Capitão baleado em Abetaia foi salvo da morte por soldado que virou amigo dele

João Tarcísio Bueno era natural de Mato Grosso. Vinha de uma família de militares, que ajudaram na consolidação da fronteira oeste do Brasil. Descendia de modo distante do bandeirante Anhanguera, Bartolomeu Bueno da Silva.

Formou-se oficial na turma de 1932, voltou para a terra natal e trabalhava na 9ª Região Militar. Foi ali que ele conheceu outro personagem famoso da Força Expedicionária Brasileira – FEB, Zenóbio da Costa, que foi o comandante da infantaria. Zenóbio era de Corumbá, na época, parte do Mato Grosso e hoje Mato Grosso do Sul.

Capitão Bueno e soldado Sérgio (Foto: AHEx com correção da Redação)

Da amizade entre os dois, resultou que quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, João Tarcísio Bueno, já capitão, foi convidado para fazer parte dos auxiliares de Zenóbio, embarcado no primeiro escalão como ajudante de ordens.

O médico Alípio Corrêa Netto, no livro “Notas de Expedicionário médico”, editado em 1983, comenta que João Tarcísio Bueno sabia que tinha um dos pulmões comprometido por suspeita de tuberculose, e que se negou fazer exame de detecção da doença antes de embarcar. O médico conta, na página 54 do livro, que foi exatamente a doença que o salvou da morte, como se verá.

Na Itália

Após um batismo de fogo pouco positivo, a 1ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria precisou ser tirada de linha, em Casa Guanella, quando após o ataque de uma patrulha reforçada alemã, a maioria dos homens fugiu.

Por imprudência ou tentativa de provar algo, Zenóbio da Costa que era quem dava as ordens na a Infantaria, sugeriu a Mascarenhas de Moraes que os mesmos homens que tinham sofrido um batismo de fogo traumático em Guanella, fossem atacar o Monte Castello, durante a quarta tentativa de tomada da elevação, em 12 de dezembro de 1944.

Para elevar a moral dos homens, ele escolheu ninguém menos que João Tarcísio Bueno, seu homem de confiança, para liderar o ataque de um dos pelotões, bem pelo meio do dispositivo que passava por Abetaia, que é um dos pontos que até hoje dão acesso ao Monte e por isso mesmo, naqueles dias, bastante visado pelos alemães. Bueno teve só dois dias para conhecer e motivar a tropa.

Situação complicada

Logo no início do ataque os alemães perceberam a movimentação brasileira, até porque horas antes do ataque, a artilharia americana havia quebrado o fator surpresa com uma saraivada no setor vizinho à Monte Castello. Cientes do que estava por vir, os tedescos despejaram morteiros e tiros de metralhadoras que paralisaram os brasileiros.

Bueno, com muito sacrifício, chegou até Abetaia, porém os inimigos isolaram o grupo dele, com fogos de todas as partes e ainda tiraram as comunicações de ação, rompendo fios e acertando soldados que carregavam radiotransmissores.

O relógio marcava 11h37, quando chegou um mensageiro ao comandante do I Batalhão do 11º Regimento de Infantaria e informou que Bueno havia sido baleado quando tentava avançar com seus homens, ao levantar-se para atirar uma granada.

No Posto de Observação viram ele caído a 30 metros de uma casa. Mandaram um soldado buscá-lo, mas, quando o jovem estava a 50 metros do oficial, levou um tiro dos alemães.

Segundo a parte de combate do dia, do 11º Regimento de Infantaria, tentaram por outras três vezes buscar o Bueno, inclusive mandando padioleiros identificados com a cruz vermelha, mas, os alemães não permitiam a aproximação.

Enquanto isso os homens comandados por Bueno permaneciam isolados e ficaram assim até às 20h, quando finalmente conseguiram retornar para a base de partida. O ataque frustrado começara às 6h!

De noite, Max Wolf, 3º sargento que comandava um grupo de combate especial, também saiu em busca de Bueno. Não o encontrou, mas, conseguiu encontrar soldados dispersos e feridos.

E depois?

Quando foi baleado, Bueno levava junto de si, o seu braço direito até ali, o ordenança Sérgio Pereira, que o ajudava no cotidiano e era seu amigo. Quando o tiro acertou o comandante dele, Sérgio memorizou o local, mas, não conseguiu resgatá-lo.

Sérgio Pereira

No retorno as posições brasileiras, na versão de Floriano de Lima Brayner, o general Zenóbio da Costa teria ficado furioso ao saber que Bueno tinha ficado para trás e que o ordenança não tinha trazido nem sequer o corpo.

Porém, Lima Brayner e Zenóbio não se davam muito bem, por isso, a versão é questionável. Tanto que Brayner usou a palavra “negro” algumas vezes, para fazer questão de mostrar que o desafeto dele, teria sido racista. Ainda que haja outros episódios que também dêem a entender que Zenóbio teria sido racista em outras ocasiões com soldados da FEB, só há a versão de Brayner para o caso de Sérgio Pereira.

Na versão de Adhemar Rivemar de Almeida é confirmado que do posto de observação os homens viram o corpo de Bueno por algum tempo, até que ele desaparecesse.

Nesse meio tempo

Enquanto os brasileiros batiam em retirada, os alemães foram checar os corpos dos inimigos mortos e feridos. Eles roubaram a pistola do capitão Bueno, não tendo dado o tiro de misericórdia, pois, acharam que ele já estava morto.

