“Professores comunistas não ensinam sobre a FEB”: verdade ou mito?

Pracinhas em biblioteca improvisada na Itália

Volta e meia chegam e-mails e comentários não muito educados atribuindo aos professores das escolas a falta de inserir a Força Expedicionária Brasileira – FEB nas aulas para as novas gerações. Fomos dar uma pesquisada do assunto. Ouvimos educadores da área de História e fomos pesquisar artigos acadêmicos sobre o tema, além de questionar editoras que produzem material didático no Brasil. O resultado você confere agora…

Os professores

Quanto aos professores, as reclamações são de que eles são comunistas e por isso estariam deixando de ensinar valores nacionais em detrimento de doutrinações de esquerda. Bem, perguntamos a alguns professores.

Hurlan Jesus, de Ponta Grossa, Paraná, diz que o “argumento não tem fundamentação”. “Primeiro que o Brasil esteve ao lado dos comunistas da URSS na Segunda Guerra. Segundo, falta identidade nacional dos brasileiros perante a Segunda Guerra. Terceiro ponto foi a ditadura civil militar no país, que criou uma na imagem ruim do exército com os historiadores”, explica.

Júnior Polezel, de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul disse que “é de extrema importância essa desconstrução de que todo historiador é comunista e contrário as Forças Armadas, essenciais para a estabilidade de um país”, ele também não concorda.

Guilherme Rodrigues, também acha uma idéia equivocada generalizar os professores como comunistas. “Nossa, uma coisa não tem nada a ver com a outra, tanto que o Brasil lutou do lado dos Aliados, junto com a URSS de Stálin. Isso é uma tara brasileira que tem de querer colocar a culpa sempre nos comunistas, discurso fraco e raso. A culpa da FEB é exclusivamente dela, apesar de tentarem empurrar todo dia 7 de setembro os Pracinhas para que aconteça igual nos EUA, a comoção popular, isso nunca vai acontecer. Não somos ufanistas por guerra, não nos identificamos com isso, e o próprio exército falhou nesse sentido de valorizar a mesma [a FEB], valorizam mais a ditadura do que a FEB”, declarou.

“Essa idéia de dizer que professor de História é comunista é absurda, visto que a missão do historiador é a busca por neutralidade, por mais que ela seja impossível”, afirma Luís Junior Gottwald.

“Acredito que a culpa de desvalorizar a FEB é na verdade uma falta de nacionalismo crescente dentro do Brasil, que vê os símbolos nacionais como motivos de piada ou mitos. [Está] certo que vários deles são construídos, como Tiradentes [por exemplo], mas, livros como o “Guia Politicamente Incorreto” acabam que em mãos não muito preparadas se tornam mais um objeto de desconstrução do Brasil do que de entendimento do contexto geral”, lembra o historiador Thomas Grams.

Canhoteiros e destros

Soldados ralaram na Itália, mas participação ainda é pouco explorada

Uma pesquisa de 2015, bastante alardeada pela imprensa de centro direita do Paraná, mostrava que 84,5% dos professores se identificam mais com valores de centro-esquerda e esquerda e os outros 15,5% estão mais para a direita ou centro-direita.

Os autores do estudo, Caroline Pacievitch (Universidade Federal do Rio Grande Sul) e Luis Fernando Cerri (Universidade Estadual de Ponta Grossa), buscavam mostrar “as opções políticas de professores de história e suas implicações para a docência” em países da América do Sul, entre eles o Brasil.

Ao final concluíram que “a leitura feita até aqui, dentro dos limites do questionário, indica que, em geral, há muito mais concordâncias do que discordâncias quando se separam as repostas destes três grupos [direita, centro e esquerda]. Retomando nossa questão inicial, verifica-se que a preocupação com política não é um privilégio de professores de esquerda, como alguns cuidam denunciar e combater. (…) Como é de se esperar, professores que preferem partidos de esquerda e professores que preferem partidos de direita demonstram pequenas nuances nas suas escolhas, o que permite apenas afirmar que há coerência em seus posicionamentos. Não há nada que indique desejo de doutrinação ideológica nem de um lado, nem de outro e, sim, a coincidência na importância da história para a formação dos jovens e o desejo de ensinar da melhor forma possível, denunciando os empecilhos burocráticos e a falta de recursos adequados para tal”.

