FEB: ideologias, etnias e crenças diferentes não impediram vitória contra nazistas

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Bandeira nazista trazida como troféu de guerra pelos brasileiros em 1945

No cenário atual, brasileiros se colocam contra brasileiros pelos mais diversos motivos, mas, durante a II Guerra, os soldados da Força Expedicionária Brasileira – FEB mostraram que dá para vencer mesmo com os mais distintos jeitos de ser e de pensar dos brasileiros.

Isso porque durante a Campanha da na Itália, entre 1944 e 1945, quando os únicos inimigos eram os nazistas e os fascistas, não importava a orientação política, religiosa, social ou a etnia dos soldados. O mesmo se dava quanto às alianças internacionais, quando os comunistas, antes combatidos no Brasil, se tornaram aliados por tabela do Governo Federal. O objetivo comum era fazer o que fosse melhor para o país.

Religião

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Em Stáfoli, Itália, brasileiros realizam missa para Nossa Senhora. Catolicismo predominava, mas havia espaço para outras religiões também

Na década de 40, 95% dos brasileiros se declaravam católicos, uma soma de 39,1 milhões de pessoas. Porém, havia um milhão e setenta e quatro mil evangélicos, 463 mil espíritas, 123 mil budistas, 87 mil sem religião, além de pessoas com religiões afros, orientais e de outras crenças.

No front, todo mundo era igual. No livro “Cruzes Brancas, diário de um Pracinha”, por exemplo, Joaquim Xavier da Silveira lembra de um soldado de nome Pedro que era espírita, mas que também acreditava no catolicismo e mesmo em práticas hinduístas.

Entre os evangélicos, o nome que se destacava era o do capelão João Filson Soren, da Igreja Batista, conhecido pelo coral que organizava junto à FEB e pelo desprendimento ao percorrer os campos de batalha em meio às batalhas, com balas cortando o ar ao redor.

Nos católicos o nome mais famoso era o de Antônio Álvares da Silva, o Frei Orlando. Querido por todos, faleceu em um acidente, quando a arma de um partigiani disparou sem querer dentro do veículo em que viajavam. Ele morreu e foi elevado a patrono do Serviço Religioso do Exército. Balas e estilhaços não escolhiam religião. Simplesmente mutilavam e matavam.

Orientação ideológica

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Cartaz produzido no Brasil em que consta a bandeira da União Soviética

Pró-americanos, anti-americanos, pró-nazistas, anti-nazistas, pró-fascistas, anti-fascistas, pró-comunistas/socialistas, anti-comunistas/socialistas, liberais e antigos admiradores do integralismo, dentro da FEB conviviam e lutavam juntos. Um post de um antigo panfleto integralista chega a defender que 27 mortos da FEB nos campos da Itália eram integralistas (veja no final do texto).

O próprio Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, era citado como um líder simpatizante dos nazistas, mesmo em 1943, com a guerra já declarada. O mesmo dizia o Coronel Adhemar Rivemar de Almeida sobre Góis Monteiro, que mais tarde também foi Ministro de Getúlio Vargas. Joaquim Xavier da Silveira em “A FEB por um soldado” confirma as acusações.

Com os comunistas a história não era diferente. Eles também estiveram nos Apeninos sangrando ao lado de quem pensava diferente deles. Oficialmente o comunismo no Brasil chegou em 1922, em Niterói, Rio de Janeiro. Ficou na ilegalidade até 1927, quando voltou à legalidade. Porém, após uma tentativa frustrada de golpe em 1935, com a Intentona Comunista, voltou à ilegalidade.

O Brasil estava rompido com os soviéticos no campo internacional desde 1919. Os comunistas brasileiros só se aliaram à Vargas no final de 1945, saindo da ilegalidade por dois anos, pois, em 1947 voltariam a ser considerados ilegais…

No front, os comunistas da FEB lutavam ombro a ombro com os mesmos soldados e oficiais que no Brasil poderiam estar a odiá-los, mas que na Itália mandavam juntos os tiros e as bombas nos nazi-fascistas. São exemplos desses comunistas Dillermano Mello do Nascimento, Jacob Gorender, Henrique Cordeiro Oest e Salomão Malina, que mais tarde, no pós-guerra, durante a ditadura civil-militar foram vítimas de perseguições políticas.

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Cartaz Aliado com a bandeira do Brasil e da União Soviética também

Em Francolise, enquanto esperavam a volta para o Brasil, após terem vencido a guerra, segundo o já citado Joaquim Xavier da Silveira, eram comuns os debates comunistas no acampamento. Com a queda evidente de Vargas, naqueles dias os debates sobre política partidária, até então um tabu dentro da FEB, passaram a ser constantes.

