VIDAS VIGIADAS

prEnquanto a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, deixava 55 milhões de mortos, os imigrantes estrangeiros habitavam seus próprios bunkers em solo paranaense. Prisões, perseguições, apreensões e censura viraram rotina para familiares que tinham origens alemães, italianas ou japoneses. Especialmente após o Brasil declarar ingresso no conflito em agosto de 1942.

Tudo era motivo para virar alvo de investigação das forças governamentais, especialmente por parte do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Para se ter uma ideia, alguns imigrantes ou descendentes passaram meses sem falar uma palavra sequer em público para não serem reconhecidos pelo sotaque. Permaneciam a maior do tempo em suas casas, mantendo contato mínimo com o ambiente externo. Outros não tiveram tanta sorte e foram parar atrás das grades ou mantidos em pequenos ‘campos de concentração’ improvisados.

No entanto, antes mesmo do governo de Getúlio Vargas ceder às pressões dos Estados Unidos e declarar guerra à Alemanha nazista – e, consequentemente, às nações que formaram o chamado Eixo, como Japão e Itália – o clima até então tranquilo já tinha mudado no Paraná.

Curitiba, assim como parte do estado, estava tomada por imigrantes europeus. Era uma sociedade cosmopolita. Quando houve o torpedeamento de navios brasileiros por tropas alemães, população da capital se rebelou contra os países do Eixo. O problema é que essa revolta se estendeu às pessoas originárias daquelas nações.

Resultado: em março de 1942, 10 mil pessoas se reuniram na Praça General Osório reverberando palavras contra o nazismo. O problema é que após a aglomeração, a população partiu pelas ruas depredando todo tipo de estabelecimento que pertencesse aos alemães, italianos ou japoneses. Foi o que bastou para que as relações entre vizinhos, que até então se cumprimentavam pelas ruas, deixassem de ser cordiais.

Soma-se a isso o fato de o governo determinar que todo o comércio pertencente a imigrantes dessas etnias fosse fiscalizado. A neura era tamanha que até aparelhos de rádio chegaram a ser lacrados para não sintonizar emissoras estrangeiras. A liberdade tinha perdido espaço para uma guerra até então invisível aos brasileiros. “Apreensão de armas, de rádios e de bens em geral; mais do que isso, era a legitimação de uma culpa não existente”, afirma o historiador Marcio Pereira.

Já com a declaração oficial de guerra, a situação só caminhou para o pior. A historiadora Solange de Lima, que pesquisou o tema, afirma que além das sanções oficiais do Estado, parte da população aderiu à causa da “defesa nacional” movida por ressentimentos e intolerância étnica. “Essas ações foram legitimadas pelo Estado, que cumpria o seu papel na defesa da soberania nacional, confiscando os bens de imigrantes, acusando e intimando-os a comparecer a uma das Delegacias de Ordem Política e Social (Dops)”.

O Dops, por sinal, estava na cola daqueles antigos membros e simpatizantes do extinto Partido Nazista. Muitos foram presos acusados de serem simpáticos a Hitler – como membros da Ação Integralista no estado, que era influenciada por ideais fascistas.

Deste modo, eram detidos todos os elementos estrangeiros que falassem seu idioma natal e possuíssem rádios, armas, revistas ou livros em outro idioma que não o português. Assim como aqueles que não conseguiam esconder os traços de sua origem ou, ainda, as pessoas que, de uma maneira ou outra, tinham ideias nazifascistas. Todos eram tratados da mesma forma.

ALMOFADAS APREENDIDAS E PIQUENIQUE CENSURADO

Na capital do estado, a polícia chegou ao cúmulo de apreender até almofadas por terem sido bordadas com as cores da bandeira germânica. Os idiomas estrangeiros foram banidos das ruas paranaenses, bem como das brasileiras. Aqueles que os utilizassem eram denunciados e presos. “Imigrantes e descendentes passaram a ser vistos como inimigos nacionais, chamados pejorativamente de ‘eixistas’ e ‘quinta-colunas’. O controle de suas vidas tornou-se uma questão de segurança nacional”, destaca Solange.

O excesso era tanto que membros do Dops, após receberem uma denúncia popular, chegaram ao cúmulo de prender colegiais e freiras do Colégio Sion, de Curitiba, quando retornavam do Morro de Anhangava. A alegação era de que o grupo tinha subido no moro para se comunicar com a Alemanha por meio de um rádio. Na verdade, tudo não passou de um “audacioso” piquenique.

No mesmo ano, 1942, foi criada a Seção de Segurança Nacional, que possuía a função de fiscalizar os brasileiros com origem estrangeira e combater ideologias contrárias ao Estado Novo de Vargas. “Esta seção ainda se responsabilizou por criar um espírito nacional na população brasileira e convocar o cidadão a cumprir o seu dever na proteção da soberania nacional. Este apelo do Estado acabou saindo do controle e resultou em manifestações extremas de ódio contra o estrangeiro”, afirma Solange.

Texto parcialmente publicado também no livro Paraná: Uma História, publicado pelo autor Diego Antonelli.

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