Oficial da FEB junta soldados e quase “saqueia” posto de abastecimento americano

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Pracinhas descansam ao lado de carro de combate e examinam mapas para continuar o avanço na Itália.

A guerra estava chegando ao fim, porém, tropas alemãs tinham “sumido” do radar dos Aliados e os brasileiros as localizaram nas imediações de Collechio e Fornovo. Todos os veículos possíveis foram requisitados para perseguir o inimigo. A Artilharia precisou se movimentar também, para forçar os alemães a se renderem. O posto da 1ª Bateria / IV Grupo de Obuses se encontrava em Vignola.

Hélio Mendes, de São Paulo/SP, que era observador avançado e oficial de manutenção da 1ª Bateria / IV Grupo de Obuses, acompanhou essa operação. Ele quase foi obrigado a saquear um posto de combustíveis americano para cumprir a ordem de avançar.

A história é a seguinte: um Capitão deu a notícia de que em poucas horas eles iriam se mover. “A Bateria vai prosseguir o mais cedo possível. René (Primeiro-Tenente René Coulaud, Comandante da Linha de Fogo) e Frederico (Segundo-Tenente Frederico Vianna Torres, Oficial de Reconhecimento), comigo. Vamos reconhecer nova posição mais à frente. Hélio, você prepare a Bateria para partir”, disse ele aos subordinados.

Hélio pensou como faria, pois, sabia que existiam problemas de abastecimento naquela região. “Mas, capitão! Há dois dias não recebemos suprimento de combustível. Onde existe algum posto de suprimento?”, perguntou ele ao superior.

O Capitão que virou as costas e saiu andando, estava com pressa. “Olha, você se vire! Porque eu tenho coisas mais importantes para fazer”, respondeu. A missão de arrumar combustível cabia à Bateria de Serviços, mas, como as coisas estavam acontecendo de maneira acelerada, não estavam dando conta de cumprir suas funções com eficiência.

Hélio era muito responsável e, sabia que lhe cobrariam a missão, caso ele não fizesse o ordenado. Ao mesmo tempo em que delegava funções para movimentar sua unidade, começou a pensar onde arrumaria combustível. Tudo estava confuso.

Foi quando chegou Comandante do Grupo de Artilharia acompanhado de seu Estado-Maior e ele foi explicar a situação. “Você está precisando de suprimento?”, perguntou o chefe para Hélio, que respondeu de cabeça tudo o que necessitava. “Tantos mil litros de gasolina. Cada trator leva quatrocentos litros de combustível. Tantos mil litros de combustível; tantos de óleo; tantos disso; tantos daquilo. Tudo da maneira mais detalhada possível”, afirmou ao Comandante.

Porém, a resposta não foi a que ele esperava.  “Bom, então você se vire, porque eu também não tenho isso e não sei nem onde encontrar”, disse o Comandante para Hélio, que desnorteado pediu licença e avisou que precisava voltar ao trabalho.

Medida extrema

Anoitecera no front e a situação ia de mal a pior, sem o tenente poder cumprir suas ordens. Hélio chamou quatro sargentos e lhes ordenou que cada um pegasse uma viatura leve e procurasse um posto de suprimentos que pudesse lhes atender. Deveriam andar em velocidade acelerada e depois de 500m da Bateria, poderiam circular de farol aceso. Tinham que voltar em no máximo duas horas. Um foi para o norte, outro para o sul, um para o leste e outro para o oeste. Partiram os quatro e antes da hora marcada, um deles voltou com uma notícia boa: havia um posto americano que entregava o combustível mediante troca de recipientes.

Porém, deviam ser tonéis, de 200 litros. Um vazio, por um cheio. Seria a solução, se Hélio tivesse tonéis, pois, só tinha camburões pequenos, de 20 litros cada. Esperou mais um pouco pelos outros três sargentos, que chegaram sem novidades.

O tenente pensou e pensou, até que decidiu que ia encher de galões de 20 litros, dois ou três caminhões GMC de duas e meia toneladas. Pegou mais 20 a 30 soldados e partiram para o posto americano.

Em português, italiano e um pouco de inglês, ele explicou a situação para o sargento americano, que guarnecia o recinto. Ele se negou a entregar o combustível, se mostrava irredutível. “Só troco tonéis por tonéis”, dizia ao brasileiro.

Hélio forçava mais um pouco, quase implorava, mas, o americano dizia que não tinha ordens e nem equipamento para colocar o combustível naqueles galões de 20 litros.

Foi aí que veio a medida extrema. “Por fim, eu disse ao sargento que necessitava com urgência daquele combustível e que era minha intenção consegui-lo de qualquer maneira. Mostrei os caminhões, dizendo que existiam trinta homens armados e municiados no seu interior e que ele não tinha como defender o posto. Eu achava que no posto só havia o sargento americano”, contou Hélio, dizendo que depois apareceram mais americanos.

Solução negociada
O clima era tenso. Porém, o sargento americano, já experiente e entendendo o que podia ocorrer, começou a negociar. A saída foi um empréstimo dos tonéis e a devolução em algumas horas, proposta feita por Hélio. “Felizmente, o sargento, de mais idade e muito mais sensato que eu, concordou com a minha proposta estapafúrdia para os padrões americanos. Ele acreditou que eu ia tomar o posto à força. Não sei se tomaria… É provável que sim”, informou o tenente brasileiro.

Para legitimar o empréstimo, ele fez um recibo em português, discriminando tudo que ia ser feito. Os tonéis foram colocados nos caminhões e o combustível chegou a tempo de abastecer os veículos da Bateria, que iria bombardear os alemães em Collecchio/Fornovo. “Essa é a história do suprimento em Vignola. Graças ao sargento americano, não resultou num caso internacional. Imaginem! Um oficial brasileiro saqueando um posto de suprimento de combustível americano!”, brincou Hélio, em 2000, ano em que concedeu entrevista ao Exército Brasileiro.

Fonte: V de Vitória com informações de História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, Tomo II. p. 240-42.

 

 

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