Os soldados ucranianos de Hitler, Stálin e Vargas

Se houvesse uma lógica nacionalista para os imigrantes no Brasil, os ucranianos poderiam muito bem ter impedido seus filhos e netos de se alistarem na Força Expedicionária Brasileira – FEB.

Isso porque por razões políticas da antiga pátria, historicamente não cultivavam boas relações com os russos (depois soviéticos) e muito menos com os poloneses, duas partes aliadas do Brasil na II Guerra. Contra o Eixo, no começo não havia atritos, mas depois vieram os abusos…

A Ucrânia durante sua história já havia sido invadida por Criméios, Atas e Sármatas do atual Irã, sucedidos pelos hunos, Godos, nômades e eslavos. Depois vieram os vikings que fundaram Kiev, mongóis, lituanos, turcos, poloneses, checos, romenos, suecos, austríacos e russos. A nação só foi livre por curto espaço de tempo no século XVI. Tantas guerras fizeram brotar um sentimento de nacionalidade ucraniana que vez ou outra estourava em forma de revolta contra o país dominador. Revoltas que eram contidas com violência.

No final do século XIX, nas províncias de Galícia e Volyn, reivindicadas por austríacos, russos e poloneses, a Igreja Ortodoxa com a ajuda de agências de recrutamento de trabalhadores tiveram a ideia de trazer imigrantes para o Brasil recém República.

A viagem começava na Galícia, Volyn ou em outra parte do país passando por esses territórios. Nessas províncias eram dados passaportes austríacos e os imigrantes partiam para portos da Áustria e dali para o Brasil com escala no Rio de Janeiro, Paranaguá e Curitiba, aonde decidiam para qual cidade iriam morar.

Foram 45 mil pessoas da Galícia para o Brasil, com mais 120 famílias de Volyn até 1905. O Paraná foi o lar escolhido por 33,5 mil ucranianos, depois o Rio Grande do Sul (2.245), São Paulo (211famílias), Santa Catarina (160 famílias) e Espírito Santo (70 famílias).

Prudentópolis foi quem mais recebeu imigrantes, oito mil pessoas. Hoje, 75% da população é bisneta ou tataraneta dos primeiros ucranianos fugidos das sangrentas guerras do final do século XIX. No Paraná tinham escolas, liberdade e a igreja ortodoxa que facilitou a adaptação.

Família de imigrantes ucranianos em Prudentópolis. (Foto: Página Prudentópolis –
Antigamente)

Reproduzir o estilo de vida ucraniano no Paraná do início do século XX, por exemplo, era impraticável, tanto pelo clima, quanto pela diversidade étnico-cultural já existente há séculos. Os imigrantes trouxeram consigo sua cultura e os reflexos de vivências e ocupações por povos diferentes ao longo dos séculos.

Não é incomum encontrar sobrenomes austríacos ou poloneses nas cidades de maioria ucraniana, como na já citada Prudentópolis, em Mallet (60%) ou em Paulo Frontin (55%). Da mesma forma, são achados esses sobrenomes em Ivaí, Antônio Olinto, Roncador, União da Vitória, Paulo Freitas, Cruz Machado e Pitanga, onde os descendentes de Galícianos e Volyneses varia de 12% a 45%. Isso porque nas regiões de fronteira poloneses, austríacos e ucranianos se misturavam no sentido amplo da palavra. Vieram para o Brasil recomeçar uma vida sem guerras juntos.

Em Prudentópolis, a extração de madeira ajudou nos primeiros anos de instalação. (Foto: Página Prudentópolis –
Antigamente)

Nas capitais, como em Curitiba, eram assimilados mais rápidos. No interior, aprendiam com indígenas e seus descendentes, com os caboclos e com quem já estava, a melhor forma de cultivo da terra, o quê e quando plantar.  Ao mesmo tempo contribuíam com tecnologias relativamente novas de enriquecimento e trato da terra, ferramentas e técnicas de construção. Era uma troca frutífera.

Em contrapartida, o governo brasileiro colocava apenas brasileiros nas posições de comando das colônias que os recebiam, a ideia era abrasileirar quem estava chegando e não o contrário. Somente na primeira geração brasileira por nascimento é que os descendentes alcançaram cargos de maior expressão política.

II Guerra Mundial: os soldados ucranianos de Hitler e Stálin

Na década de 30, enquanto os ucranianos do Brasil já estavam adaptados, surgiu o nazismo na Alemanha, que era contra os poloneses. Parte dos ucranianos de lá começou a admirar Hitler, afinal o inimigo do meu inimigo é meu amigo… No começo, com o pacto de não agressão entre Alemanha e Rússia, os ucranianos se beneficiaram com a sonhada independência que tinham experimentado apenas em curtos espaços da história deles. Os dois lados diziam que apoiariam a liberdade plena.