O neto de Bueno, Alexei, que escreveu o livro “João Tarcísio Bueno: herói de Abetaia”, conta que na verdade não foram metralhadoras que acertaram o avô e sim as ditas balas “dum dum”, munição expansiva que com impacto aumenta de diâmetro e produz um ferimento bastante grande. No caso de Bueno, o buraco aberto foi de 12 centímetros.

Alexei narra que depois que os alemães se foram, Bueno se arrastou e se jogou dentro de um rio semi congelado, que segundo o neto, pode ter sido o que salvou a vida dele.

É aí que Sérgio volta à cena. De madrugada, Sérgio Pereira, o ordenança, atravessou sozinho as linhas brasileiras, entrou na pela terra de ninguém e foi procurando pelo capitão. Quando o encontrou, foi puxando e de arrasto o colocou em um local seguro até que ficasse bem próximo das linhas brasileiras e padroeiros pudessem resgatá-lo e dar os primeiros socorros.

Mandado para o hospital, as esperanças de que Bueno melhorasse não eram muitas. Foi mandado de volta para o Brasil em um navio de transporte, amarrado a uma cama, para poder se tratar por aqui. A tuberculose foi confirmada e foi um agravante ao drama que ele já vinha enfrentando desde o tiroteio em Abetaia.

Fora de combate

Ao chegar ao Brasil, a família foi avisada e a esposa foi para o hospital militar, onde o encontrou jogado no chão, amarrado a uma maca, ao lado de esgoto aberto. Imediatamente ela telefonou para o Ministro da Guerra, na época, Eurico Gaspar Dutra. Dali ele foi transferido para um hospital particular para tratar-se e também para se recuperar de uma pneumonia que também adquiriu por conta do trágico estado em que se encontrava.

O improvável acontece

Mesmo com problemas de saúde, um ferimento severo, tendo sido deixado para morrer e resgatado pela ordenança, Bueno se recuperou. Porém, precisou manter o tratamento da tuberculose, sendo transferido para Belo Horizonte onde havia um bom tratamento na época e em 1946 foi promovido a major reformado, por não ter condições de trabalhar. Em 1950, foi elevado ao posto de coronel e reformado de vez como general de Brigada.

Pode não parecer, mas, são a mesma pessoa: o capitão Bueno antes de ir para a guerra e ele em 1946, apenas um ano após o ocorrido em Abetaia. Nota-se bem mais envelhecido. (Foto: AHEx e acervo de Alexei Bueno, do livro dele)

Fora isso, o antigo capitão da FEB precisou fazer tratamento nos Estados Unidos para retirar pequenos estilhaços que ainda estavam no corpo dele e viveu apenas com um pulmão. É isso que Alípio Correia, o médico, quer dizer quando defende que foi a doença que o salvou, pois, o tiro pegou do lado do pulmão que era comprometido com tuberculose.

O salvador

Sérgio Pereira era de família humilde de Minas Gerais. Em entrevista que deu a Sírio Sebastião Fröhlich, no livro “Vozes da Guerra”, página 128 e 129, ele disse que não fez mais do que obrigação dele. “O capitão estava em combate peito a peito, muito próximo do inimigo. Ele estava à frente da companhia, ao meu lado quando caiu. Pegaram feio mesmo! Arrebentaram as costelas com uma metralhadora… Os outros voltaram. Eu enfrentei o desafio: não voltei; fiquei lado dele. Depois eu coloquei nas costas e fui trazendo, até onde ele pudesse ser socorrido. (…) Foi uma ação normal! Era a missão a ser cumprida. Eu era ordenança dele, e era o meu dever”, explicou décadas depois.

O general Lucian Truscott, comandante do V Exército dos EUA, condecorando Sérgio com a Bronze Star pelo feito (Foto: AHEx)

Porém, o antigo comandante não se esqueceu do salvador e Sérgio Pereira conseguiu um emprego na Polícia Civil do Rio de Janeiro, tendo chegado, inclusive, a ser delegado. Bueno intermediou para que ele tivesse boas referências para entrar no serviço público. As famílias ficaram muito amigas e Sérgio foi padrinho de casamento de uma das filhas de Bueno.

Destinos Entrelaçados

Em 1963, jantando com a família, sofrendo de um edema pulmonar, João Tarcísio Bueno passou mal e precisou ser internado, no dia 4 de abril daquele ano. Sérgio Pereira o via com freqüência e ao visitá-lo no dia 6 de madrugada, quando revezava com uma das filhas os cuidados do amigo, notou uma espuma rosada saindo dos lábios do antigo comandante e, segundo o neto de Bueno, Alexei, como que em uma história cinematográfica, quem estava no momento do último suspiro do oficial da FEB, foi Sérgio Pereira, o mesmo homem que o resgatara da morte em 1944.

Alexei conta ainda que no atestado de óbito constava que a morte havia se dado em decorrência do ferimento recebido na guerra. João Tarcísio Bueno foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Não encontramos a data de falecimento de Sérgio Pereira.

Bibliografias

ALMEIDA, Ademar Rivermar de. Montese: marco glorioso de uma trajetória. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.

BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB (memórias de um chefe de Estado-Maior na Itália). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

BUENO, Alexei. João Tarcisio Bueno: o herói de Abetaia. Rio de Janeiro: Editora G. Ermakoff, 2010.

CORRÊA NETTO, Alípio. Notas De Um Expedicionário Médico. São Paulo-Brasil: ALMED, 1983.

FRÖHLICH, Sírio Sebastião. Vozes da Guerra. 1. ed. Rio de Janeiro: Biblex, 2015

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