Montese: história de brasileiros que teriam lutado até morrer pode não ser verdadeira

ALERTA/SPOILER: os soldados mortos podem ser considerados heróis, afinal, morreram em serviço pelo Brasil. Este artigo não busca desmerecer nenhum deles. O propósito é apontar inconsistências no discurso quanto às possíveis mortes em Montese e tentar sanar dúvidas que surgiram há algum tempo.

Na foto, da esquerda para a direita: Geraldo Rodrigues de Souza; Arlindo Lúcio da Silva e Geraldo Baêta da Cruz.

Setenta e cinco anos depois, as mortes de Geraldo Baêta da Cruz, 28 anos, natural de Entre Rios de Minas, padioleiro; Arlindo Lúcio da Silva, 25 anos, de São João del Rei, 2ª Cia de Infantaria/Pelotão Iporan Nunes; e Geraldo Rodrigues de Souza, 26 anos, de Rio Preto, soldado da Cia de Comando do III Batalhão, ainda são cercadas de mistérios.

Conforme tradição popular, os três teriam lutado até a morte para não se renderem aos alemães, no combate de Montese/Módena, Itália, em 14 de abril de 1945, durante a II Guerra Mundial.

O fato ainda rende diversas homenagens. Eles aparecem em web séries (como “Heróis”, de 2011, do diretor mineiro Guto Aeraphe), em centenas de notícias de jornais, em quadrinhos, discursos, artigos e na música “Smoking Snakes”, da banda sueca Sabaton. O grupo chegou a vir ao Brasil fazer shows justamente por causa da canção que conta a história dos soldados que teriam lutado até a morte. Os músicos chegaram a ganhar medalhas de mérito pela composição, no Museu do Expedicionário, em Curitiba (PR). Foi em 2016.

Músicos recebendo homenagens de Pracinhas em Curitiba. Foto da 5ª Região Militar

Porém, conforme documentos consultados, o fato pode não ser verdadeiro. A morte dos três soldados é fato consolidado. No entanto, ainda restam questionamentos sobre as circunstâncias em que morreram e se foram realmente enterrados pelos alemães.

Como começou essa história?

O 2º sargento do 11º Regimento de Infantaria, que pertencia à Cia de Comando do 11º Regimento, Gentil Palhares escreveu um livro em 1951 chamado “De São João del Rei ao Vale do Pó”. Ele narra que os três brasileiros “foram encontrados nas imediações de Montese”, sendo que Arlindo e Geraldo Baêtajá estavam em estado de decomposição.

Capa do livro de Gentil Palhares

Mas, o próprio Palhares só ficou sabendo disso depois da guerra.Isso porque ele foi ferido em 15 de abril de 1945 em Montese e precisou ser evacuado – ou seja, deixou o campo de batalha. “As opiniões são as mais diferentes sobre o que pode ter sucedido aos três bravos. Entrementes, a mais aceitável é que, tendo sair do serviço de patrulha, como de fato saíram, distanciaram-se os três companheiros, desgarraram-se dos demais elementos, talvez por força de um ataque imprevisto dos alemães e, encontrando pela frente uma tropa de efetivo elevado, não relutaram, dando combate, preferindo a morte a entregar-se. Ficaria o feito anônimo se os próprios alemães que os alvejaram, naturalmente, após encarniçada luta, não tivessem reconhecido e exaltado a bravura dos seus contentores”, escreveu Palharesnas páginas 259 a 261 do livro.

Versão de Gentil Palhares foi contestada em 1968

O escritor Francisco José dos Santos Braga registrou o embate entre o jornalista Lincoln de Souza e Gentil Palhares por meio do jornal “A Comunidade”, de São João del Rei, em 1968. Os textos foram mostrados no blog que o escritor mantém.

Lincoln questionava a veracidade do texto sobre os três heróis de Montese. “A informação que deram a Gentil Palhares foi completamente errônea: trocados os nomes das vítimas, da Unidade (Regimento Sampaio e não Tiradentes), da região, da data do sepultamento e até dos dizeres da tabuleta”, colocou o autor.

