FEB: boatos sobre professores comunistas repercutem, mas não fazem sentido

Soldados da Engenharia no retorno ao Brasil

Foi de grande repercussão entre os leitores da página V de Vitória o artigo sobre a suposta influência comunista na ausência e/ou pouca presença da FEB em aulas de História de alunos das escolas brasileiras. O texto mostrava que os professores não tem essa culpa e que a maioria não é comunista. Mesmo assim, talvez por conta do título, houve quem compartilhasse a notícia sem ler e xingasse os professores ou desconsiderasse os dados apresentados. (Veja a primeira notícia aqui)

Por conta disso, fizemos um segundo texto, para mostrar que os problemas na educação são bem mais profundos do que a eterna disputa de poder entre direita e esquerda. Separamos em tópicos para facilitar.

“Professores destros e canhotos”

Uma pesquisa de 2015, bastante alardeada pela imprensa de centro direita do Paraná, mostrava que 84,5% dos professores se identificavam mais com valores de centro-esquerda e esquerda e os outros 15,5% estavam mais para a direita ou centro-direita. O estudo foi de Caroline Pacievitch (Universidade Federal do Rio Grande Sul) e Luis Fernando Cerri (Universidade Estadual de Ponta Grossa), que buscava mostrar “as opções políticas de professores de história e suas implicações para a docência” em países da América do Sul, entre eles o Brasil.

Porém, ao final do estudo, ficou comprovado que naquele momento havia coerência na forma de ensinar dos dois grupos e que ambos investiam “na importância da história para a formação dos jovens” e no “desejo de ensinar da melhor forma possível, denunciando os empecilhos burocráticos e a falta de recursos adequados para tal”.

A única coisa que ambos os grupos pareciam divergir um pouco, era em relação aos períodos ditatoriais. “Parece que há elementos mais importantes para nos preocuparmos no que concerne à desejada qualidade no ensino de história: respeitar e reconhecer os professores, garantindo-lhes condições para desenvolver práticas de ensino de história coerentes com o que aprenderam e com o que sonham para o futuro dos jovens estudantes”, concluíram os autores.

Muito presos aos livros didáticos

Soldados brasileiros com prisioneiros alemães

Dados de 2013 mostravam que em 98% das escolas brasileiras os professores davam aulas baseadas apenas nos livros didáticos, que 1% não tinha livros didáticos e outro 1% preferia não usar livros. Nesse contexto, se não houvesse informação suficiente nos livros, os professores tenderiam a não aprofundar as discussões.

Houve que comentasse no post que isso não isenta o professor de preparar melhor a aula e levar material de apoio e houve também quem lembrasse que dificilmente uma escola tem mais de duas aulas de História por semana na grade, o que dá em média 1h40 minutos para tratar não só da FEB, mas da guerra toda e de outros assuntos históricos.

A escolha dos livros

De modo geral, o Ministério da Educação apresenta os critérios mínimos para aceitar um livro didático, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). As editoras inscrevem os títulos que estão de acordo com as regras estabelecidas pelo edital do Plano Nacional do Livro Didático e devolvem ao Estado, que por sua vez elabora um Guia de Livros Didáticos e manda para as escolas, onde os professores escolhemos títulos que entendem ser mais adequados. Depois disso é feito o pedido de compra. Para ver com mais detalhes, clique aqui.

Os livros não trazem nada ou muito pouco

Francisco Ferraz, Universidade Estadual de Londrina – UEL, em 2010 tentou mapear o que existiu da FEB nos livros didáticos ao longo das décadas. Descobriu que mesmo durante a ditadura civil militar [que alguns chamam regime militar], a FEB não entrou nos livros com tanta ênfase (entre as décadas de 60 e 70), como já vinha ocorrendo desde o pós-guerra, ainda que vários títulos sobre a temática tenham sido lançados nesse período. Assim como hoje em dia, havia menções, mas não muito aprofundadas.

