Naqueles dias de fevereiro, por Helton Costa

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Visão que os brasileiros tinham de um dos lados da montanha

O ano era 1945, também um dia 20 de fevereiro. Vagarosamente para não levantar suspeitas tropas brasileiras se juntavam nas proximidades de Monte Castelo, morro próximo da cidade de Gaggio Montano, de frente para a comunidade de Abetaia, ao lado de Porreta Terme. Jovens de todos os cantos do Brasil respiravam ofegantes e estavam com o coração acelerado. Frente a eles, um local bem defendido por tropas alemãs.

A Força Expedicionária Brasileira – FEB estava naquela guerra, a II Guerra Mundial, desde setembro do ano anterior. Americanos haviam tentado tomar o tal morro e falharam. Os brasileiros por quatro vezes avançaram e depois tiveram que recuar. Para completar, nos ataques anteriores havia neve e temperaturas negativas, o maior frio da história até então.

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Monte Castelo se localiza nas proximidades da cidade indicada no mapa

Agora seria diferente, tomariam aquela montanha, custasse o que custasse. Alguns pressentiam a morte. Antes deles, dezenas de soldados já haviam morrido ou sido feridos ali. Nem por isso estavam pensando em desistir. Na cabeça de cada soldado em deslocamento para a posição, milhares de lembranças floresciam.

Naquela hora no Brasil, a mãe, a esposa, a namorada, os filhos, todos deveriam estar bem. Quem sabe nunca mais se veriam novamente. Será que teriam que matar alguém? E se tivessem? “O que tinha de ser feito, deveria ser feito”, se reconfortavam.

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Monumento aos brasileiros nos pés do Monte

Aos poucos, mais e mais soldados iam surgindo e tomando lugar no dispositivo para o ataque do dia seguinte, 21 de fevereiro. Naquela tarde, quase começo de noite e nas longas horas da madrugada que se seguiram, a cabeça do Pracinha, soldado brasileiro, vagava para lugares distantes no mais absoluto silêncio.

Os sargentos e tenentes só pensavam em quem ali em volta, dos homens sob seu comando, não mais retornariam. A noite foi fria, amanheceu e a artilharia acordou quem cochilava. Era o convite ao combate, pois, após o bombardeio quem limparia o terreno seriam aqueles brasileiros.

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Pedaços de trincheira no Monte

Olhos fixos no horizonte com o Monte Castelo à frente. Já era dia 21, hora de pôr fim ao combate que havia começado meses antes. Depois do sinal do comando os soldados correram rumo ao pé do elevado; dali em diante alguns deixaram de existir no mundo dos vivos e outros iriam vagar por ele com eternas lembranças, traumas e uma alegria incontida de ter vencido, de ter sobrevivido. Entraram para a história. Lembremos deles, dos ainda vivos e dos que já se foram. Pelo que fizeram naqueles dias de fevereiro, nossa gratidão e admiração.

 

Helton Costa, Guarapauava, 20 de fevereiro de 2014.

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