Palhares respondeu em outro artigo e disse que a história era verdadeira. “O que suscitou dúvida e vem trazendo controvérsia é pura e simplesmente uma questão de semelhança de fatos acontecidos, algo rotineiro nas guerras. O Sampaio teve, também, caso idêntico, três soldados que morreram heroicamente na linha de frente e que, post mortem, receberam suas promoções e justas citações. Mas não se trata dos três soldados desaparecidos das fileiras do 11º RI e que depois foram encontrados da forma já descrita”, explicou o autor. No entanto, Palhares não voltou a falar que os homens tinham lutado até a morte contra os alemães.

O enterro dos três gera dúvidas: seria Zocca?

No ano anterior ao trabalho de Palhares, em 1950, o comandante do 11º Regimento de Infantaria, Delmiro de Andrade, escreveu no livro “O 11º Regimento de Infantaria na II Guerra Mundial” que haviam sido encontrados os três infantes:

“Entre os que figuram no cemitério [de Pistóia] estão os nomes Geraldo Baêta, Arlindo Lúcio e Geraldo Rodrigues, que foram encontrados sepultados na localidade Zocca, lendo-se na cruz de sua sepultura: três heróis brasileiros. Todos foram identificados como do 11º Regimento de Infantaria. Presume-se que tenham sido feridos gravemente e conduzidos pelos alemães até Zocca, onde faleceram. O inimigo reverenciando-os, tinham a certeza de que eles mereceram essa consideração”. (p.213).

Pracinhas foram lembrados em quadrinhos, como nesta edição divulgada pelo Museu da Vitória Brig. Nero Moura

Ou seja, o comandante do Regimento, Delmiro de Andrade, alegou que o caso aconteceu em Zocca. Em nenhum momento, contudo, o comandante citou que eles lutaram até a morte contra os tedescos.

Conhecida desde 1945

A história já era conhecida pelo menos desde 1945, quando em 08 de agosto daquele ano, Walter Prestes (ou Valter, porque há escrito das duas formas), jornalista do “Diário de Notícias” do Rio de Janeiro e parente do chefe do Pelotão de Sepultamento da FEB, Lafaiete Vargas Brasiliano, publicou uma notícia sobre o tema. Segundo Walter, o próprio chefe do serviço de sepultamento teria lhe contado o fato, quando desembarcou no Brasil, no dia 03 daquele mês. Há uma foto ilustrando a notícia. Porém, a foto é de Precaria e não de Montese.

Ele escreveu que os corpos foram achados “em um terreno abandonado pelos alemães”. Os três estavam bastante decompostos e teriam sido identificados pelas digitais e algumas fotos de suas fichas pessoais. Completou que ninguém sabia como eles tinham morrido e qual o motivo dos alemães os terem enterrado.

Neste ponto a descrição do local bate com a que foi dada por Gentil Palhares, mas as circunstâncias não são as mesmas. Por outro lado, ambas não coincidem com as palavras do comandante do Regimento, Delmiro de Andrade, que dizia ser em Zocca.

No dia 10 de agosto de 1945, Walter Prestes cobrou as autoridades para que esclarecessem como tinha sido a morte dos três. Não obteve respostas. Em 18 de agosto a notícia já tinha ganhado o Brasil e estava sendo publicada no Correio do Povo, de Jaraguá do Sul (SC). Como o assunto havia rendido boa audiência ao Diário de Notícias, em 23 agosto de 1945, quando mais um escalão da FEB chegou, Walter voltou a citar os três mineiros, desta vez em notícia do jornal “A Noite”.

O próprio Delmiro, que comandou o 11º Regimento na FEB em 1958, em palestra no Rio de Janeiro, que veio a ser publicada no Correio da Manhã no dia 14 de fevereiro daquele ano, confirmou a versão de que os soldados foram achados em Zocca, a quase 20 km de Montese.