Outro trecho completa: “portanto, não seria privilégio de um ou de outro grupo de docentes a presença de traços de seu posicionamento político na vida profissional e esta presença não implicou em variações significativas nas opiniões de cada grupo de docentes, principalmente no que concerne às decisões didáticas, sendo, porém, mais incisivas na interpretação sobre os períodos ditatoriais. Parece que há elementos mais importantes para nos preocuparmos no que concerne à desejada qualidade no ensino de história: respeitar e reconhecer os professores, garantindo-lhes condições para desenvolver práticas de ensino de história coerentes com o que aprenderam e com o que sonham para o futuro dos jovens estudantes”.

Professores tentam se virar como podem para ensinar sobre a FEB

Brasileiros voltaram vitoriosos da Europa

Dados de 2013 mostravam que em 98% das escolas brasileiras os professores davam aulas baseadas apenas nos livros didáticos, que 1% não tinha livros didáticos e outro 1% preferia não usar livros. Partindo do pressuposto de que essa realidade não deve ter evoluído muito nos últimos cinco anos, os professores teriam que se virar para colocar a FEB nas aulas, uma vez que, segundo eles, o assunto aparece de forma muito superficial.

“A participação do Brasil nos livros de história da editora não dão o papel necessário para o Brasil na Segunda Guerra Mundial! Muitas vezes eu é que tenho que dar uma ênfase que o papel dos brasileiros foi decisivo no processo, pois, foram eles ao lado dos Aliados que conseguiram auxiliar na vitória dos mesmos. Principalmente a tomada do Monte Castello. Nos livros só é citado que o Brasil participou ao lado dos Aliados e auxiliou na vitória, mas não demonstram muito detalhes”, comenta Hurlan.

“[A FEB] aparece de maneira bem singela, algumas vezes até no conteúdo de Era Vargas, com pouca informação. Algumas vezes tenho a impressão de que só citam como forma de dizer: ‘ah! O Brasil também participou da Segunda Guerra, com a FEB’. E o conteúdo está sempre vinculado com a foto da cobra fumando, muitas vezes de maneira caricata. Comento também sobre o Monte Castelo e a quantidade de soldados que foram para lá, mas não me prendo muito, relaciono a participação brasileira com pressões políticas para que o Brasil tomasse um lado e não de uma extrema necessidade do Brasil entrar para que só assim os Aliados vencessem”, explica Guilherme.

“Aparece que ela [FEB] participou, mas, de maneira muita rápida, sem aprofundar detalhes. Tento encaixar no contexto da guerra, assim como é explicado o porquê dos EUA entraram na guerra, onde lutaram e como isso mudou a guerra, faço o mesmo com o Brasil”, detalha Thomas Grams

“A FEB aparece de modo complementar (…). Ela não adquire papel central, ao mesmo tempo em que ela não é esquecida. Não há grande menção nos livros didáticos, fala-se dos Pracinhas, não citam as batalhas específicas e nem técnicas mais elaboradas. Eu abordo a participação do Brasil, tanto em desenhos animados, como aquele do Zé Carioca com o Pato Donald, quanto a partir de relatos dos Pracinhas (…). Por vezes eu trabalho outras fontes. A FEB poderia ser melhor lembrada se houvessem mais fontes didáticas para o trabalho do professor de História, se os próprios livros sugerissem mais materiais, se houvessem mais abordagens conhecidas e amplamente divulgadas sobre o tema”, comenta Luís Junior Gottwald.