Por conta disso as editoras foram questionadas.  Fomos atrás das cinco maiores empresas do ramo no Brasil com contratos com o Governo, já que as escolas públicas representaram 73,5% das matrículas de 2017. Outros 26,5% estiveram na rede privada.

Procuramos a FTD, a Ática, a Saraiva, a Moderna e a SM, além de outras citadas pelos professores ouvidos na reportagem: Telaris, FTB, SAE digital e UNO.

Dessas, somente as editoras Moderna e SM responderam sobre como buscam escolher o material que entrará em suas publicações e sobre a inserção da FEB. As notas são as seguintes:

“Vale esclarecer que autores e editores de livro didático devem fazer uma seleção precisa dos conteúdos para que o processo ensino-aprendizagem seja realmente significativo, colaborando para o desenvolvimento de competências e habilidades. A seleção dos assuntos abordados pelas obras do nosso catálogo é feita com base nos currículos escolares e em  pesquisas com grupos focais de professores de todo o país e, até o momento, não houve nenhuma demanda pelo aumento da tratativa do referido assunto. Devemos considerar também que os professores da disciplina têm, em média, apenas duas aulas semanais, o que inviabiliza desenvolver um curso que aborde todos os temas da história de maneira aprofundada. Além disso, a Base Nacional Curricular Comum não estabelece o tema em questão como obrigatório”, esclareceu a assessoria da Moderna.

“Os conteúdos publicados em nossos livros didáticos são selecionados de acordo com as orientações estabelecidas pelos órgãos de educação do governo, como currículos municipais, estaduais e, mais recentemente, a BNCC. Trabalhamos priorizando a ampliação e revisão dos estudos históricos e sabemos, em especial, que, nos últimos dez anos, tem ocorrido o lançamento de muitos títulos sobre a experiência militar brasileira no contexto da Segunda Guerra Mundial. Entre os autores e pesquisadores da História da Segunda Guerra Mundial que utilizamos como fonte para produção do nosso material didático, podemos mencionar: Cesar Campiani Maximiano, Francisco César Alves Ferraz e Dennison de Oliveira, entre outros. Nossos livros didáticos são periodicamente revisados, pois temos como princípio oferecer conteúdos atualizados. Sobre ampliar o espaço para o tema, acreditamos que, com o lançamento da BNCC e a nova reestruturação do Ensino Médio, vivemos um momento oportuno para repensar este e outros conteúdos”, completou a SM.

As outras editoras tiveram uma semana para responder, mesmo assim, não houve retorno.

Outros fatores somados e não isolados

O que teria contribuído para a redução do espaço da FEB, segundo Francisco, poderia ser o fato dos professores formados no pós-ditadura terem recebido uma instrução que oscilava entre a escola dos Annales (que busca se afastar do positivismo por uma história mas vasta e humana) e o marxismo. Isso somado ao fato de entender a história anterior como forma de glorificar o exército [que havia os perseguido] foi o primeiro fato.

O segundo fato é que os temas de histórias das batalhas, que já vinham caindo desde a década de 70, caiu de vez para dar lugar a histórias de lutas sociais, de classe, que contrapusessem em campos opostos capital e trabalho. Ferraz ainda cita modas historiográficas e a profissionalização das editoras, que cada vez mais se voltaram para atender a demanda do mercado, em que assuntos tidos como ultrapassados não eram e não são publicados.

Três anos depois, em 2013 e em outro artigo com a mesma temática, escreveu que de forma parcial podia ser dito que “por parte das edições de livros didáticos e das instâncias elaboradoras de normas curriculares para o ensino fundamental e médio, não há qualquer preocupação em situar a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial como assunto de relevância ou capaz de induzir reflexões sobre eixos temáticos nas aulas de História”.

Disse ainda que “em outras palavras, não é aqui que encontraremos a memória da FEB. Antes de qualquer conclusão definitiva, porém, deve-se conferir, mesmo que precariamente, qual é o conhecimento que o público escolar (professores e alunos) têm desse evento, e qual o grau de relevância que proporcionam a ele.

