Monte Castelo 74 anos: Pracinhas relembram vitória conquistada com sangue

Aqui na frente o comandante do 1° Regimento de Infantaria, Aguinaldo Caiado de Castro, no meio dos soldados, Pracinhas e alemães. No chão, parece haver um corpo alemão. Os prisioneiros estavam recolhendo os corpos dos seus. Já Caiado, estava ali para parabenizar os homens que dois dias antes tinham tomado Monte Castelo.

O Monte Castelo é uma elevação bem na beira da rodovia 64, que dá acesso à Bolonha. Ele faz parte de uma cadeia de elevações que tem a mais alta delas em Monte Belvedere. Na época da guerra, em 1944, quando os brasileiros chegaram, herdaram as linhas em volta da elevação, dos americanos.

A idéia dos Aliados era tomar toda a cadeia de montanhas, sendo Monte Castelo um objetivo para os brasileiros da Força Expedicionária Brasileira – FEB. Porém, sem tomar as montanhas ao redor, um pouco mais altas, era impossível cumprir a missão.

Por quatro vezes (alguns autores dizem ser cinco), entre 24 de novembro e 12 de dezembro de 1944, foram feitas tentativas que fracassaram, todas por somas de fatores, como condições climáticas desfavoráveis, desacertos de planejamento e principalmente perda do fator surpresa do ataque. Depois disso, veio o inverno, as posições se estabilizaram e até 21 de fevereiro de 1945, as ações se restringiram a patrulhas e trocas de tiros de artilharia. Foi aí que veio o ataque vitorioso.

Quando o dia amanheceu

A batalha começou às 6h e de estendeu até 17h45, quando a infantaria partiu para o topo. Às 17h50 chegaram as primeiras ligações de homens no cume da elevação.

Ao mesmo tempo, os americanos atacavam, em conjunto, no Monte Belvedere, que era 163m mais alto que Castelo. Lá, também não tiveram vida fácil. Foram 850 baixas e 195 mortos entre os soldados da 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos. Porém, mataram vários alemães e aprisionaram outros mil.

Nos montes ao redor, entre eles o Castelo, já em posse dos brasileiros, estavam os pontos de tiros alemães para manter o Belvedere e quando caíram simultaneamente os montes mais baixos, os americanos se assenhorearam de vez do Monte principal.

Corpo de alemão morto em Monte Castelo. Foi fotografado de longe, porque poderia estar com armadilhas explosivas

Tiros e mais tiros sobre Monte Castelo

O 2º tenente Júlio de Pádua Guimarães era do III Grupo de Obuses, onde exerceu as funções de Oficial Observador Avançado da 3a Bateria e, posteriormente, da 1ª Bateria, no quadro efetivo. O grupo dele disparou 3.700 tiros e teve 185 missões de tiro na batalha. Já a artilharia de modo geral, deu mais de 10 mil tiros sobre o morro.

Do céu vieram as bombas do pessoal do 1º Grupo de Aviação de Caça, o “Senta a Pua”. Um dos pilotos era Rui Barbosa Moreira Lima. A esquadrilha verde, que era o grupo dele, recebeu a missão de destruir uns canhões que estavam atirando sobre a FEB, não lhe permitindo progredir. O líder dos pilotos era o Capitão Pessoa Ramos, que recebeu uma única foto do alvo e nada mais. “Na foto constava um pequeno riacho em ‘S’ onde eram vistas duas pinguelas. A localizada ao norte era o alvo a atacar e a do sul, nem foi observada ou discutida. Ao sobrevoarmos a área, Pessoa Ramos fez a identificação e pediu a confirmação dos componentes da Verde – Menezes, ala do Pessoa; eu, vice-líder no vôo; e meu ala Paulo Costa. Todos deram o OK e Pessoa iniciou o mergulho”, contou Rui.

Em seguida veio a surpresa da missão. “Após seu bombardeio e o do Menezes, que causaram tremenda explosão, verifiquei que havia identificado outra pinguela. Na certeza de que eu é que estava certo, avisei ao Paulo que lançasse suas bombas onde as minhas explodissem. Reunida a Esquadrilha, regressamos a Pisa e veio minha surpresa, quando o Pessoa partiu para brigar comigo. Achava ele, que a troca de alvo foi um descrédito à sua liderança. Enquanto eu tentava explicar, chegou até nós o Oficial de Informações – Tenente Miranda Correa – e disse que o General Mascarenhas desejava falar urgente com o Comandante da Esquadrilha”, contou o piloto.