Documentos dos mortos apresentam dados conflitantes

A Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx) enviou ao blog cópias dos documentos que garantiram pensões às mães dos dois Geraldos e de Arlindo. Neles, a data de morte dos três coincide (14 de abril de 1945). As comunicações de falecimento para assinatura dos generais, de Arlindo e Geraldo Baêta também batem (número 333 de 28/04/1945 e 344 de 29/04/1945). Já a de Geraldo Rodrigues não bate com a dos colegas:apresenta o número 357 de 30/04/1945.

Fichas do Pelotão de Sepultamento sobre Geraldo Baêta e Arlindo Lúcio. (Do acervo de Adriane Piovezan junto ao AHEX)

O que chama a atenção é a informação sobre o local de morte de Geraldo Rodrigues: não é Montese e, sim, “Natalina”.

Três fontes que moram em Montese consultadas pelo blog disseram que “Natalina” não existe, mas que existe uma propriedade que ficava perto das linhas brasileiras, na divisa entre Castel D’Aiano e Montese, chegando perro de onde era o observatório da FEB, em Sassomolare, chamada “Casa Natalino”. São 4 km dali até Montese e foi um local em que os alemães atacaram fortementeem 14 de abril.

O jornalista Walter Bellisi, da região de Montese, foi até Casa Natalino e encontrou Anna Pasquina Sanuti, 93 anos, que foi morar no local no pós guerra. Segundo ela, por muitos anos chegaram flores do Brasil para colocar no local do terreno dela em que um soldado brasileiro havia sido achado morto. Ela também disse que algumas vezes, ia um brasileiro rezar no local também. Walter tirou uma foto dela mostrando o exato local em que as flores eram depositadas e onde seria um “fox-hole”, abrigo individual de onde o Pracinha foi retirado sem vida. É uma descrição que bate com os documentos de Rodrigues, porém, não há como afirmar que é ele mesmo.

A italiana, dona Anna mostra o local em que o brasileiro morreu. Ao fundo dá para perceber algumas das elevações próximas de Montese. Foto: Walter Bellisi

No livro “Uma Saudade” (1973), do 3º Sargento do 1° Regimento de Infantaria da FEB, João dos Santos Vaz, ele reuniu um relatório de todos os soldados brasileiros mortos na Itália e seus locais de morte. Somente um aparece como tendo sido morto em “Natalina”: Geraldo Rodrigues de Souza.

Incongruências

Os documentos da DPHCEx são atualizações dos originais, preenchidos pelo Pelotão de Sepultamento da FEB na guerra e são datados de 1973. A pesquisadora e especialista no assunto, Adriane Piovezan, fotografou os documentos originais e neles constavam mais informações que não batem com a narrativa popular. Os relatórios de morte de Arlindo e Geraldo Baêta foram datilografados em 25 de abril e o de Geraldo Rodrigues foi escrito a lápis em 11 de março (seria maio?).

Documentos de Geraldo Rodrigues. Primeiro feito com lápis, depois datilografado. Consta Natalina (Casa Natalino. Foto do acervo de Adriane Piovezan junto ao AHEX)

Geraldo Baêta e Arlindo estavam em decomposição, já Geraldo Rodrigues foi morto por um estilhaço de granada, inclusive constava um ferimento no glúteo. Uma vez morto por estilhaço em Casa Natalino, não haveria como estar enterrado junto a Arlindo e Geraldo Baêta em Montese e muito menos em Zocca- como chegou a ser escrito pelo comandante. Natalina/Casa Natalino é o local apontado nos documentos originais e nas atualizações fornecidas pelo Departamento Histórico do Exército.

Para completar, no documento “11º Regimento de Infantaria”, baseado no “Histórico do 11º Regimento de Infantaria Período 1943-1945”, que é uma coletânea das partes de combate e que foi compilado no final da guerra pelo Oficial de Operações do 11º Regimento, Adhemar Rivemar de Almeida, a morte de Geraldo Rodrigues teria ocorrido durante bombardeio no dia 14. Ele diz que Rodrigues suportou as bombas em seu abrigo e que e foi retirado de lá já sem vida.

