Clubes depredados, salvo-conduto e correspondências censuradas: a perseguição foi implacável

protesto no Rio

Rio de Janeiro em 1943. Protestos contra o nazismo eram comuns depois da declaração de guerra. No Paraná as perseguições aumentaram

Durante a 2ª Guerra Mundial, os imigrantes alemães, italianos e japoneses e seus descendentes não poderiam sequer frequentar determinadas regiões de Curitiba, como as proximidades do terminal ferroviário. Todos aqueles que representavam os inimigos na Europa e Ásia passaram a ser inimigos do governo e de parte da sociedade paranaense e brasileira. Para se deslocarem dentro do país era necessário requerer um salvo-conduto. Suas correspondências foram censuradas e as estradas que davam acesso a Santa Catarina e São Paulo foram alvos de uma intensa vigilância.

“O ser humano cria seus oponentes. E durante a guerra esses oponentes no Paraná foram os imigrantes”, destaca o professor de História da Universidade Tuiuti, Osvaldo Siqueira.

Muitos imigrantes que possuíam casas no litoral paranaense, além de não poderem viajar, tiveram suas residências confiscadas e transformadas em postos do Exército. Só foram devolvidas muito tempo depois do fim do conflito. “Os imigrantes foram vigiados e mapeados, o Estado visava manter o controle de todas as atividades dos imigrantes”, afirma a historiadora Solange de Lima.

Ela ressalta ainda que várias portarias foram publicadas pela chefatura de polícia do Paraná a fim de evitar um possível levante de imigrantes do Eixo no estado. Esses documentos recomendavam a vigilância dos alemães, italianos e japoneses pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), para evitar atividades consideradas nocivas ao país.

Clubes depredados, escolas fechadas e campos de concentração

Em Curitiba, alguns clubes pertencentes aos estrangeiros foram ocupados, como é o caso do Clube Concórdia que foi entregue à Cruz Vermelha e seus móveis ao Clube Atlético Paranaense, o Clube Rio Branco foi entregue ao Tiro de Guerra n.19. Diversas associações de etnias que “formavam” o Eixo foram ocupadas. Antes dessa intervenção, muitos clubes foram alvo de ataques populares, como o Clube Italiano Garibaldi. O consulado do Japão na capital do estado  do Paraná – inaugurado em 1938 – foi fechado em 1942 por determinação do Estado.

A alegação do Dops era de que as atividades exercidas nos clubes eram prejudiciais aos interesses nacionais. No Clube Concórdia, que reunia descendentes alemães, 2.893 livros foram apreendidos até 1945.

A Chefatura de Polícia do Estado do Paraná promulgou em 20/03/1942 a Portaria nº 90, que tratava sobre as intervenções nos clubes e sociedades das comunidades italianas e alemãs. Em Curitiba, ficou decidido que: o Clube Concórdia passou a ser da Cruz Vermelha, filial do Paraná. A Sociedade Giuseppe Garibaldi ficou à disposição da Liga de Defesa Nacional, do Centro de Cultura Feminino e da Academia Paranaense de Letras. O prédio da Sociedade Rio Branco passou para o 19° Tiro de Guerra.

“Essa ação tomada em Curitiba feriu as comunidades alemãs e italianas; naquele momento, muito mais que o valor financeiro dos bens e móveis desses clubes, foram colocadas em xeque as questões culturais e as tradições que esses imigrantes vinham mantendo havia muitas gerações. Esses clubes foram repassados a instituições nacionais de auxílio às questões da Mobilização Econômica, como a Cruz Vermelha, Centro Paranaense de Cultura Feminina, etc”, afirma Marcio Pereira.

 

Até escolas de origem estrangeira foram fechadas e o ensino em idiomas que não fosse o português estava proibido. O cônsul alemão em Curitiba, Walter Zimmermann, e os funcionários do Consulado foram deportados para a Alemanha.

Idioma proibido e moradias saqueadas

Talvez a proibição do idioma natal foi para os imigrantes a maior represália. Era o medo psicológico de ser perseguido pelo Dops aliado à proibição de ser quem realmente era. Mais que isso: era emudecer todos aqueles estrangeiros e seus descendentes que construíam suas vidas em território brasileiro. “As escolas estrangeiras foram fechadas sem nenhuma perspectiva de mudanças ou de substituição por escolas de ensino em português. “A língua foi a grande válvula de escape para as complicadas justificativas policiais de apreensão, prisões e violência contra imigrantes”, completa Pereira.

As famílias japonesas que moravam no litoral do estado tiveram suas casas saqueadas e até incendiadas. A acusação era de que faziam sinais com lampiões para submarinos japoneses. Os bens deixados em Paranaguá, Antonina e Morretes jamais foram devolvidos aos imigrantes orientais. A recomendação em datas cívicas era de que toda população hasteasse a bandeira brasileira.

A delegacia de Antonina, em 25 de setembro de 1942, retirou 85 migrantes da cidade, sendo 53 japoneses, 10 alemães e 22 italianos. Do litoral, o “trem dos evacuados” partiu para Curitiba. Na maior parte, os japoneses que não encontraram lugar para morar foram levados para a Granja Canguiri. As famílias que foram para o Canguiri viviam em galpões rurais, que já haviam sido ocupados por cavalos e bois anteriormente. Foi ali que esses japoneses viveram a partir de 1942 até o fim da guerra, em 1945. Não há informações de tortura física, entretanto permaneceram confinados nesse local que ficou conhecido como “campo de concentração”. Os adultos foram obrigados a trabalhar na produção agrícola e as crianças foram separadas de seus pais e levadas para a Escola Agrícola Militar de Castro.

 

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