Aconteceu de novo: desmentimos mais três Fakes sobre a FEB no Youtube

Computer Keyboard Fake News Concept

Novas Fake News saíram do mesmo lugar das primeiras. (Foto: Abril)

A Força Expedicionária Brasileira – FEB voltou a ser motivo de notícias falsas na Internet. Dessa vez, a história inventada é de que um brasileiro, o Cabo Marcílio Luiz Pinto, sozinho teria surpreendido e colocado para correr, nada menos do que 200 alemães de uma só vez, inclusive tendo feito dezenas de prisioneiros, sem ajuda de outros soldados e de tropas americanas. Por mais estranho que possa parecer a história, tem gente acreditando.

Pior do que isso, foi o boato de que durante um confronto entre brasileiros e alemães, sem ter com o que golpear o inimigo, um soldado nordestino da FEB teria acertado o tedesco com uma rapadura!

Todos esses assuntos falsos ou distorcidos têm um mesmo remetente: um canal de Youtube chamado “Vamos Falar de História”, que conta com mais de 430 mil inscritos. Ou seja, as mentiras têm grande alcance, principalmente entre jovens. Quem mantém o canal é o YouTuber Felipe Dideus, 26 anos, ex-militar, assumidamente monarquista (por mais que tenha declarado o voto presidencial na última eleição), que se expõe em comentários políticos do Brasil e do mundo. “Fala pessoal, sejam bem vindos ao canal Vamos Falar de História, aqui passaremos pra vocês a informação de uma forma simples e objetiva. E lembre-se ‘O talento do historiador consiste em compor um conjunto verdadeiro com elementos que são verdadeiros apenas pela metade (sic)’”, diz apresentação do canal dele, citando Ernest Renan, filósofo e historiador do final do século XIX.

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No Twiiter, Felipe já vez montagens mais inocentes e apenas por diversão (Foto: Twitter de Felipe)

O canal de YouTube é o mesmo que já inventou que os Pracinhas roubaram um tanque dos americanos e que também acenderam uma fogueira na frente dos inimigos em uma das linhas do front nos Apeninos, para se aquecer no inverno.

Porém, há ainda outras histórias inventadas, como por exemplo, o de uma patrulha brasileira em Montese, onde dois grupos de combate brasileiros teriam feito uma grande fogueira para se aquecer durante o caminho. Veja as notícias falsas ou destorcidas que o canal já publicou:

Guerra da rapadura

A mentira: alemães tentaram uma tomar posição brasileira e travou-se um combate corpo a corpo com tiros e porradas. No meio disso, sem ter com o que golpear o inimigo, um soldado nordestino que comia rapadura, pegou um tablete do doce e acertou o alemão. Os alemães fugiram. Para tentar se eximir da responsabilidade pela falsa informação, Felipe disse que foi um avô de um amigo que contou para ele.

Tal informação não encontra amparo em memórias de Pracinhas registradas por fontes oficiais e nem na literatura sobre a FEB.

A fogueira de Montese

A mentira: dois grupos de combate foram enviados para Montese para procurar os alemães. Como fazia muito frio, fizeram uma fogueira gigante e se aqueceram. No outro dia, o comando do Exército Americano (sic) teria chamado o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes e questionado como os dois grupos de combate haviam retornado ilesos da missão, pois, como eles não concluíram a patrulha, foram mandados soldados americanos para concluir e, chegando lá, foram surpreendidos por centenas de inimigos. A conclusão deles, foi de que os alemães não atiraram nos brasileiros porque achavam que era uma armadilha.

Da mesma forma que o caso da rapadura, essa história também não possui sequer fundo de verdade. Não há registro dela em lugar algum, a não ser no já citado canal.

O cabo que enfrentou 200 alemães

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Print da página com alguns vídeos (Reprodução)

A distorção: o cabo Marcílio Luiz Pinto, do 6º Regimento de Infantaria, tomou a frente de um grupo de patrulheiros brasileiros e americanos e, sozinho, enfrentou 200 alemães em uma batalha, fazendo vários deles prisioneiros e depois, recebendo pelo ato, uma medalha de honra.

Nesse caso, a mentira não está no nome da pessoa, que de fato existiu e que de fato foi condecorada por ato de bravura. O problema está no exagero dos fatos, na proporção de Felipe tentou dar à história.

Abaixo colocamos como está registrado na história de verdade, nos documentos de citação de combate da FEB:

“Em 8 nov.44, como membro de uma patrulha encarregada do reconhecimento dos arredores da localidade de Torre de Nerone, o Cabo Pinto participou de um ataque de surpresa a uma posição inimiga, durante o qual, mesmo sob grande risco, avançou sobre um ponto forte inimigo, capturando vários prisioneiros, além de quantidade significativa de equipamentos e munições. Momento depois, o Cabo fez recuar uma patrulha alemã que tentou libertar os prisioneiros e durante essa ação matou diversos inimigos. Em conjunto com outros membros de sua patrulha, trouxe os prisioneiros e o equipamento aprisionado para as linhas brasileiras. Demonstrou coragem, tenacidade, iniciativa e senso de cumprimento do dever. Foi condecorado com a Silver Star dos EUA”.