Trecho do arquivo em que consta que Geraldo Rodrigues morreu com estilhaço, sendo retirado de um abrigo.

Primeiramente o livro foi escrito manualmente durante a guerra e datilografado posteriormente. Na versão escrita à mão, Adhemar dá a entender que a morte de Rodrigues foi em Montese. Já na versão atualizada e datilografada, que tem título “11º Regimento de Infantaria”, o local é apontado como “Natalina” (Casa Natalino), coincidindo com os registros do Pelotão de Sepultamento.

Uma foto de Casa Natalino, tirada pelo pesquisador italiano, Giovanni Sulla

Enterrados em dias diferentes

Arlindo e Geraldo Baêta foram enterrados às 15h de 24 de abril de 1945 e Geraldo Rodrigues, em 25 de abril às 13h, todos em Pistóia. Os três corpos foram enterrados com as plaquetas de identificação, conforme o regulamento. Junto ao corpo de Geraldo Rodrigues estavam as duas placas de identificação e a carteira de identidade. Já Geraldo Baêta e Arlindo tinham somente as duas plaquetas de identificação.

Ficha de sepultamento dos três, enviada pela DPHCEX

Arlindo e Geraldo Baêta foram identificados pelo terceiro sargento Ivolim Alves Monteiro, do Pelotão de Sepultamento, e Geraldo Rodrigues por um 3º Sargento do 11º Regimento de Infantaria, de nome José Alves Vasconcellos, da Cia de Comando – ambos eram da referida unidade.

A morte de Baêta

Geraldo Baêta da Cruz era do Destacamento de Saúde e teria morrido, segundo o coronel Adhemar Rivemar de Almeida, durante um bombardeio ao qual foi exposta a 2ª Cia do I Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, já dentro de Montese. O padioleiro teria perdido a vida quando se dirigia para socorrer o pelotão do 2º tenente Ary Rauen, que estava em uma região de campo minado e enfrentava bombardeios dos alemães. Essa informação consta no livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”.

Para escrever essa obra, Adhemar usou informações que ele mesmo tinha publicado no documento “Histórico do 11º Regimento de Infantaria Período 1943-1945”. Porém, nos documentos da época da guerra não aparece a morte de Baêta, como foi descrita no livro de Montese. Baêta teve o nome publicado como desaparecido, no boletim de 15 de abril de 1945.

A morte de Arlindo

Arlindo Lúcio era do grupo do tenente Iporan Nunes, da mesma 2ª Cia de Ary Rauen e foi elogiado, dois dias antes de morrer, por ter ido muito bem durante uma patrulha de preparação, a 12 de abril de 1945.

Arlindo sendo elogiado pela ação do dia 12 de abril de 1945

Conforme o já citado documento Histórico do Regimento, Arlindo constava como desaparecido em ação, no boletim de 16 de abril de 1945. Já fazia dois dias que tinha morrido. Ele recebeu uma medalha individual por bravura, 1ª Classe, pós-morte e a justificativa dela é o seguinte:

“No dia 14 de abril, no ataque a Montese, seu Pelotão foi detido por violenta barragem de morteiros inimigos, enquanto uma metralhadora alemã hostilizava violentamente o seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem colados ao solo. O soldado Arlindo, atirador de F.A [fuzil automático], num gesto de grande bravura e desprendimento, levanta-se, localiza a resistência inimiga e sobre ela despeja seis carregadores de sua arma, obrigando-a a calar-se. Nessa ocasião, é morto por um franco-atirador inimigo”. Esta informação está no livro “Expedicionários sacrificados na Campanha da Itália”, de Aluizio de Barros, de 1957.

