das centenas de obras oficiais e não oficiais e trabalhos acadêmicos sobre a FEB – o que não aconteceu.

Reprodução do jornal A Noite

03- Guerra da rapadura

Outra mentira divulgada é a de que os alemães tentaram tomar uma posição brasileira e travou-se um combate corpo a corpo. No meio do conflito, sem ter arma para golpear o inimigo, um soldado nordestino que comia rapadura, pegou um tablete do doce e acertou o alemão. Os alemães fugiram. Tal informação não encontra amparo em nenhuma literatura sobre a FEB.

04- Os três enterrados em Montese

Conforme tradição popular, os soldados do 11º Regimento de Infantaria, Geraldo Baêta da Cruz, 28 anos; Arlindo Lúcio da Silva, 25 anos; e Geraldo Rodrigues de Souza, 26 anos, teriam lutado até a morte para não se renderem aos alemães, no combate de Montese, na Itália, em 14 de abril de 1945, durante a II Guerra Mundial. O fato rendeu diversas homenagens. Eles aparecem em web séries (como “Heróis”, de 2011, do diretor mineiro Guto Aeraphe), em centenas de notícias de jornais, em quadrinhos, discursos, artigos e na música “Smoking Snakes”, da banda sueca Sabaton.

Eles teriam sido enterrados juntos por tropas alemães. Porém, conforme documentos consultados, o fato mostra não ser verdadeiro. A morte dos três soldados é fato consolidado, porém, eles morreram em locais diferentes, não lutaram até a última bala e não foram enterrados pelos alemães. A Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEX), confirmou que a história não é verdadeira.  Veja aqui.

05 – Pracinhas roubavam tanque

Já se tornou quase uma lenda. A mentira mais famosa sobre a FEB é, com certeza, a de que os brasileiros roubaram um tanque Sherman americano em represália aos estadunidenses terem roubado comida na cozinha brasileira. Dependendo do relato mentiroso, o fato teria acontecido. no Vale Garfagnana ou em um local em que ninguém conhece.

A história não passa de balela. Segundo a bibliografia da FEB, não há nada que justifique tal invenção. No entanto, objetos, peças de carro e veículos menores, como jipes, eram roubados no front da FEB e, não só por brasileiros, mas por todos os exércitos aliados.

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