Ou seja, aconteceu, mas em nenhum momento se fala nos 200 inimigos ou algo do tipo. O que pode ter gerado o exagero, pode ter sido uma notícia que saiu no jornal “A Noite”, resgatado pelo colega João Camargo e que fala nos 190 alemães que Marcílio teria enfrentado. De onde surgiu o número, ainda não sabemos, porque oficialmente consta o que foi citado acima na citação de combate.

Outras mentiras que já desmentimos

Pracinhas descuidados acendem fogo na linha de frente a alemães pensam que é armadilha

A imagem que está abaixo está circulando bastante nos últimos tempos. Nela, a história é de que soldados brasileiros descuidados teriam acendido um fogo para se esquentar em uma noite fria de inverno e os alemães ao verem aquilo, teriam achado se tratar de uma armadilha, afinal, quem em sã consciência faria fogo na frente dos inimigos. Pois é, tal fato também é mentira.

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Na linha de frente, conforme regulamento do Comando da FEB, era obrigação dos oficiais impedir qualquer tipo de movimento ou luminosidade não autorizada que pudesse entregar a posição brasileira. Nem fumar e deixar bitucas era permitido, quanto mais acender uma fogueira.

Os brasileiros que roubavam tanques

A mentira mais famosa sobre a FEB é, com certeza, a de que os brasileiros roubaram um tanque Sherman americano em represália aos estadunidenses terem roubado comida na cozinha brasileira. Dependendo do relato, a enganação se passou no Vale Garfagnana ou em um local em que ninguém conhece.

checagem4Checamos a bibliografia da FEB e não encontramos nada que pudesse justificar tal invenção. No entanto, objetos, peças de carro e veículos menores, como jipes, eram roubados no front da FEB e, não só por brasileiros, mas por todos os exércitos aliados.

Adhemar Rivermar, oficial de operações S3 do 11º Regimento de Infantaria, no livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”, conta que se um jipe fosse deixado sozinho, podia acontecer duas coisas: ser roubado por alguém do exército de outro país Aliado, ou ser apreendido pela Polícia do Exército. No primeiro caso, o motorista ia pagar o veículo de forma parcelada no salário. No segundo caso, o responsável tinha que ir retirar o veículo na Polícia e pagar uma multa pesada.

“No princípio, fora tal o desaparecimento de viaturas, mesmo quando deixadas presas por correntes e cadeados em postes ou árvores, que, contava-se, um coronel comandante de unidade de infantaria dera permissão aos seus comandados para agirem da mesma forma. Rapidamente, aprenderam a mudar de nacionalidade as viaturas que deparavam momentaneamente sem ocupantes, com pintura imediata do Cruzeiro do Sul [identificação brasileira] no local onde existia anteriormente a estrela branca característica do Exército dos Estados Unidos, bem como a substituição das letras USA por EB antes do número da viatura, que em muitos casos era também alterado. O coronel logo percebeu o crescimento do número de suas viaturas e foi obrigado a derrogar a permissão veladamente dada, quando, certa manhã ao levantar-se, deparou perto de sua barraca com um jipe anfíbio, de distribuição restrita à determinadas unidades de engenharia, já em adiantada fase de transformação de propriedade”, explicou Adhemar.

O que diz Felipe, o autor

Tentamos contato por e-mail e pela página oficial de Felipe, para que ele pudesse contar a versão dele para a publicação dos vídeos com informações falsas ou destorcidas. Enviamos as seguintes perguntas:

  1. Quem te passa as informações que você publica nos vídeos?
  2. Você tem conhecimento que os vídeos não são totalmente verdadeiros ou que não possuem comprovação alguma?
  3. Você tem conhecimento de que os vídeos que produz viram também memes sem comprovação?
  4. Como você se sente ao ser questionado sobre a veracidade dos vídeos, que poderiam ser classificados com o que chamamos hoje de fake News?
  5. Você tem conhecimento que na época da guerra, e aí sim com comprovação, os Pracinhas se sentiam ofendidos e odiavam os jornalistas ou comunicadores que aumentavam suas histórias ou inventavam fatos que não aconteceram? Você tem algum tipo de incômodo na consciência por conta disso?
  6. Você fala com uma audiência jovem e uma audiência bastante grande. Não tem medo de que, com suas palavras, de alguma forma esteja influenciando para uma história distorcida da real participação dos Soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial?
  7. Não vê problema em usar história no nome do canal, mesmo não havendo comprovação histórica em muitas das suas opiniões?
  8. Por último: deixe um recado para os seus seguidores e também para os seus críticos.

Até o fechamento desta edição, não recebemos retorno das perguntas. Assim que chegarem, serão colocadas na íntegra.

**Atualizada em 11/11/2019 para acréscimo de informações.

um comentário

  • Excepcional matéria. Muito esclarecedora e objetiva.
    É triste e também uma decepção que alguns brazucas não conhecem nem respeitem nosso eternos e verdadeiros heróis.
    Quando mentem sobre a FEB, estão manchando sua própria história.
    Um povo que não tem história é um povo sem perspectiva do futuro 😦
    Viva a FEB !!!

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