O clima era pesado, temiam que viesse uma bronca, porém, não foi isso que ocorreu. “Pessoa ouviu a voz do grande chefe elogiando o êxito da missão nos seguintes termos: ‘A artilharia tedesca foi destruída e outro elemento, sob seu comando, acertou, um pouco ao sul, uma Companhia de Fuzileiros, eliminando muitos e deixando cerca de 17 prisioneiros. Vocês têm realmente um olhar de lince e muita precisão no ataque. Parabéns!’. Pessoa se acalmou e eu cheguei à conclusão que a guerra é um jogo sem lógica, que transforma quem errou a identificação do alvo em um piloto de olhar de lince com grande precisão no bombardeio”, sorriu ao contar.

Na terra, os infantes partiram para cima

O 3º sargento Comandante de Grupo de Combate da 2a Companhia do I Batalhão do 1º Regimento, Silas de Aguiar Munguba, tomou parte nos ataques de 29 de novembro de 1944, quando os brasileiros não puderam avançar e depois, em 21 de fevereiro, quando houve a vitória final. Deixemos ele contar a história:

“(…) Às duas horas da madrugada, a gente sabia que, dentro de três horas, iria ser desencadeado o ataque, ou seja, por volta das cinco horas da manhã de 21 de fevereiro de 1945. Às duas horas da madrugada, recebi ordem de sair com o meu grupo, que pertencia ao Pelotão do Tenente Fredímio Trotta. A ordem era: sair com o Pelotão e ocupar, através de um golpe de mão, uma casa que ficava ao lado esquerdo de Monte Castelo. Para isso, saímos de madrugada, com o mapa onde estava indicada a localização da casa. Chegamos lá, depois de algumas horas. Como sempre, eu ia na frente, porque sabia ativar e desativar minas. Quando olhamos a casa, concluímos que não podíamos cercá-la, porque não dava jeito; então, ficamos na frente da mesma e esperamos um pouco para ver se via alguma coisa. Não vimos nada e resolvemos entrar. E é aqui que entro na ação. Havia uma cerca viva que se estendia até a casa, cuja entrada por onde passei o pé existia um cordão, um fio; ao pisar no fio, desprendeu-se uma granada ou coisa parecida que tinha um pára-quedas com uma luz muito forte. O clarão iluminou todos nós; foi um salve-se quem puder, porque, repentinamente, você se encontrava sob uma luz, talvez mais forte que a do dia. Ninguém esperava aquilo. Todo mundo recuando, soou uma gritaria, disparo de arma, enfim, um pandemônio naquele local.

Depois de certo tempo, como não recebemos nenhum tiro, voltamos à casa. Eu ia na frente, lembro-me muito bem disso, quando olhei para o lado esquerdo do prédio vi metralhadoras .50 e .30, morteiro e bazuca, uma porção de coisas com que eles alvejavam o flanco esquerdo do Monte Castelo. Depois, é que fui saber o que era aquilo.

Pracinhas com morteiro recolhido no campo de batalha

O certo é que a gente ocupou aquele ponto, por volta das quatro horas da madrugada; aguardamos um pouco e resolvemos sair, em torno das seis horas, em direção à posição de Monte Castelo. Vinha subindo uma tropa americana que tinha participado de alguma missão e estava retornando; de repente, nos vêem saindo de um local onde estivera o alemão; o que eles fazem? Atiram na gente. Morreu um soldado meu. Há um livro publicado sobre ele. Então, nessa situação perdi um soldado, morto pelo próprio americano. Estabeleceu-se uma confusão, até que tudo se acalmou; eles descobriram que éramos brasileiros, não atiraram mais e continuamos o percurso até que chegarmos nas cercanias do cume do Monte Castelo.

Estávamos ocupando a posição que os alemães haviam ocupado antes. Ali, eles atiravam do flanco, ninguém passava; e o faziam de um lado e do outro. Dessa forma, a tropa brasileira não podia subir nunca, porque o alemão estava nas laterais, dominando os flancos do morro; esse era o grande problema. Depois de alguns anos, até li uma revista que falou nesse ataque que a gente fez, inclusive citando o meu nome. Se não fosse aquela conquista, aquele golpe de mão, talvez tivesse morrido muito mais gente.

Daquela posição, continuamos em frente e, quando atingimos o topo, lá pelas 19 horas, vislumbramos a paisagem mais linda do mundo, o Vale do Pó.