Arlindo desaparecido, conforme documento histórico do 11° RI
Indicação de medalha para Arlindo por ato de bravura em combate. Do mesmo documento anterior

Os outros dois que teriam morrido ao lado dele não receberam a mesma medalha de 1a Classe, dada por ato de bravura individual e sim, de 2a Classe, por atos coletivos de bravura. Nos documentos não há respostas da razão de não terem sido agraciados com a mesma medalha.

Ficha manuscrita que mostra Arlindo desaparecido em combate
Ficha manuscrita que mostra Geraldo Baêta desaparecido em combate
Ficha que dá a entender que Geraldo Rodrigues também tinha morrido em Montese. Depois foi passado a limpo e aceita a versão do Pelotão de Sepultamento.

As distâncias entre os pontos

Os pontos em que Geraldo Rodrigues e os outros dois soldados morreram, são direções opostas do mesmo dispositivo de combate.

No livro já citado de Delmiro de Andrade, o comandante explica que a 2ª Cia, de Ary Rauen e Iporan Nunes, foi mandada pelas encostas Sul de Montese, na direção de Montaurígula, sendo muito hostilizada. No dia 14, estavam um pelotão da 2ª Cia na Cota 818 (Montaurígula) e a leste, dois grupos de combate rumo à cota 759, mantendo ainda um pelotão na cota 826. No sudoeste estava o Pelotão Especial e a oeste da cota 810, estava o Posto de Comando da 2ª Cia.

O inimigo teria feito uma pesada barragem ao sul das encostas de Montese, momento em que Rauen ficou imobilizado (11h07 de 14/04/1945) com seus homens e em que Geraldo Baêta, na versão de Adhemar Rivemar, teria morrido por um estilhaço. Para completar, algum tempo depois o próprio Rauen morreu com um tiro na testa. Esses fatos teriam se dado entre 13h25, quando cessou a preparação de Artilharia brasileira e 14h15, quando o comando dos homens de Rauen foi passado para o sargento auxiliar e eles ficaram barrados ao sul da cidade. Rauen, na versão de Adhemar, morreu primeiro que Baêta, que tinha ido socorrer os homens que estavam sendo bombardeados e acabou vítima de um estilhaço também.

Se Geraldo Baêta teria morrido em 14 de abril, com estilhaços, como comentou Adhemar, não haveria como seu corpo ter sido encontrado e enterrado por alemães, já que morreu em circunstâncias muito próximas de Ari Rauen. Inclusive, na mesma hora que Baêta foi atingido, teriam sido feridos também outros dois padioleiros: José Varela e Eduardo Gomes dos Santos que morreu em um hospital, horas depois (páginas 146-148, de “Montese: um marco glorioso”). Como teriam entrado os alemães em uma área já tomada pela FEB e raptado o corpo do padioleiro? Mesmo assim, como ele constava como desaparecido em boletim do Regimento, não há como afirmar o que ocorreu com seu corpo e como teria ido parar em poder dos alemães.

Às 15h o tenente Iporan Nunes penetrou em Montese, se aproveitando da fumaça da barragem de fogo que a artilharia da FEB vinha fazendo. Nesse momento, Arlindo ainda deveria estar vivo. Porém, não há como saber em que horário morreu, pois, também sofreram grande concentração de fogo e como informado anteriormente, o corpo estava extraviado em 16 de abril.

Por outro lado, Geraldo Rodrigues estava em sua posição, conforme o Histórico do 11º Regimento, quando foi atingido. Inclusive, era pública sua morte já em 15 de abril, o oficial que escreveu o referido documento pediu a exclusão dele do Regimento por motivo de falecimento, o que pressupõe que, ao contrário dos outros dois colegas, os companheiros de Cia sabiam onde estava o corpo do Pracinha, e talvez estivessem até em posse dele (o que não é possível afirmar só com base apenas nos documentos). O Batalhão que ele fazia parte estava do lado oposto dos dois primeiros.

Olhando os dois mapas abaixo é possível visualizar melhor.