As escolas públicas não têm condições mínimas

Além da situação dos livros e dos professores, há o problema das escolas, onde o ambiente de ensino para docentes e alunos também não é muito motivador para o aprendizado. Alguns dados da educação no Brasil, segundo a Agência Brasil mostram que a falta muito para que o trabalho de educar e o ofício de aprender sejam plenos:

  1. Bibliotecas e/ou sala de leitura estão presentes em pouco mais da metade (54,3%) das instituições de ensino;
  2. Apenas 46,8% das escolas de ensino fundamental dispõem de laboratório de informática;
  3. 65,6% das escolas têm acesso à internet;
  4. Em 53,5% das escolas a internet é por banda larga;
  5. No caso das escolas que oferecem ensino fundamental, apenas 41,6% contam com rede de esgoto;
  6. 52,3% tem apenas fossa;
  7. Em 6,1% delas, não há sistema de esgotamento sanitário;
  8. Nas escolas de ensino fundamental, a garantia de água ocorre por meio da rede pública de abastecimento na maior parte dos casos (65,8%);
  9. Mas, há as abastecidas por poço artesiano (17,4%); cacimba, poço ou cisterna (11,9%) ou diretamente por rios, córregos ou outros canais (6,2%). Em 10% delas, não há água, energia ou esgoto.

Para encerrar, com a fala os professores

“Bom, sou professor, não sou de direita e incluo a FEB nas minhas aulas. Inclusive desenvolvo um material paradidático como trabalho de mestrado para ser utilizado nas aulas de história. Infelizmente, há uma séria distância entre o conhecimento histórico desenvolvido na universidade e o trabalhado nas salas de ensino básico. Qualquer um que participe realmente de um contexto de sala de aula, percebe que os livros didáticos priorizam os vieses econômicos e políticos, pouco se fala do viés social, contexto extremamente interessante para se trabalhar a FEB, inclusive a reintegração social dos expedicionários. Outro ponto interessante para se levar em consideração é o pouco tempo que o professor tem, uma ou duas aulas por semana, enquanto matemática tem cinco, por exemplo, e a abrangência do conteúdo. Por isso, o motivo de não se aprofundar tanto ou de trabalhar somente o contexto do período Vargas”. (Rodrigo Musto, em comentário na página).

“Em geral, a história dos Pracinhas é abordada dentro do tema da II Guerra e com visita ao Museu do Expedicionário [de Curitiba/PR]. Eu já usei também o documentário sobre a FAB, ‘Senta a Pua’. A dificuldade é que o filme tem quase duas horas de projeção. Mas, há pouca informação nos livros didáticos sobre a participação do Brasil. É uma autofagia histórica!”. (Ana Lúcia Albuquerque, professora de História da rede estadual de Saúde)

“Há um problema sério, ao meu ver quando se trata da participação brasileira na segunda Guerra: o tempo. É muito complicado conseguir transmitir a atuação da FEB em meio a uma grande quantidade de informações sobre a guerra e sobre os seus precedentes. Também me parece “sacralizado” o viés político para a análise do tema, ou seja, abordamos muito Roosevelt, Churchill, Hitler e Vargas, mas pouco se apresenta sobre a participação dos Pracinhas nos campos de batalha italianos. É claro que a atuação tende a ser mencionada nas aulas e naturalmente chama muito a atenção dos alunos. No entanto, e acredito que com raras exceções (geralmente sob o viés de projetos ou trabalhos bem específicos), o ensino sobre a atuação dos pracinhas da FEB seja suprimido por diversos outros eventos que compõe a segunda Guerra Mundial. Os livros didáticos, em grande medida, fornecem apenas pequenos espaços na página onde trazem de forma sucinta informações que eu considero como ‘clássicas’, como a origem do lema ‘A Cobra Vai Fumar’. Por isso, é importante apontar que os manuais didáticos também tendem a fornecer um material sobre o tema bastante diminuto e raso”. (Paulo Chavonica Júnior, professor de História).

Para saber a diferença entre as várias correntes de esquerda clique aqui. Abaixo, confira como a FEB aparece em livros didãticos que recebemos:

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