Frei Orlando: um controverso e duvidoso processo de beatificação

Em 2009 e 2013, Exército brasileiro informava que processo de beatificação de Frei Orlando seguiria para o Vaticano; em 2020 as forças militares afirmam desconhecer a existência de algum processo sobre a beatificação do religioso

            Um homem sensível e misericordioso que procurou levar a paz e a fé para o epicentro da guerra mais sangrenta do século 20. Frei Orlando, nascido em 1913, teve como primeira função na 2ª Guerra Mundial realizar uma missa para os pracinhas brasileiros na catedral da cidade de Pisa. Acabou sendo um dos poucos oficiais mortos na Itália, tendo perdido a vida em 20 de fevereiro de 1945, como revela a historiadora Adriane Piovezan. Um tiro acidental dado por um partigiano (força de resistência italiana que lutava contra o fascismo) acabou com a vida de Orlando, que carregava a patente de capitão.

Frei Orlando

Passados 64 anos de sua morte, anunciou-se em 2009, que seria dado início ao processo de beatificação de Frei Orlando junto ao Vaticano. Segundo informações da época, a fase diocesana do processo estaria concluída. A novidade foi divulgada pelo Exército Brasileiro na Revista Verde Oliva, número 201. O veículo é uma publicação oficial das forças militares do país, sendo responsabilidade do Centro de Comunicação Social do Exército. A página 19 dessa edição informa que:

 “Frei Orlando que sempre viveu de forma heroica as virtudes cristãs, teve seu nome indicado à beatificação. Por isso, neste ano, o dia do SAREx [Serviço de Assistência Religiosa] – 13 de fevereiro – foi duplamente comemorado, já que marcou a clausura da fase diocesana do processo de beatificação (…) O Comando Militar do Leste realizou uma missa na cidade de São João del Rei, prestigiada pela família do Frei. Durante a cerimônia, foi lida a ata de beatificação de Frei Orlando, a qual foi assinada por autoridades civis, eclesiásticas, militares e pelos familiares do Frei, sendo colocada em uma urna e enviada ao Vaticano. Na oportunidade, foi realizada a primeira leitura da Oração pela Beatificação do Frei Orlando”.

Em 2013, quando se celebrou o centenário de nascimento do Frei Orlando, a edição 219 da mesma revista Verde Oliva reforçou a informação anterior e destacou que naquele 2009 os restos mortais de Frei Orlando “foram levados para São João del Rei, por ocasião do encerramento da fase diocesana de seu processo de beatificação”. Até então o túmulo havia permanecido no Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.

Porém, em 2020, passados 11 anos desde a notícia de que o processo de beatificação teria sido remetido ao Vaticano – após o fim da fase diocesana – o Exército Brasileiro voltou atrás e afirma desconhecer qualquer processo de beatificação de Frei Orlando.

Em contato por e-mail via Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx) e Seção de Divulgação e Comunicação Social (SDCS), as forças militares informam que “não têm conhecimento acerca da existência de algum processo que trate sobre a beatificação do Capitão Capelão Militar Antônio Alvares da Silva – Frei Orlando (1913- 2013). Consta que no período que antecedeu as comemorações do centenário de Frei Orlando surgiu em São João Del Rei/MG, um movimento objetivando criar condições para se iniciar o processo de beatificação daquele religioso, porém a falta de conteúdo básico e de um “postulador” (escrivão padre) dificultaram o início do processo”.

Além disso, informa que não possuem “conhecimento de milagres oficialmente atribuídos ao Frei Orlando, porém sabemos que ele era um frei Franciscano diferenciado, por sua alegria contagiante e suas atividades humanitárias”. Em contato via e-mail, o Vaticano não se manifestou.

Quem era?

Frei Orlando nasceu em Morada Nova, em Minas Gerais, em 13 de fevereiro de 1913. Filho do negociante e Juiz de Paz Itagyba Alvares da Silva e de Jovita Aurélia da Silva. No dia 18 de março, Antônio Alvares da Silva foi batizado pelo padre João Bernardino Barone na Igreja de Nossa Senhora de Loreto. Em homenagem ao avô paterno, recebeu seu nome. Era o caçula de oito irmãos.

Frei Orlando entre os soldados da FEB, no navio que os levava para a Itália. Ele está de óculos aqui na esquerda. Imagem do livro “Frei Orlando: o capelão que não voltou”, de Gentil Palhares

Aos três anos de idade ficou órfão de mãe e pai. Passou a ser criado e educado por seus vizinhos Sebastião de Almeida Pinho (um farmacêutico) e Dona Emirena Teixeira Pinho (a “Dona Ninita”), que eram velhos amigos de seus pais.

