Furtos e roubos na FEB: brasileiros roubaram “tanque”?

Soldado brasileiro fazendo manutenção de jipe em Rocca Cornetta

Pergunta enviada por leitor da página, questiona se os brasileiros de fato roubaram um carro de combate Sherman, em represália à roubos e furtos por parte de soldados americanos na cozinha brasileira. Segundo a história que circula na Internet, os oficiais brasileiros teriam reclamado dos constantes sumiços de material e um oficial americano, teria respondido que aquilo ali era uma guerra e não um colégio.

Dias depois, o mesmo oficial americano teria procurado o brasileiro. “Com relação aos alimentos, as roupas e munições, tudo bem, mas, por favor, devolvam nosso tanque”, teria dito.

Fomos checar se havia algo assim relatado em alguns livros da FEB. Segue o que encontramos:

1 – Comandante da Engenharia roubou peças de carro para presentear padre

O Coronel Machado Lopes, que comandava a Engenharia, no seu livro “9º Batalhão de Engenharia de Combate na Campanha da Itália, página 73, comentou que os furtos na guerra eram normais e que “o furto, principalmente de jipes, atingiu tal proporção, que levou o V Exército a alertar suas grandes unidades e, a recomendar que responsabilizariam pecuniariamente o detentor pelo objeto ou equipamento que lhe fosse entregue”.

Segundo ele, havia companhias de Engenharia que tinham mais jipes do que a relação oficial. Ele próprio diz ter sido vítima de furto. Ao ir para Roma, o motorista dele, um certo Cabo Braga, cochilou no estacionamento de uma loja que o Comandante estava visitando. Quando o chefe voltou, tinham levado os galões de combustível e a mala de roupas deles.

Em seguida do roubo, eles se dirigiram ao posto de logística mais próximo e pegaram roupas novas. Depois, Braga furtou galões de combustível do primeiro jipe americano que avistou.

Mas, não ficou só nisso. Em outra ocasião, ele e o Cabo Braga foram visitar o Prior de Roma. O religioso contou que adorava carros, mas que o que ele mais gostava, estava parado por falta rodas. Na volta para casa, o comandante e o motorista viram um carro igual ao do Prior no caminho, nas linhas brasileiras. “Não vacilei um só instante. Com as golas levantadas, encobrindo os rostos, de metralhadora na mão, fizemos o italiano encostar o carro em um pequeno desvio da estrada e, por ele ajudado, retiramos as quatro rodas do seu carro, que lá ficou arriado”, confessa Machado, que depois voltou e deu de presente ao Prior, as rodas que ele queria. “Não tive o menor remorso, pois, naquela altura, possuindo um carro em perfeito estado, só podia ser colaboracionista. Assim raciocinando, fiquei tranqüilo com a minha consciência”, se justificou.

A situação ainda piorou, pois, depois ele recebeu a denúncia e jogou nas costas das tropas de negros americanos do 370º Regimento, que tinham fama de roubarem as coisas na região, inclusive dos brasileiros. Ele confessou o assalto ao Prior, fez penitência e ficou por isso mesmo.

2 – Jornalista roubou livro de Igreja

O jornalista Joel Silveira foi dormir em uma igreja no caminho de Soprassasso, batalha que ele estava cobrindo. O padre o botou em um quarto no fundo da igreja e lá pelas tantas da madrugada, Joel resolveu abrir um armário que existia ali e, dentro, descobriu livros fascistas, que ele roubou como souvenirs. Partiu no outro dia nas primeiras horas da madrugada.

3 – Deixou jipe sozinho, perdeu

Adhemar Rivermar, oficial de operações S3 do 11º Regimento de Infantaria, no livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”, conta que se um jipe fosse deixado sozinho, podia acontecer duas coisas: ser roubado por alguém do exército de outro país Aliado, ou ser apreendido pela Polícia do Exército. No primeiro caso, o motorista ia pagar o veículo de forma parcelada no salário. No segundo caso, o responsável tinha que ir retirar o veículo na Polícia e pagar uma multa pesada.

“No princípio, fora tal o desaparecimento de viaturas, mesmo quando deixadas presas por correntes e cadeados em postes ou árvores, que, contava-se, um coronel comandante de unidade de infantaria dera permissão aos seus comandados para agirem da mesma forma. Rapidamente, aprenderam a mudar de nacionalidade as viaturas que deparavam momentaneamente sem ocupantes, com pintura imediata do Cruzeiro do Sul [identificação brasileira] no local onde existia anteriormente a estrela branca característica do Exército dos Estados Unidos, bem como a substituição das letras USA por EB antes do número da viatura, que em muitos casos era também alterado. O coronel logo percebeu o crescimento do número de suas viaturas e foi obrigado a derrogar a permissão veladamente dada, quando, certa manhã ao levantar-se, deparou perto de sua barraca com um jipe anfíbio, de distribuição restrita à determinadas unidades de engenharia, já em adiantada fase de transformação de propriedade”, explicou Adhemar.

4 – Roubo de bandeira nazista

Já Raul da Cruz Lima Júnior, que era comandante da 2ª Companhia da Engenharia, conta que no final da guerra, os brasileiros capturaram uma bandeira alemã, em Fornovo. O objeto ficou sob a guarda de um sargento, para ser levado como troféu de guerra para a sede da Engenharia.

De noite, misteriosamente, a bandeira sumiu. Houve revista geral em toda a Companhia. Ela não foi localizada, mesmo com os capelães apelando até para o amor divino. Foi aí que apareceu, do nada, em um pacote semi-aberto, no meio do pátio da Engenharia, a bandeira roubada.

Raul se aproximava do pacote, quando algum soldado zoeira jogou uma espoleta de granada perto e fez o barulho característico do artefato. Uns se jogaram no chão e outros correram se proteger. Uns prisioneiros alemães, que estavam varrendo o pátio, também correram e, depois, não houve quem não desse gargalhadas, dizendo que os alemães estavam fazendo um contra-ataque para recuperar a bandeira.

A tal bandeira ficou no Museu do Expedicionário de Curitiba e mais de seis décadas depois, foi mandada para a sede a Engenharia de Combate, em Aquidauana, Mato Grosso do Sul.

5 – Não era só na Engenharia

O 3º sargento, comandante de Grupo de Combate da 2ª Companhia do I Batalhão, do 1º Regimento de Infantaria, Silas de Aguiar Munguba, conta que havia mesmo essa ordem de pegar qualquer viatura abandonada e outros objetos. Ele conta que pegou uma metralhadora que usou a guerra toda. Viu “dando sopa” e pegou, abrindo mão do fuzil que carregava. “Os brasileiros eram um pouco atrevidos, pegaram ao pé da letra a ordem que receberam. Se viam um jipe parado em algum lugar, levavam a viatura como se fora abandonada. Havia um soldado na minha Companhia que usava um jipe, mesmo assim, se apropriou de um caminhão americano. Isto antes de entrarmos propriamente em combate”, relatou no livro “História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, Tomo II.

Há ainda relatos de roubos, furtos, violações de bagagens e extravios de pertences, na volta dos Pracinhas ao Brasil, mas, esta é outra história, bem como os fatos sobre os crimes por parte dos alemães. Porém, não achamos nenhum tanque roubado.

Fonte: V de Vitória BR

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