Os Galícianos e volyneses preferiram dar mais apoio aos alemães, afinal, a história condenava os russos, que por outras vezes tinham prometido liberdade, mas que depois haviam mudado de idéia.

Com trajes típicos, nacionalistas apoiam os alemães.

Porém, com o fim do pacto e a invasão da Alemanha à Rússia, os ucranianos voltaram a fazer parte dos aliados soviéticos no papel.  Isso em 1941. Os alemães ocuparam a Ucrânia e trataram os eslavos como povo de terceira classe, deixando apenas a polícia nas mãos das autoridades locais. Judeus, cidadãos não desejados e opositores foram massacrados nas valas comuns de Babi Yar, em um total de mais de 100 mil vítimas.

O Reich instalou uma coordenação de seus assuntos em Kiev e tudo era motivo para matar. Para se ter uma ideia, a população da capital foi reduzida em 60% com 2,3 milhões de deportações.

Então, a saída do povo foi recorrer aos russos, de novo. A desconfiança fez o país se dividir e havia quem preferia os alemães. Um terceiro grupo, liderado Taras Borovets, se juntou e formou o Exército Insurgente Ucraniano, que atacou os dois lados. Em 1943 mais grupos guerrilheiros se juntariam à eles, que eram tidos como heróis e como bandidos por terem essa dupla função de ataque.

Exército de guerrilheiros atacava o Eixo e os Aliados. São vistos ainda hoje como heróis e vilões

O fato é que os guerrilheiros controlaram boa parte de Volyn e Galícia até 1945, aterrorizando judeus e poloneses com vinganças étnicas. Os alemães e russos começaram a usar as disputas históricas locais para gerar conflitos internos. Poloneses e ucranianos voltaram a se enfrentar nas fronteiras, seja por retaliação, seja para não ficar debaixo do domínio russo.

Os nazistas saíram na frente e criaram a SS Galícia, formada como força de elite com jovens para combater os soviéticos, tropa que foi massacrada já na primeira batalha, em Brody. Quem sobrou vivo foi colocado em outras unidades alemãs para recompletamentos.

A batalha de Kursk definiu a vitória aliada e Stálin se deu conta que os ucranianos eram indispensáveis para uma vitória total. Valorizou a cultura do país, criou uma medalhinha em homenagem aos cossacos, reestabeleceu os ministérios da Economia e Defesa e deu ordem para que Kiev fosse libertada como comemoração do aniversário da Revolução Russa de 1917. Todos os homens de 18 a 50 anos foram convocados para a luta, mesmo que não estivessem treinados. Missão dada e missão cumprida.

Ucrânia livre dos nazistas, mas sob o domínio vermelho

Soldados soviéticos falam com sobreviventes de Auschwitz

As primeiras tropas a libertar Auschwitz e a entrar em Berlim, eram ucranianas. O preço da vitória contra os nazistas foi caro, com 700 cidades, 28 mil vilas destruídas e 5,5 milhões de civis mortos. Os guerrilheiros Insurgentes fizeram frente aos soviéticos até 1950, quando foram presos, deportados ou mortos. Dos seis milhões de soldados da União Soviética que lutaram nas quatro frentes ucranianas, 25% morreram.

Tropas soviéticas marcham em Kiev após expulsar os nazistas

Na conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, os Aliados já tinham decidido que a Ucrânia ficaria com os russos e assim foi feito. Como propaganda, Stálin colocou os ucranianos como país livre na fundação da Organização das Nações Unidas e devolveu todos os territórios que haviam sido ocupados por séculos por poloneses, checos e romenos. Dali em diante a Ucrânia só se veria livre dos soviéticos em 1991, quando se tornou independente.

 

Os soldados ucranianos de Vargas

Os descendentes de ucranianos que integraram a FEB foram vários. Apenas para exemplificar, de Prudentópolis, onde vivia a maior população eslava, foram 60 soldados, dos quais, 26 tinham sobrenomes ucranianos, como Pietroska, Burei, Chociai, Kaczaroski, Maistrovicz, Beló (do original Bilyy), Krenda, Krycyk, Iactukm, Zdebski, Boiko, Sukomonoski, Moroczko, Hamulak, Berenda, Michalichen, Chomexem, Futra, Horewicz, Hladik, Michalingen, Zavrabeline, Demzuk e Krominski.

