Morre em Campo Grande o presidente de honra da ANVFEB/MS

Faleceu na noite do último dia 06 de setembro, em Campo Grande/MS, o presidente de hora e fundador da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira naquele estado, Agostinho Gonçalves da Mota, aos 97 anos de idade. Ele era de Três Lagoas, atual Mato Grosso do Sul, onde trabalhava como açougueiro e faxineiro. Com idade militar, foi para o Exército como voluntário, para ter carteira de motorista e certidão de reservista, que na época era um documento largamente exigido por empregadores.

Agostinho na FEB (Foto da ANVFEBMS)

Começou servindo no 18º Batalhão de Caçadores – 18º BC, em Campo Grande e depois voltou para a cidade natal, no 33º Batalhão de Caçadores – 33º BC, saindo dali para a FEB.

Na guerra, Agostinho serviu na 9ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria, tendo sido enviado no quarto escalão da FEB, transferido do Depósito de Pessoal para a linha de frente, como substituto de baixas daquela unidade.

Uma história que ele contou em entrevista para o documentário “V de Vitória” (2019), foi que antes do embarque para o Rio de Janeiro, ele e amigos fugiram para se despedir dos parentes e foram pegos por uma patrulha. Agostinho conseguiu esconder uma garrafa de pinga e entrar com ela na delegacia. Resultado: beberam a noite toda antes de partir. Ele tinha 19 anos de idade.

Montese foi a pior batalha, com o regimento de Agostinho entrando na cidade sob forte fogo inimigo. Tantos traumas daqueles dias na Itália afetaram o jovem, que depois da guerra precisou ser internado duas vezes para tratamento psicológico.

Recuperou-se, tocou a vida, teve vários empregos até conseguir um encaixe dentro dos Correios, onde o irmão dele, Alexandrino, já era funcionário de carreira.

Agostinho foi destacado para morar num bairro afastado da cidade, na função de guarda fios, em Campo Grande/MS, na saída para quem segue para Cuiabá. Ali havia pequenas chácaras e ele ajudava as pessoas carentes da região, principalmente quando fabricava caixões para quem não tinha como pagar por um. Tal iniciativa deu origem ao cemitério do Cruzeiro, na região norte da capital sul-mato-grossense.

Em 1957, Agostinho foi morar em Curitiba, para ajudar na implantação do plano postal telegráfico da linha Carrier, de Porto Alegre a capital paranaense. Agostinho ia para o sul do Brasil e a família ficava em Curitiba. Essa rotina cessou em 1961, quando se firmou em Campo Grande.

Agostinho em palestra com alunos da Funlec de Campo Grande (Acervo da Funlec)

Durante o tempo dos militares no poder (1964-1985), Agostinho auxiliou perseguidos políticos e por isso foi investigado por crimes conta a Lei de Segurança Nacional. As investigações foram de 1964 até 1966, e por falta de provas ele saiu do radar das autoridades.

A historiadora Maria Madalena Dib Mereb Greco, que também entrevistou Agostinho, confirmou anos depois, com o próprio pracinha, que ele ajudava mesmo o pessoal, inclusive tirando-os do Mato Grosso do Sul para não serem presos, quando necessário. Já para o jornalista e historiador, Helton Costa, sobre aquela época, ele apenas disse que “eram coisas de um jovem idealista”.

Agostinho se aposentou dos Correios em 1967, porém, nunca se desligou totalmente da instituição e por quase 30 anos foi o Papai Noel da empresa, na época de Natal. Ele fundou museus da FEB no Mato Grosso do Sul e a Associação dos ex-combatentes.

Agostinho como Papai Noel (Acervo de Cida Mota)

Morou com a família até meados de 2022, quando precisou de tratamento especializado por conta da idade e foi recebê-lo em uma casa de repouso para idosos, local onde faleceu no último dia 06 de setembro.

Sobre o Agostinho, Helton que o entrevistou por cinco vezes, o descreve como “alegre, idealista e decidido, muito correto nos julgamentos”. “No fundo, aquele guri descontraído, feliz e esperançoso, de 19 anos, que foi para a guerra, sempre continuou fazendo parte da personalidade do Agostinho. Mesmo com lembranças ruins, traumas de guerra que nunca o deixaram, ele era dono de uma capacidade de resiliência tremenda e sempre tinha alguma piada ou um sorriso. O Brasil e o Mato Grosso do Sul perdem um pedaço importante da própria história. É um dia de luto, mas, de alguma forma, de reconhecimento por uma vida tão intensa quanto à do seu Agostinho”, disse o jornalista.

O pracinha foi enterrado em Campo Grande, no cemitério Parque das Primaveras.

Por Jornalismo de Guerra

um comentário

  • María Aparecida Nogueira Mota

    Muito obrigada pela homenagem ao meu querido tio, AGOSTINHO GONÇALVES DA MOTA, irmão caçula de meu pai Alexandrino Gonçalves da Mota( falecido)

    Fui a única sobrinha do lado dos Mota, que o curtiu muitoooo! Sempre fui babona, ele TB dizia me adorar kkkk
    Moro em Bauru e pelo menos 1 x ao ano, em datas de aniversário estava a seu lado.
    Com a Pandemia, não fui há 3 aniversários, inclusive o último em Abril, ainda não sentia firmeza em viajar, acompanhei tudo por fotos e vídeos
    !
    Infelizmente não pude ir pra me despedir dele, mas um sobrinho com seus filhos me representou e acompanhei todas as honrarias por fotos e vídeos.
    Me emocionei muito! O tio fez a diferença nesse mundo terreno! Um coração de ouro!

    Descanse em Paz meu querido!

    Muito obrigada pela homenagem!

    Abc
    María Aparecida Nogueira Mota
    cidamotha@hotmail.com

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