Um estudo para ajudar a entender a baixa da FEB

Os relatos dos professores vão ao encontro de um amplo estudo, conduzido pelo professor Francisco Ferraz, Universidade Estadual de Londrina – UEL. Em 2010 ele tentou mapear o que existiu da FEB nos livros didáticos ao longo das décadas. Descobriu que mesmo durante a ditadura civil militar [que alguns chamam regime militar], a FEB não entrou nos livros com tanta ênfase (entre as décadas de 60 e 70), como já vinha ocorrendo desde o pós-guerra, ainda que vários títulos sobre a temática tenham sido lançados nesse período. Assim como hoje em dia, havia menções, mas não muito aprofundadas.

Entre 1972 e 1980, a média da unidade de inserção do tema foi de 4,8%, a unidade de inserção do tema foi de 14,5% e a proporção do tema em relação ao total da obra foi de 0,5%. História e Geografia haviam perdido espaço para Estudos Sociais. Os professores das disciplinas suprimidas foram colocados na mira do Estado, suspeitos de subversão (talvez daí o imaginário de que todo professor é comunista).

Porém, com a volta à democracia e os movimentos pró-democracia pressionando o Regime, esses professores foram saindo do radar anti-subversão e se fortalecendo. Ao mesmo tempo, a FEB e o Brasil na II Guerra foram perdendo espaço, pois, a visão do herói foi sendo substituída por uma história mais crítica. O resultado foi que entre 1981 e 1997, a média da unidade de inserção do tema foi de 6,8%, a unidade de inserção do tema foi de 9% e a proporção do tema em relação ao total da obra foi de 0,6%.

Com a história sendo tocada de maneira mais crítica, a discussão foi ampliada. Não eram mais somente os torpedeamentos os responsáveis pela entrada no Brasil na II Guerra e começou-se a falar abertamente de certos militares brasileiros com simpatia pelo Eixo e também das pressões exercidas pelos Estados Unidos.

O que teria contribuído para a redução do espaço, segundo Francisco, poderia ser o fato dos professores formados no pós-ditadura terem recebido uma instrução que oscilava entre a escola dos Annales (que busca se afastar do positivismo por uma história mas vasta e humana) e o marxismo. Isso somado ao fato de entender a história anterior como forma de glorificar o exército [que havia os perseguido] foi o primeiro fato.

O segundo fato é que os temas de histórias das batalhas, que já vinham caindo desde a década de 70, caiu de vez para dar lugar a histórias de lutas sociais, de classe, que contrapusessem em campos opostos capital e trabalho. Ferraz ainda cita modas historiográficas e a profissionalização das editoras, que cada vez mais se voltaram para atender a demanda do mercado, em que assuntos tidos como ultrapassados não eram e não são publicados.

Três anos depois, em 2013 e em outro artigo com a mesma temática, escreveu que de forma parcial podia ser dito que “por parte das edições de livros didáticos e das instâncias elaboradoras de normas curriculares para o ensino fundamental e médio, não há qualquer preocupação em situar a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial como assunto de relevância ou capaz de induzir reflexões sobre eixos temáticos nas aulas de História”.

Disse ainda que “em outras palavras, não é aqui que encontraremos a memória da FEB. Antes de qualquer conclusão definitiva, porém, deve-se conferir, mesmo que precariamente, qual é o conhecimento que o público escolar (professores e alunos) têm desse evento, e qual o grau de relevância que proporcionam a ele.

O artigo terminou dizendo que o trabalho continuaria no futuro. Logo, a baixa inserção não seria uma obra maquiavélica da esquerda e sim, o mercado editorial que não estaria interessado ou não teria demanda pelo tema. Como foi dito, a maioria dos professores só leciona aulas baseadas nos livros didáticos.

Por falar nas editoras…

Imagem do livro “História do Brasil”, de Agostinho Bonni e Francisco Romano Belluci, do começo da década de 1980.

Como os professores ouvidos reclamaram das editoras, fomos atrás das cinco maiores empresas do ramo no Brasil com contratos com o Governo, já que as escolas públicas representaram 73,5% das matrículas de 2017. Outros 26,5% estiveram na rede privada.

