FEB: em Fornovo, rendição era incondicional, mas vencidos fizeram pouco caso anos depois

alemaMesmo tendo que se render de forma incondicional para os brasileiros, anos depois, quando entrevistados por jornalista brasileiro, alemães derrotados em Fornovo falavam com certo desdenho do ocorrido. Mas, antes é preciso falar como eles perderam aquele combate…

Os dois dias da rendição

Depois de Collecchio chegaram novas ordens: perseguir os alemães até eles não conseguirem mais se mover.

A operação era complexa e todos os Regimentos deveriam cumprir uma parte. Para Fornovo, foram os homens do 6º Regimento de Infantaria, com o comando do Major Nelson de Mello, o Esquadrão de Reconhecimento, parte da Engenharia de Combate e alguns tanques americanos.

O 11º Regimento de Infantaria com dois batalhões foi usado para impedir que mais tropas inimigas viessem da Ligúria e o 2º Batalhão do 1º Regimento foi destacado para Salsomagiore para barrar reforços para os alemães que viessem do norte, com mais dois batalhões mandados para ocupar Piacenza.

Sim, era uma manobra de cerco e bastante importante, como evidenciam as visitas apressadas dos generais Truscott e Crittenberger, dos Estados Unidos e responsáveis pela FEB, que passaram do Comando brasileiro na tarde do dia 27 de abril para apoiar a decisão tática. Se tudo saísse conforme o planejado, não haveria com o que se preocuparem pelo fato de terem deixado o flanco esquerdo das unidades americanas em descoberto e conseguiriam deter os alemães que podiam envolvê-los com alguma manobra . Como já ocorrera antes, os brasileiros segurariam as pontas e garantiriam o avanço Aliado.

Choques de tropas se deram entre homens do 6º Regimento e alemães perto da vila de Neviano de Rossi, de onde os tedescos subiam rumo a Fornovo, numa série de montanhas e estradas sinuosas. Ciente de que era mais justo evitar mais derramamento de sangue, o comando brasileiro chamou o vigário local, Dom Alessandro Cavalli para tentar fazer uma negociação com alemães e evitar combates.

Andando de uma posição para outra, ele levaria a intimação brasileira e traria as respostas dos nazistas. O comando tedesco estava em Respiccio, 6 km das posições do Brasil. Para confundir os alemães o vigário fez outro caminho, assim não denunciaria a posição do 6º Regimento. Os alemães pediram um tempo para pensar, dizendo que aguardariam ordens superiores.

Brasileiros chegando com prisioneiros alemães

Não responderam e levaram tiros

Até 11h45 do dia 28 de abril os alemães não responderam o ultimato brasileiro e às 13h o 6º Regimento atacou pelo norte e pelo leste de Fornovo. O combate foi ferrenho e os alemães se viram cercados. Por volta das 22h, perto de Respiccio e em parte de Gaiano, emissários alemães com bandeira branca cruzaram para tentar negociar, mas o pensamento não era unanimidade. Em parte do grupo de Gaiano e em Segalara, os soldados do Reich tentaram romper o cerco e fugir. Combates de pequenas frações se davam à todo momento. Há registros desses encontros em vários livros, como por exemplo “O Paraná na FEB” e “Memórias de um Soldado”de Ernani Ayrosa.

Principalmente na madrugada do dia 29, não foram poucos os choques entre alemães desesperados para não serem capturados e soldados da FEB. Quando amanheceu, o Major Kuhn comunicou que o general Otto Fretter-Pico havia aceitado a rendição incondicional e iria se entregar com todos seus homens.

Às 12h, o Major Kuhn se apresentou para receber oficialmente as ordens de rendição. Em seguida começou a capitulação, chegando primeiro os feridos e as viaturas e depois os grupos de combate, um a um.

Os italianos das tropas fascistas que estavam junto com os alemães vinham todos desertando. Preferiam desertar a caírem nas mãos dos Partigianis da Resistência.

O general italiano, Mário Carloni chegou por volta de 18h e foi levado escoltado pelo general Zenóbio da Costa até o Quartel General do V Exército em Florença. De noite a rendição foi até umas horas e interrompida de madrugada para recomeçar novamente no dia 30 de abril, tendo seu ponto alto na chegada do general Otto Fretter-Pico, levado escoltado pelo general Olympio Falconiére até Florença.

Balanço final daqueles dois dias: 14.777 homens, entre soldados e oficiais, quatro mil cavalos, 80 canhões, 1.500 viaturas e munições de todos os tipos, além de fuzis, metralhadoras, armas leves, etc…

Anos depois os alemães fingiam não ter acontecido

O jornalista William Waack é autor do livro “As duas faces da glória”, que mesmo sendo um pouco descontextualizado e em trechos pró-germânicos (por conta da descontextualização), traz entrevistas interessantes de alguns ex-oficiais da 148ª Divisão Alemã que se rendeu aos brasileiros.

General Fretter-Pico de cabeça baixa frente ao General brasileiro, Falconiére

Um deles, Lotar Mull falou em espanhol ao se apresentar aos Pracinhas e disse que só acreditou que estava cercado pelos brasileiros quando se entregou em Fornovo, pois, antes disso nem sabia que o Brasil estava na guerra. Se assim agiu para se desfazer dos brasileiros ou se era verdade não dá para saber. Ele disse ainda que só renderam porque estavam muito cansados e não tinham mais energia para a luta, sinal que a manobra brasileira foi correta. Outro ex-oficial alemão, Herbert Gärtner, confirma que nem sabiam do Brasil na guerra.

A 148ª não era a tropa que vinha brigando com os brasileiros desde o começo. A conhecida dos brasileiros era a 232ª Divisão alemã, que nessa época vinha se desfazendo ao tentar fugir para a Áustria.

Otto Fretter-Pico havia morrido do coração em 1966 e Waack entrevistou a filha dele, Anneliese, que contava que o pai achava graça dos brasileiros comemorarem a rendição alemã, ao que se referia como comemorar “aquilo”.

Era autoridade na rua em que morava e na Associação de Veteranos alemães de Freiburg, cidade aonde trabalhou como representante de uma metalúrgica. Um dia ao ler um jornal, ele teria dito: “engraçado saber que eles [os brasileiros] comemoram aquilo”. Em outro momento, no ano em que faleceria, escreveu no jornal dos veteranos que só rendeu devido à “esmagadora superioridade material dos brasileiros”.

O antigo oficial Mull defendia que nem teve uma batalha de Fornovo, só o encontro de tropas com bombas e que todos estavam contentes com a rendição e com a decisão do general. Falou ainda que Pico era um herói, pois, mesmo com a ameaça de represálias contra a família dele na Alemanha, preferiu se render do que continuar uma luta sem sentido.

O mesmo Mull falou bem dos brasileiros, porque não tomavam pertences dos alemães como souvenirs, já dos americanos não dizia o mesmo.

Já Gärtner recordou que a população e os Partigianis queriam se vingar deles e que os homens da FEB impediram o linchamento quando um negro [ele frisou bem] atirou para cima para esparramar o pessoal. Isso se deu no caminho de Fornovo para Parma.

O primeiro sargento Rolf Feltes confirmou todos os relatos anteriores. Ele também era da 148ª Divisão. Depois de presos, os antigos soldados de Hitler foram entregues aos cuidados do V Exército, do qual a FEB fazia parte. Os americanos fizeram uma triagem e aqueles que não tinham pendências com a Justiça puderam voltar para casa alguns meses depois.

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