Após a conquista de Monte Castelo, recebi ordem de sair com o meu grupo, numa patrulha, para trazer armamento, feridos e arrumar os mortos para os padioleiros apanharem, isso já do outro lado do Monte Castelo que a gente não conhecia. Foi aí que peguei uma metralhadora alemã, alcunhada de “lurdinha”. Minha noiva, na época, era Lurdinha e eu queria ter uma metralhadora com o nome dela.

Saí com o meu grupo, faltando um soldado que tinha morrido. Arrumamos os cadáveres em determinado ponto para os padioleiros recolherem, uns meninos de 16, 18 anos de idade, alemães; apanhamos o armamento que pudemos, os feridos que foi possível trazer e regressamos. Fiquei lá em cima, no cume do Monte Castelo; mas estava muito cansado e aí, os alemães, obviamente, reagiram, contra-atacando”.

Depois disso, Silas foi ferido com um estilhaço dessas bombas dos alemães. Foi retirado do front com um corte no o pé. Ficou uns dias no hospital e com medo de que no retorno fosse separado de seus soldados, fugiu do hospital e voltou para junto dos seus. Ficou como foragido, até que seus comandantes acabaram com aquela burocracia e pediram para tirassem o nome dele da lista, porque ele estava com seus comandados e não foragido.

Um baita orgulho da vitória

O Comandante de Pelotão da Companhia de Canhões Anticarros do 1o Regimento de Infantaria, Paulo Campos Paiva lembra a sensação de vitória. “Monte Castelo, a sensação de chegar lá em cima foi poder olhar para o horizonte e dizer: ‘Barbaridade, nós estamos aqui’. Foi uma emoção muito forte porque até chegar lá ocorreram muitas passagens meio complicadas”, relembrou emocionado.

Paiva perdeu um amigo no ataque. Era o Tenente Godofredo Cerqueira Leite, vítima de uma granada alemã, já depois que os brasileiros estavam no cume. Paiva tinha ido levar alguns infantes no caminhão que dirigia, desembarcou o pessoal e desceu de volta. Ao retornar, no Posto de Comando, viu em cima de uma mesa , um saco de estopa com uma tampa de papelão de caixa de sapato, onde se lia: Tenente Godofredo. O corpo do amigo tinha sido todo dilacerado pela explosão.

“Antes do ataque a Monte Castelo, a maioria dos oficiais achava que Cerqueira Leite não deveria ter participado da ação, porque estava sem condições físicas, mas ele não admitiu que, como Comandante, não fosse atacar junto com seus soldados. Ele tinha estima aos seus soldados. A insistência e o amor a seus soldados resultaram na morte desse íntegro e valente oficial, exemplo de tenente da nossa FEB. Fez questão e não abriu mão de liderar seus soldados, os quais não queria deixar na hora de entrar em combate. Disse ele que “se não pudesse ir no comando do Pelotão iria como simples soldado, integrando o mesmo”. Era essa a personalidade do Tenente Cerqueira Leite. Ele tinha amor aos seus soldados e não podia admitir que o comandante não atacasse junto com eles. Ele fez questão de participar de Monte Castelo mesmo gripado. Eu acho que isso não estava escrito e precisava ser dito para se valorizar esse tenente que não recebeu ainda, na minha opinião, a homenagem adequada”, relembrou.

Após conquistado o Monte, cessado o bombardeio alemão, os soldados foram tomando posse do lugar e esperaram continuar o avanço, já no dia seguinte. Antônio dos Santos Silva, era Cabo sapador-mineiro do Pelotão de Minas da Companhia de Comando do I Batalhão do 1o Regimento. Ele relembra como foi aquela madrugada. “De madrugada chegou comida quente, mas eu comi a conhecida ração ‘K’ que continha algumas coisas boas, chocolate, por exemplo. Conquistado o Monte Castelo, tive que voltar com o meu grupo. Começou a Fase da Perseguição, da qual participei e nos empenhamos em uns pequenos combates”.

Depois de Monte Castelo, viriam Castelnuovo e Montese, para em seguida haver a rendição dos alemães.  A guerra continuaria por mais dois meses e uma semana…

Veja também:

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um comentário

  • Cid Mauro Araujo de Oliveira

    Excelentes narrativas. A gente se sente com vocês nesse tempo e nessa situação tão difícil. Parabéns a vocês, heróis, mergulhados numa condição desfavorável e tendo que reverter tudo de modo tão radical e apressado. Belíssimas histórias. Nunca havia lido depoimentos tão precisos.

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