Em 1922, tornou-se coroinha. Em 5 de janeiro de 1925, ingressou no Colégio Seráfico de Divinópolis para fazer o Seminário Menor. Aos 16 anos, recebeu uma carta de sua mãe adotiva informando que seu pai de adoção havia sofrido um derrame. Pela primeira vez, chorou amargamente. Seu segundo pai veio a falecer em 13 de julho de 1929.

Para terminar seus estudos, seguiu para a Holanda no dia 17 de fevereiro de 1931, onde ingressou na Ordem Franciscana. Fez o sexto ano do Seminário Menor no Colégio Seráfico de Sittard e, em 7 de setembro de 1931, recebeu, no noviciado em Hoogcrutz, aquele o hábito marrom com o cíngulo branco de três nós – a “Obediência, Pobreza e Castidade”. Estudou em Venray dois anos de filosofia e no convento de Alverna, um ano de teologia, onde passou a adotar o nome religioso de “Orlando”. Em Wijchem, foi autorizado seu regresso ao Brasil.

Regressou da Holanda a bordo do navio “Highland Monarch” no final de setembro de 1935. Em São João del Rei, instituiu a “sopa dos pobres”, um trabalho social que recebeu o apoio de muitos integrantes do 11º Regimento de Infantaria – Regimento Tiradentes (11º RI). Com o ingresso do Brasil na 2ª Guerra Mundial, Frei Orlando presenciou a preparação brasileira para a participação na campanha da Itália.

Quando o Comandante do 11º RI, já acantonado no Rio de Janeiro, enviou despacho telegráfico ao Comissariado dos Franciscanos em São João del Rei, solicitando a indicação de um religioso para capelão militar, Frei Orlando Orlando apresentou-se como voluntário para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB).

 “Uma de suas obras marcantes no Brasil era a sopa dos pobres. A prática de preparar comida para pessoas humildes foi levada pelo franciscano à Itália, no caso, para alimentar a população italiana atingida pelas mazelas da guerra”, escreve Adriane Piovezan.

Foram enviados ao front italiano 25 capelães católicos e dois protestantes, os religiosos tinham a função de prestar assistência religiosa. “Na prática, missas eram rezadas diariamente, se assim a situação militar o permitisse, confissões eram ouvidas, alguns sacramentos ministrados. Os padres e pastores esforçaram-se por estar junto dos feridos e moribundos, tanto na linha de frente quanto nos hospitais à retaguarda”, conta a autora.

Segundo relatos históricos, Frei Orlando sempre buscava identificar e remover os corpos insepultos dos soldados mortos. Ele ainda escrevia cartas e lia correspondências para os que não eram alfabetizados e, principalmente, tentava sempre estar junto com a tropa.

Milagre?       

Para ser declarado beato, precisa-se de uma “fama de santidade” espontânea, constante e documentada com o passar do tempo, e deve ter um milagre comprovado após sua morte. No caso do santo são necessários dois milagres. “Em diversas cerimônias e nas publicações alusivas aos desdobramentos dessa tentativa de iniciar o processo de beatificação, não fica evidente quais ‘milagres’ seriam atribuídos para a beatificação de Frei Orlando”, escreve Adriane.

Em contato telefônico com a paróquia São João del Rei também não souberam informar nenhum milagre específico.

Frei Orlando dirigindo um jipe na neve, no mês anterior ao acidente fatal. Imagem do livro o “Frei Orlando: o capelão que não voltou”, de Gentil Palhares

Morte

            Na missão de levar a mensagem religiosa a uma tropa no front um dia antes de ela entrar em ação na tentativa de se tomar Monte Castelo, Frei Orlando perdeu sua vida. Ele aceitou a carona em um jipe que teve problemas mecânicos.

Na tentativa de desencalhar o veículo, um partigiano, que seguia com eles, disparou sua arma acidentalmente. O tiro feriu Frei Orlando, que, percebendo a gravidade do ferimento, teria tirado um rosário do bolso e iniciado uma oração. Em outra versão histórica, ele não teria chegado a tirar o rosário do bolso.

            Após a morte, foi homenageado como patrono do Serviço de Assistência Religiosa do Exército (Sarex.)

            Como era véspera do ingresso das forças brasileiras na tomada de Monte Castelo, não houve velório e nenhuma despedida. O corpo acabou sendo levado, posteriormente, para Pistoia e, anos depois, encaminhado ao Brasil. 

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