Nas batalhas contra os brasileiros, os alemães não escolhiam seus alvos por conta da ideologia dos inimigos. Suas bombas, armadilhas e tiros acertavam quem pensava igual e quem pensava diferente sobre a política adotada pelo Governo Federal do Brasil. Todos usavam o uniforme da FEB e ali não importava como o soldado pensava…

 

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Soldado da FEB recebido pela família ao retornar para casa, até pelo cachorro! Soldados negros fizeram parte das fileiras da FEB

Indígenas, brancos, negros, alemães, italianos, japoneses e outros imigrantes

Pelas contas do IBGE, na década de 40 havia mais brancos (63,47%) do que negros e pardos (35,84%) no Brasil. Na FEB os grupos serviam juntos, o que causava estranheza aos americanos, que tinham tropas de negros e japoneses comandadas por oficiais brancos. Mesmo as tropas inglesas separavam suas tropas coloniais. Assim havia indianos a serviço dos ingleses separados por etnias e mesmo castas. Os franceses faziam o mesmo e os sul-africanos também.

Não que não houvesse racismo entre os brasileiros. No livro “Depoimento de oficiais da reserva sobre a FEB”, Demócrito Cavalcanti de Arruda dá dois exemplos, um de 1943 e outro de 1944 em que oficiais pediam para esconder os negros no miolo das tropas para desfiles. O Coronel Machado Lopes, comandante do Batalhão de Engenharia também fez um comentário preconceituoso ao citar que negros brasileiros conquistavam loiras italianas, o que na opinião dele era estranho. Está no livro “Quebra canela”.

Cássio Abranches Viotti, no livro “Crônicas de Guerra” diz que no desfile de embarque da FEB, Zenóbio da Costa, Comandante da Infantaria Divisionária mandou que os negros desfilassem a pé e não nas viaturas. Porém, o capitão Caio Marcos Ovalle de Lemos não deu ouvidos e no desfile cada qual desfilou no posto que ocupava, seguindo o regulamento militar. O resultado foi que o Capitão Lemos foi tirado da FEB e mandado para Fernando de Noronha como punição. Meses depois conseguiu lugar em outro contingente e foi para a guerra, tendo inclusive encontrado Zenóbio, que ficou bem admirado com o empenho do oficial.

Porém, diferente dos americanos, os soldados brasileiros matavam e morriam juntos, independente da cor de pele, inclusive os indígenas que também não fugiram à luta, como os Terenas do Mato Grosso do Sul (veja aqui). Havia oficiais negros e pardos, morenos, mestiços, entre outras designações, do lado brasileiro.

O sotaque era outro fator que não importava. Nas unidades havia gente de várias partes do Brasil e de várias descendências. Não era incomum achar baianos, gaúchos, cearenses, gente das fronteiras com os países vizinhos da América do Sul, junto com os filhos e netos de alemães, italianos e japoneses nas fileiras da FEB. Isso sem contar os descendentes de ucranianos, poloneses, paraguaios, árabes, espanhóis, portugueses, judeus e mais um monte de nacionalidades que compunham a colcha étnica brasileira que representava a FEB. Sobre os alemães, duas obras indispensáveis são: “Os soldados brasileiros de Hitler” e “Os soldados alemães de Vargas”, ambas do historiador Dennison de Oliveira.

Resumo

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Em uma peça de Artilharia da FEB, a variedade étnica da tropa

Em resumo, a FEB era uma boa amostra do Brasil e de sua diversidade, tanto de gente, quanto de pensamentos e crenças. Diferente de hoje, quando brasileiros se colocam contra brasileiros pelos mais diversos motivos, pelo menos contra o nazifascismo todos se uniram, o que levou o Brasil à vitória na II Guerra Mundial. Será que uma união na atualidade seria possível? Cremos que sim, porém os ânimos precisam se acalmar e tomara que não precisemos de outra guerra para ter que unir os brasileiros.

Leituras complementares:

Soldados e práticas comunistas na FEB: https://goo.gl/3NbT1q

Integralistas na FEB com a foto do antigo panfleto: https://goo.gl/Pn5NLv

Diferenças entre comunismo e socialismo: https://abr.ai/2pF74pk

O que é liberalismo? https://bit.ly/2G8L80g

Nazismo não era de esquerda e nem de direita: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39809236 e https://bit.ly/2G8ZRnS; Ou https://bit.ly/2wdfVDF

Comunistas no Brasil: https://abr.ai/2G7tr0Y e https://bit.ly/2DRy5dr

Censo de 1940: https://bit.ly/2umsWLb

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