FEB: patrulha na neve teve facada, metralhadora estragada e briga com granadas

Brasileiros colocando mina em dia com neve alta

Silas de Aguiar Munguba era um estudante de Medicina quando a guerra começou. Ele estava no Exército e quando foram colocar os homens em Regimentos de Infantaria, ele achou que talvez fosse para uma de saúde. Não foi o que aconteceu. Foi posto como 3o sargento, Comandante de Grupo de Combate da 2a Companhia do I Batalhão do 1o Regimento de Infantaria da FEB. Ali tomou parte nos segundo (29/11/1944) e quarto ataques a Monte Castelo (21/2/1945) e, participou de mais de vinte patrulhas, tendo sido ferido em uma delas. Essa é uma história de uma dessas patrulhas.

O começo

O comando da FEB mandou uma ordem de achar uma posição alemã que andava tirando o sossego dos brasileiros. Era para estabelecer contato, ou seja, fazer os inimigos revelarem a posição e, depois retornar. Foi no dia 18 de janeiro de 1945 e fazia um baita frio, com neve até a cintura e sensação térmica próxima de 20 graus negativos. O guia era um partigiani, soldado da Resistência Italiana.

A patrulha saiu na hora exata e após andar alguns quilômetros e atravessar um pequeno rio congelado, que teve de ser transposto com o máximo cuidado para não rachar o gelo, chegaram em uma casa de família italiana.

O meio

O comandante, tenente Célio Dalva Vieira Regueira, fez gestos para que fosse feito um cerco no entorno no imóvel. Silas entendia de armar e desarmar armadilhas que os alemães deixavam, por isso, foi na frente. Após horas de caminhada e de montagem do cerco à casa, todos estavam tensos no que poderia dar aquela aventura.

Silas abriu a porta com cuidado e entrou na casa. Estranhou porque não tinha armadilha e nem movimento de gente. Mesmo assim ele entrou com a metralhadora dele na mão e viu os moradores, um casal com duas filhas, bem à frente, perto de uma mesa. Perguntou com a metralhadora apontada:

-Onde é que está o alemão?

-Aqui não tem alemão – respondeu o italiano.

Os outros soldados da patrulha entraram e foram vasculhando. Silas explicou ao dono da casa:

– Nós não estamos aqui para prejudicar ninguém, não queremos ferir ninguém, agora quero saber onde é que está o alemão.

O italiano voltou a negar.

– Não tem alemão!

– Tem, nós recebemos informação de que tem alemão! – retrucou o sargento, já perdendo a paciência e, completou:

– Então, faça o seguinte: vamos correr os quatro andares da casa.

Com medo, o pai da família mandou a esposa no lugar dele. Silas e mais dois soldados fizeram a vistoria e não encontraram nada. Irritado com a falta de colaboração, o sargento desceu e perguntou mais uma vez, ao que o homem também negou de novo que existissem alemães ali.

Silas Munguba é homenageado com nome de rua em Fortaleza/CE

Foi então que veio a medida extrema. Silas arrancou a faca de trincheira que carregava e fez um risco no braço do italiano.  Mesmo assim o homem continuava negando. Movido pela fúria, Silas encostou a faca no peito do sujeito, em cima do coração e, foi apertando. Quando o italiano viu que ele ia mesmo ter o peito rasgado, gritou:

– Subito! Subito! – que quer dizer “perto” em italiano.

O sargento quis saber onde e saiu puxando o italiano. Andaram alguns metros e em um canal, ao lado de uma árvore, eis que o que parecia ser um toco foi avistado. O italiano soltou um berro e disse:

– Sentinela tedesca! – o toco era na verdade uma sentinela alemã e se virou de susto, gritando furioso:

– Raus! Raus! (fora em alemão).

O italiano correu e fugiu. Silas puxou o gatilho em direção ao inimigo, que estava a 15 metros dele. Porém, a arma falhou, porque o óleo lubrificante estava congelado, havia virado um sebo grosso. Não pensou duas vezes e apelou para a granada de mão, porém, como estava de luva, não conseguiu puxar o pino. Tirou o pino no dente e mandou a granada no tedesco, que morreu ali mesmo.

Correu de volta para o grupo dele e pediu outra metralhadora, porque a dele tinha falhado. Voltou ao local do encontro com o primeiro alemão e literalmente topou com um segundo. Um olhou para o outro e ele apertou o gatilho primeiro, porém, a arma falhou mais uma vez. O alemão foi mais rápido e jogou uma granada na direção dele. “Aqui, só fazendo um parênteses a respeito dessa sensação que você tem, quando vai morrer. Eu era jovem, tinha 21 anos de idade, estudante de medicina, uma família organizada, tudo estruturado, tudo bonitinho e, de repente, uma granada entre as pernas, sei que vai explodir e que vou morrer. É uma sensação terrível: você está sabendo que vai morrer e o fim é iminente. Mas, graças a Deus, a granada não explodiu e eu peguei a minha, joguei-a e ela funcionou”, contou Silas em meados dos anos 2000.

Depois disso, brotaram alemães e uma intensa troca de tiros se deu por alguns minutos. “Essa patrulha ficou chamada de ‘Patrulha Tenente Rigueira’, explicou o sargento, que ganhou medalha por bravura após essa ação.

O fim

O Silas Munguba já idoso, tempos antes de falecer

Missão cumprida, os brasileiros tinham achado o inimigo e já podiam voltar para a própria linha. Começaram a recuar. O problema é que os alemães também conheciam a região e sabiam que o único caminho possível era atravessando o rio congelado. Não deu outra, foi o tempo dos homens do tenente Rigueira atravessarem e a artilharia nazista bateu todo o trecho do rio, quebrando o gelo. Porém, os brasileiros já estavam do outro lado e ainda tiveram tempo de pedir apoio da Artilharia da FEB, que respondeu com tudo que podia.

Foi tão forte, que os alemães pediram trégua. “Recordo-me de que chegou uma Bandeira da Cruz Vermelha pedindo-nos para suspender o fogo, a fim de retirarem os mortos e feridos daquele local. Então, valeu aquela patrulha, porque foi localizada a linha inimiga, que ninguém sabia onde se encontrava”, comentou o veterano, décadas depois.

Após a guerra, o sargento Silas voltou para casa, se formou em Medicina, ajudou muita gente e foi um dos fundadores e Presidente do Desafio Jovem do Ceará e do Hospital Batista Memorial de Fortaleza, se dedicando a estudar formas de afastar e tratar jovens que sofriam de dependência química e de drogas. Dr. Silas, como era conhecido, faleceu em Fortaleza/CE, em  15 de Junho de 2009.

 

Fonte: V de Vitória com informações de História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, Tomo I. p. 94-95

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