A estrela amarela mostra o Posto de Comando do III e do II Batalhão/11°RI em 14/04/1945. Geraldo Rodrigues era da Cia de Comando do III Batalhão e deveria estar ali por perto, pois, Casa Natalino é ao lado de Sassomolare.
A estrela verde mostra a localização do I Batalhão/11°RI, em que estavam Arlindo Lúcio e Geraldo Baêta
A estrela azul foi a direção que tomou o ataque do III Batalhão, de Geraldo Rodrigues
Mapa do ataque à Montese, do livro “A FEB pelo seu comandante), de Mascarenhas de Moraes, de 1947

Resumão

Confirmadas as hipóteses acima, Geraldo Rodrigues teria morrido em bombardeio alemão à Cia de Comando do III Batalhão em Casa Natalino e teria sido encontrado pelo 3º Sargento Vasconcellos. Teria sido enterrado em Pistóia em 25 de abril.

Geraldo Baêta teria sido atingido por estilhaços dentro de Montese quando ia socorrer os homens de Ary Rauen, ficou desaparecido após ter sido vítima de uma bomba, tendo sido enterrado em Pistóia em 24 de abril.

Já Arlindo Lúcio teria morrido a tiros em combate em uma elevação de Montese. Foi enterrado em Pistóia em 24 de abril.

Seriam três momentos distintos no mesmo dia e ao que parece, não haveria a possibilidade de terem sido enterrados por alemães em Montese e muito menos em Zocca.Porém, os documentos do regimento não desmentem e também não confirmam os fatos. Neles, não há menção do achado dos corpos juntos em nenhuma parte.

Fonte oficial

Entramos em contato com a assessoria de imprensa do Exército Brasileiro, que nos pediu para procurar o Departamento Histórico, que além de nos mandar cópias dos boletins de morte de Arlindo, Baêta e Rodrigues, pediu para nos informarmos sobre o tema com a assessoria que havia sido procurada primeiro. A pergunta foi a seguinte: “O Exército confirma a história que envolve a morte e o posterior enterro por parte dos alemães, de Arlindo Lúcio da Silva, do GeraldoBaêta Cruz e do Geraldo Rodrigues de Souza? Se sim, quais documentos o Exército utiliza para legitimar o fato em si?”

Imagens de vídeo da Banda Sabaton que mostra soldados do Exército brasileiro tocando a música deles sobre a FEB. Youtube

Os contatos foram feitos em 12, 15 e 16 de setembro, por e-mail. No entanto, até o fechamento deste texto não houve retorno da assessoria em Brasília.

Procuramos também a unidade militar que era o 11° Regimento da FEB em 1943-1945, em São João del Rei/MG. Em contato com o 11º Batalhão de Infantaria de Montanha (11º BI Mth), a informação obtida é de que pessoal responsável pelo museu, que guarda os documentos da Campanha da Itália, procederá a pesquisa interna para checar os questionamentos levantados e que tão logo tenham resultado, o enviarão para a Redação, pois, se trata de material extenso.O contato foi feito na segunda-feira (21/09/2020), por telefone e e-mail. Se houver uma versão diferente do que foi mostrado aqui, a mesma será acrescentada.

Aparentemente a versão é aceita pela unidade militar, pois, há um monumento aos três, ao lado do pátio de formaturas do 11º BI Mth, datada dos anos 80, em São João del Rei/MG.

Foto do monumento na década de 80. Em contato no quartel, a informação é de que ele ainda existe.

Já o site da 5ª Região Militar, que corresponde à parte dos Estados do Paraná e Santa Catarina aparenta não ter dúvidas e em matéria de 2016, quando da visita da Banda Sabaton ao Brasil, publicou o seguinte: “Os soldados brasileiros: Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues de Souza e Geraldo Baêta da Cruz lutaram até o fim e foram mortos pelos inimigos, que, após o combate, colocaram uma cruz perto dos túmulos dos três com a inscrição: “Drei Brasilianische helden” (três heróis brasileiros). A história é verdadeira e documentada entre os vários atos de bravura dos soldados nacionais naquela campanha”. Não são apresentadas as fontes da declaração.

