Relatos Secretos: faltava armamento quando os brasileiros chegaram à Itália

A falta de um ambiente propício de preparação para a guerra no Brasil e nos primeiros dias na Itália é mais uma das revelações realizadas pelo General João Batista Mascarenhas de Moraes, Comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em seus relatórios secretos sobre a participação brasileira na 2ª Guerra Mundial.

Ele deixou escrito três volumes de relatórios, cada um com mais de 150 páginas, que se tornaram públicos apenas em 2018. Mascarenhas de Moraes aponta que essa falta de preparação se deve à dificuldade de formar os quadros de expedicionários, falta de armamento moderno para treinamento e condições psicológicas desfavoráveis que tomavam conta de toda a tropa.

Essa realidade assolou a Força brasileira não só durante as preparações em solo brasileiro, mas também durante as primeiras semanas na Europa. A partida do primeiro navio de brasileiros para a Itália aconteceu em 2 de julho de 1944. Após 14 dias, eles chegaram à Itália, desembarcando em Nápoles.  

            “O primeiro mês passado na Itália se caracterizou pela falta absoluta de armamento e de material de instrução”, escreveu o comandante da FEB. Segundo ele, tudo o que se podia fazer era conservar o vigor físico e a disciplina da tropa. Para isso, atividades que já ocorriam no Brasil passaram a ser repetidas na Europa, como instrução geral, exercícios de educação física e treinamento de marchas. “E isto foi executado nos acampamentos de Agnano e Tarquinia, sendo a preparação técnica e tática reduzida a uma modesta conservação do que já fora obtido no Brasil”.

            No Brasil, os pracinhas brasileiros treinaram com armamentos que não foram os mesmos que utilizaram durante a guerra. Havia, portanto, a ausência de “material e armamento com que deveriam se instruir”.

Quando foram para Vada, contudo, a situação começou a tomar feição diferente. Em 18 de agosto de 1944, a tropa brasileira começou a deslocar-se de Tarquínia para a região de Vada-Rosignano. O deslocamento ocorreu em duas noites. O local escolhido para o estacionamento era uma grande área cultivada de videiras, que proporcionaram a proteção da tropa contra a visão das forças nazifascistas.

Mascarenhas relata que somente no dia 22 de agosto teve início o período final de instrução militar na Itália. O objetivo era completar o adestramento da tropa, tendo em vista sua incorporação às forças operacionais do 5° Exército, que era dos Estados Unidos, e que já se encontravam prontas para o combate naquela região.

“No dia 22 de agosto foi realizada, por uma grande equipe de mais de 40 oficiais sobre a chefia de um coronel do Exército Americano, uma minuciosa inspeção visando o estado de treinamento da tropa, a conservação do material, os preceitos de higiene do campo de batalha, etc. E a 23, isto é no dia imediato, teve início a instrução no âmbito das unidades de todas as armas”, relatou Mascarenhas.

O comandante da FEB torna explícito que grande parte do armamento de Infantaria, como morteiros, canhões, metralhadoras, lança-rojão, além dos aparelhos “de transmissões, de engenharia e de manutenção ainda não era conhecido” pela tropa brasileira nas vésperas de entrar na batalha.

No entanto, isso não impediu que fosse iniciado o treinamento tático “com inteiro êxito e em todos os escalões de tropa”. Os exercícios preliminares ditados pelo Exército dos Estados Unidos prosseguiram, conforme consta nos documentos de Mascarenhas de Moraes, até dia 4 de setembro. 

Treinamentos de 36 horas

A partir do dia 5 de setembro, o treinamento intensificou e tinha como objetivo preparar as tropas para o campo de batalha. “Esse período num grande exercício com a duração de 36 horas nos dias 10 e 11 de setembro”.

Nesses exercícios usava-se exclusivamente o material que seria usado na guerra, como munição e armamento. “Foi realizado em terreno montanhoso dificílimo, antecedido de uma marcha de 36 kms, durante o qual houve apenas oito homens retardatários em cerca de 4.000”, escreveu o comandante da FEB.

Após o encerramento deste exercício a tropa brasileira foi considerada apta a entrar em batalha.

“É necessário ressaltar que grande parte do êxito alcançado nesse treinamento se deve à abundância de recursos postos à disposição da tropa”, confidencia Mascarenhas de Moraes, que também confessa que os brasileiros possuíam uma base de instrução elevada.

Com todo esse preparo técnico e tático finalizado com êxito em solo europeu, as tropas brasileiras estavam preparadas para entrar de vez na guerra.  Como anotou Mascarenhas, “o ambiente já não era de surpresa para uma grande parte de seus componentes”.

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