FEB é vítima de mentiras na Internet; desmentimos três delas

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Crédito: Getty Images

Se você realmente se interessa pela história da participação brasileira na II Guerra Mundial, com a Força Expedicionária Brasileira, já deve ter visto e passado raiva com mentiras sobre a FEB que volta e meia surgem na Internet. Separamos as três mais difundidas para tentarmos desconstruir, confira:

  1. Os brasileiros andando a cavalo na Itália

Volta e meia alguém posta uma montagem ou pergunta se os brasileiros usavam cavalos em combate no front. A resposta é não. Usavam muares para transporte de mantimentos, armas e munições, porém, em combate, não havia essa possibilidade.

Possível origem da história: uma foto-montagem de um soldado americano em um cavalo, onde foi sobreposto símbolo da FEB e, um game brasileiro em desenvolvimento, onde com licença poética os autores colocaram a personagem, um soldado brasileiro, andando à cavalo em missões por vilarejos italianos. O nome do jogo é “Smoking Snakes”. A imagem do Pracinha no cavalo está aqui na parte de baixo.

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No game, porém, só no game, um Pracinha cavalga por ruas italianas

 

  1. Pracinhas descuidados acendem fogo na linha de frente a alemães pensam que é armadilha

A imagem que está abaixo está circulando bastante nos últimos tempos. Nela, a história é de que soldados brasileiros descuidados teriam acendido um fogo para se esquentar em uma noite fria de inverno e os alemães ao verem aquilo, teriam achado se tratar de uma armadilha, afinal, quem em sã consciência faria fogo na frente dos inimigos. Pois é, tal fato também é mentira.

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Outra mentira que ganha “ar de verdade”

Possível origem da história: memes assinados pelo Canal de Youtube “Vamos falar de História?”. Porém, há uma segunda versão, apropriada da primeira, produzida diretamente no site “Memedroid”, por um usuário anônimo que se intitula “Boleirin”(sic). Para tentar dar veracidade à mentira, usaram a foto do soldado da Artilharia, Francisco de Paula, que na foto estava sem os dentes da frente.

Na linha de frente, conforme regulamento do Comando da FEB, era obrigação dos oficiais impedir qualquer tipo de movimento ou luminosidade não autorizada que pudesse entregar a posição brasileira. Nem fumar e deixar bitucas era permitido, quanto mais acender uma fogueira.

  1. Os brasileiros que roubavam tanques

A mentira mais famosa sobre a FEB é, com certeza, a de que os brasileiros roubaram um tanque Sherman americano em represália aos estadunidenses terem roubado comida na cozinha brasileira. Dependendo do relato, a enganação se passou no Vale Garfagnana ou em um local em que ninguém conhece.

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Mentira sobre os tanques é, talvez, a mais propagada sobre a FEB

Possível origem da história: postagens e mais postagens anônimas na Internet. Só no Google foram mais de oito páginas com postagens referentes ao assunto. No Facebook, além de reproduzir a mentira, há quem se assuma como autor. Especificamente no Facebook, mais uma vez a página “Vamos falar de história?” aparece como emissora, seguida pela “Fatos desconhecidos”, pela “Fatos militares”e pela “Frases de guerra”.

Para tentar se isentar da mentira, há os autores que dizem que “não sabem se o fato é verdade ou não”, mas que “existe essa história”. No YouTube, o vídeo mais antigo é de 2017.

Checamos a bibliografia da FEB e não encontramos nada que pudesse justificar tal invenção. No entanto, objetos, peças de carro e veículos menores, como jipes, eram roubados no front da FEB e, não só por brasileiros, mas por todos os exércitos aliados.

Adhemar Rivermar, oficial de operações S3 do 11º Regimento de Infantaria, no livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”, conta que se um jipe fosse deixado sozinho, podia acontecer duas coisas: ser roubado por alguém do exército de outro país Aliado, ou ser apreendido pela Polícia do Exército. No primeiro caso, o motorista ia pagar o veículo de forma parcelada no salário. No segundo caso, o responsável tinha que ir retirar o veículo na Polícia e pagar uma multa pesada.

“No princípio, fora tal o desaparecimento de viaturas, mesmo quando deixadas presas por correntes e cadeados em postes ou árvores, que, contava-se, um coronel comandante de unidade de infantaria dera permissão aos seus comandados para agirem da mesma forma. Rapidamente, aprenderam a mudar de nacionalidade as viaturas que deparavam momentaneamente sem ocupantes, com pintura imediata do Cruzeiro do Sul [identificação brasileira] no local onde existia anteriormente a estrela branca característica do Exército dos Estados Unidos, bem como a substituição das letras USA por EB antes do número da viatura, que em muitos casos era também alterado. O coronel logo percebeu o crescimento do número de suas viaturas e foi obrigado a derrogar a permissão veladamente dada, quando, certa manhã ao levantar-se, deparou perto de sua barraca com um jipe anfíbio, de distribuição restrita à determinadas unidades de engenharia, já em adiantada fase de transformação de propriedade”, explicou Adhemar.

Pior do que os memes

aventurasPior do que os memes e do que as páginas, foi uma publicação que se apresenta como jornalística e de certa forma acadêmica, a Aventuras na História, legitimar a mentira do tanque, publicando-a no site que mantém e em sua página oficial do Facebook. Não só isso, publicou ainda a foto do soldado Francisco de Paula (mais uma vez colocado em situação descontextualizada) e fotos de brasileiros com tanques Shermans, porém não na Itália.

Fora esses dois erros, que já seriam suficientes para desqualificar o material, ainda colocaram uma foto de soldados neozelandeses com um tanque, como se fossem brasileiros com o tanque roubado.

Há quem acredite e goste

Como culturalmente há quem acredite em tudo sem checar, não faltaram comentários enaltecendo as mentiras, o “jeitinho brasileiro” e a desonestidade aos quais tais comportamentos remetem.

Veja alguns comentários:

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