Banda Sabaton no Museu do Expediconário, sendo entrevistada pela filial da Rede Globo no Paraná, a RPC

Outros três heróis quase anônimos

Bem menos conhecidos, na localidade de Precaria, três brasileiros foram mortos após uma patrulha que só deu certo em parte, pois, cumpriu um de seus objetivos, que era estabelecer contato com os inimigos, mas, que falhou por ter perdido quatro homens, sendo três mortos e um ferido e prisioneiro.

Da esquerda para a direita: José Graciliano, Clóvis da Cunha Paes e Aristides José da Silva

Tudo começou na madrugada de 23 de janeiro de 1945, quando chegou uma ordem para que soldados do 1º Regimento de Infantaria partissem em reconhecimento para os lados do morro do Soprassasso. Deveriam alcançar a localidade de Precaria e buscar contato com o inimigo. A ordem foi transmitida pelo2° Tenente Gervásio Dechamps.

Segundo Jamil Amiden, no livro “Eles não voltaram” (p.89-91), o tenente teria pedido voluntários, ao que ninguém se ofereceu. Foi quando ele disse que escolheria e de imediato, alguns homens mudaram de ideia e se apresentaram.

Um dos grupos foi comandado pelo Sargento Virgolino Loyola (Ignácio Loyola de Freitas Virgolino). Andaram um bom pedaço e quando chegaram em Precaria, havia vestígios do inimigo, porém,os alemães não estavam ali, tinham se escondido um pouco mais para frente. Quando os brasileiros perceberam, já estavam levando morteiros e rajadas.

Um soldado chamado Aristides José da Silva (Leopoldina/MG)que estava mais atrás e que Loyola tinha ido buscar para acompanhá-lo lado a lado, foi o primeiro a cair. Avisaram o comando pelo rádio e foi dada a ordem para que avançassem mesmo assim.

Os brasileiros viram que os tiros partiam de uma casa e o cabo José Graciliano Carneiro da Silva (Recife/PE)tentou dar um jeito de chegar até lá, mas quando já estava bem perto, os alemães mandaram uma granada que o matou na hora.

O sargento então mandou todo mundo atirar ao mesmo tempo na casa e no tiroteio pegaram de volta o corpo do Graciliano, colocando-o do lado do de Aristides. Abrigaram-se e ao contar seus homens, Loyola percebeu que faltava o esclarecedor, Clóvis da Cunha Paes de Castro (Açaré/CE), que tinha ido à frente do grupo. Mesmo na confusão, ele escutou Clóvis pedindo socorro e foi até lá. Nisso percebeu que também estava ferido e mesmo assim trouxe o soldado para junto do grupo, porém, ele já chegou morto. Vendo que nem ele mesmo ia conseguir sair dali e que já estava sangrando bastante, Loyola ordenou aos homens que partissem e o deixassem ali com os três mortos.

A ordem foi seguida e mais tarde naquela noite os alemães foram conferir o estrago. Foi quando acharam Loyola ainda respirando e o levaram prisioneiro, tendo enterrado os outros três e colocado a inscrição em alemão em uma cruz de madeira: três bravos Brasil. Os corpos foram achados em março, após o avanço brasileiro por sobre Soprassasso/Castelnuovo.

O nome de Aristides foi usado pelos alemães em uma propaganda contra os brasileiros, onde diziam que o fim dos homens da FEB seria a morte, igual aquela do Pracinha da ilustração. (Imagem abaixo)

Ilustraram com uma imagem nada parecida com o soldado real

O observador avançado do 6º Regimento de Infantaria, Newton A. Mello, anotou o fato no diário dele e confirmou que os três corpos foram encontrados enterrados, juntos, em Precaria. “Deverão ter sido realmente épicos dos seus feitos. Aquela sepultura simbolizará, séculos a fora, a bravura dos filhos do Brasil”, publicou na obra “Meu Diário de Guerra”, p. 171.