Procuramos a FTD, a Ática, a Saraiva, a Moderna e a SM, além de outras citadas pelos professores ouvidos na reportagem: Telaris, FTB, SAE digital e UNO.

Dessas, somente as editoras Moderna e SM responderam sobre como buscam escolher o material que entrará em suas publicações e sobre a inserção da FEB. As notas são as seguintes:

“Vale esclarecer que autores e editores de livro didático devem fazer uma seleção precisa dos conteúdos para que o processo ensino-aprendizagem seja realmente significativo, colaborando para o desenvolvimento de competências e habilidades. A seleção dos assuntos abordados pelas obras do nosso catálogo é feita com base nos currículos escolares e em  pesquisas com grupos focais de professores de todo o país e, até o momento, não houve nenhuma demanda pelo aumento da tratativa do referido assunto. Devemos considerar também que os professores da disciplina têm, em média, apenas duas aulas semanais, o que inviabiliza desenvolver um curso que aborde todos os temas da história de maneira aprofundada. Além disso, a Base Nacional Curricular Comum não estabelece o tema em questão como obrigatório”, esclareceu a assessoria da Moderna.

“Os conteúdos publicados em nossos livros didáticos são selecionados de acordo com as orientações estabelecidas pelos órgãos de educação do governo, como currículos municipais, estaduais e, mais recentemente, a BNCC. Trabalhamos priorizando a ampliação e revisão dos estudos históricos e sabemos, em especial, que, nos últimos dez anos, tem ocorrido o lançamento de muitos títulos sobre a experiência militar brasileira no contexto da Segunda Guerra Mundial. Entre os autores e pesquisadores da História da Segunda Guerra Mundial que utilizamos como fonte para produção do nosso material didático, podemos mencionar: Cesar Campiani Maximiano, Francisco César Alves Ferraz e Dennison de Oliveira, entre outros. Nossos livros didáticos são periodicamente revisados, pois temos como princípio oferecer conteúdos atualizados. Sobre ampliar o espaço para o tema, acreditamos que, com o lançamento da BNCC e a nova reestruturação do Ensino Médio, vivemos um momento oportuno para repensar este e outros conteúdos”, completou a SM.

As outras editoras tiveram uma semana para responder, mesmo assim, não houve retorno.

P.S. Para saber como são escolhidos os livros didáticos e o ambiente de ensino das escolas brasileiras, clique aqui.

Para saber a diferença entre as várias correntes de esquerda clique aqui.

Quer mais conteúdo interessante sobre a FEB e o Brasil na II Guerra?

Acesse http://www.facebook.com/vdevitoriabr

Consultamos:

Caroline Pacievitch, Luis Fernando Cerri. Esquerda ou direita? Professores, opção política e didática da história, disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/22412

Gazeta do Povo. Estudo: 85% dos professores de História são de esquerda, disponível em http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/estudo-85-dos-professores-de-historia-sao-de-esquerda-5fdaah5yrtneczgck9qhb6ia1

Revista Nova Escola. Entenda o PNLD e saiba quais são os livros didáticos mais distribuídos em 2017, disponível em https://novaescola.org.br/conteudo/4864/entenda-o-pnld-e-saiba-quais-sao-os-livros-didaticos-mais-distribuidos-em-2017

Agência Brasil. Censo aponta que escolas públicas ainda têm deficiências de infraestrutura, disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-01/censo-aponta-que-escolas-publicas-ainda-tem-deficiencias-de-infraestrutura

Francisco Ferraz. O BRASIL NA GUERRA: UM ESTUDO DE MEMÓRIA ESCOLAR, disponível em http://ojs.fe.unicamp.br/index.php/FEH/article/viewFile/5460/4366

Francisco Ferraz. Os livros didáticos e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, disponível em https://www.jstor.org/stable/40985171?seq=1#page_scan_tab_contents (exigido cadastro)

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