Soldados da FEB com sobrenome ucranianos eram comuns entre os paranaenses. (Foto: Portal FEB)

Se expandirmos para outras cidades do Paraná, vizinhas de Prudentópolis, encontramos ainda Vanrek (Rebouças), Piurcoski, Voltiki, Stalzak, Kresinski (Ponta Grossa), Schurka, Hneda e Briek (Ivaí), Mialeski, Temiacki (Palmeira), Venske e Tabok (Imbituva), Luchinski, Maravieski e Golombieski (Rio Azul), Waieski, Kozinski, Lusko, Rudinicak, Protzek, Luginheske, Hornaki, Stecki, Rosdaíbida, Baniski, Horban, Klukoski e Zavaski (Irati), Schastai, Stival e Malchlak (Ipiranga), Scraba, Kolachinski, Kinage, Ladaniski, Halaiko, Kochinski, Belinoski, Kravetz (Lapa), Pianwski, Dewniski, Wiodkoviski, Hupalo, Levandoski, Haneiko, Katechak, Arcenko, Mosko, Siuta, Kuzma, Burlinski, Lachoski, Biliki, Bartochek, Olink, Wasselkos, Kroyn, Jatiseraski, Rusineck, Sokolowski, Toflisnki, Kinal, Kamita, Rotelvk, Haracema, Burek, Gasvonski, Zalutzki, Lozinski, Pacheczuk, Maetechko, Dulek (Mallet) e por aí iríamos muitos com muitos outros nomes.

Ah, mas tem nomes na lista que parecem poloneses e austríacos! Sim, lembremos que na região de onde vieram os imigrantes, Galícia e Volyn, as três nacionalidades se misturaram muito ao longo dos anos, sendo o território e a cultura os fatores a definirem a nacionalidade com a qual se apresentavam. Só de uma levada, em 200 mil poloneses foram mandados para “colonizar” essas regiões, justamente na época das imigrações para o Brasil, no final do século XIX.

Parentes bem distantes no front brasileiro

Homenagem de nacionalistas ucranianos aos soldados deles que lutaram ao lado dos alemães na Itália. Fica na cripta do Cemitério Alemão de Passo della Futa. (Foto: V de Vitória)

Como vimos, na II Guerra os ucranianos europeus lutavam contra o domínio nazista, mas também contra o domínio soviético. O Brasil era aliado da União Soviética.

Como o governo juntou esses descendentes e enviou ao combate pela FEB? Simples: com políticas de assimilação. Assim que Getúlio Vargas assumiu o cargo de presidente, em 1930, trabalhou o sentimento de brasilidade entre os imigrantes, de modo que eles se sentissem e obrigatoriamente, sem exceções, se tornassem brasileiros.

Logo, os filhos e netos dos primeiros imigrantes em Prudentópolis e nas demais cidades eram ucranianos culturalmente, mas eram brasileiros de nascimento e, portanto, existia neles o sentimento de unidade nacional, de lutar pelo Brasil. Além do mais, se assim não agissem, teriam que se entender com a Justiça depois.

Durante o Estado Novo, a partir de 1937, o ensino em outro idioma que não fosse o português e mesmo missas em outros idiomas foram proibidas. Depois da declaração de guerra, a cobrança e a fiscalização aumentaram ainda mais. Por conseguinte, a identidade cultural dos imigrantes era exposta entre os mais íntimos e no convívio do lar, fora dali, era mantida escondida, brasileira. Se uma autoridade denunciasse um colono, poderia ficar ruim para o lado dele.

No front, sem saber, um prudentopolitano poderia muito bem estar trocando tiros com um parente distante, um primo longínquo, por exemplo, pois as tropas alemãs e italianas usavam galicianos e volyneses em suas fileiras.

O exemplo mais claro disso está no cemitério alemão de Passo della Futa, aonde há os nomes das divisões que lutaram contra os Aliados/brasileiros naquelas bandas. Entre unidades do Eixo, está uma homenagem escrita em ucraniano com o símbolo da bandeira ucraniana esculpida em pedra: aos “companheiros ucranianos” tombados na luta pela liberdade, uma clara referência à luta dos ucranianos que se aliaram aos nazistas contra os soviéticos.

Fim do conflito

No pós-guerra, boa parte desses jovens brasileiros-ucranianos, que eram colonos dos sítios paranaenses voltou para o trabalho na roça, se dedicando à agricultura familiar, à plantação de erva-mate e ao cultivo de fumo, que ainda hoje gera renda para seus netos e bisnetos que, aliás, muitas vezes nem conhecem esse lado da história da família, uma vez que os Pracinhas foram proibidos de falar sobre o assunto em seus lares. Mesmo quando falavam, resumiam os comentários a breves passagens, nunca aprofundavam o tema.

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