Já o comandante da Cia de Obuses do 6º Regimento, Domingos Pinto Ventura, também confirmou o achado dos corpos e acrescentou que “o sargento Virgulino foi levado pelos alemães, que o trataram e o curaram, tendo sido entregue ao comando brasileiro no dia do cerco das divisões inimigas, a 29 de abril de 1945”. Segundo ele, os homens mortos eram da 5ª Cia do 1º Regimento de Infantaria. A missão do grupo era sair de Torre di Nerone e estabelecer contato com os alemães pela Cota 720, justamente um dos pontos mais guarnecidos pelos tedescos (Livro “Minha Vida”, p.72)

Em 19 de junho de 2012, autoridades brasileiras e italianas homenagearam os três soldados do 1º Regimento com um pequeno monumento em Precária. Ao contrário dos supostos três de Montese, não houve músicas e nem séries para homenagear os dois nordestinos e o mineiro mortos naquela refrega.

Inauguração do monumento em Precária. Foto da Aditância do Exército junto à Representação Diplomática do Brasil na Itália

A foto abaixo é da exumação dos corpos dos três. Temos outras em que é possível identificar os mortos pelos rostos, conservado na terra fria e porque os alemães lhes cobriram as faces com as capas impermeáveis que estavam usando. No entanto, preferimos não colocar as imagens por serem fortes e por respeito à memória dos três.

Cruz com os dizeres: três bravos brasileiros. Eles estavam em uma vala, amontoados e cobertos por terra. Literalmente quer dizer “três bravos Brasil” e não “três heróis”.
Exumação dos corpos. Foto assinada pelo fotógrafo oficial da FEB, Horácio Coelho. Imagem do livro “Heróis do Brasil”, de Giovanni Sulla e Ezio Trota

Conclusão

Três soldados brasileiros foram enterrados pelos alemães em Precaria e receberam uma cruz com os dizeres: três bravos Brasil.

Não há como confirmar e nem como negar que mais três soldados tenham sido enterrados em Montese após terem sido mortos no dia 14 de abril, naquela localidade. Baseado nos documentos disponíveis é possível afirmar que, com certeza, muita coisa não bate sobre o fato.

Três soldados da FEB NÃO morreram lutando até a morte em Montese e depois foram homenageados pelos inimigos. A informação teria nascido do livro do já citado Gentil Palhares.

Os seis mortos podem ser considerados heróis por terem dado a vida pelo Brasil.

Membro da Banda Sabaton falando sobre a composição ao pessoal de Montese. Youtube
Banda Sabaton em Juiz de Fora/MG. Youtube

Agradecimentos por auxiliar com dados e documentos:

Adriane Piovezan (Brasil)

César Campiani Maximiano (Brasil)

Daniele Bernardi (Itália)

Diego Antonelli (Brasil)

Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx)

Edson Lopes (Brasil)

Giovanni Sulla (Itália)

Walter Bellisi (Itália)

Referências

“11º Regimento de Infantaria”

“Histórico do 11º Regimento de Infantaria Período 1943-1945”

ALMEIDA, Ademar Rivermar de. Montese: marco glorioso de uma trajetória. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.

AMIDEN, Jamil. Eles não voltaram. Rio de janeiro: Gráfica Riachuelo Ed., 1960.

ANDRADE, Delmiro Pereira. O 11º R.I. na 2ª Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1950.

BARROS, Aluizio de. Expedicionários Sacrificados na Campanha da Itália. Rio de janeiro: Bruno Buccini, 1957

MELLO, Newton Corrêa de. Meu diário de guerra na Itália. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947.

PALHARES, Gentil. De São João del Rei ao Vale do Pó. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1967. [1ª Ed. 1951 ]

PINTO JUNIOR, Domingos Ventura. Minha Vida. Rio de Janeiro: O Autor, 2007.

VAZ, João dos SantosUma Saudade, 1973, Imprensa do Exército.

Blog do Braga: http://bragamusician.blogspot.com/2014/04/notas-historicas-por-lincoln-de-souza.html

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