FEB: três assuntos que a imprensa brasileira falava pouco ou quase nada

Nem sempre a imprensa podia escrever o que queria

Jornalistas deixam de escrever notícias que desagradem algum grupo quando são censurados por órgãos oficiais, por poderes financeiros e quando se autocensuram. Com os correspondentes da Força Expedicionária Brasileira – FEB, não foi diferente. Até onde se sabe, não receberam dinheiro e nem se corromperam para não falar sobre determinados assuntos. Porém, foram censurados e se autocensuraram. Na sequência seguem três desses assuntos em que as máquinas de escrever foram silenciadas por forças maiores ou em que eles decidiram fechar os olhos.

Bordéis e prostituição eram também oficiais

Em épocas de guerra é comum ler relatos da miséria da população que em alguns casos encontra na prostituição a forma de sobreviver ganhando dinheiro das tropas de ocupação. Na Itália não foi diferente. Havia quem se prostituísse por conta própria[1] e havia a prostituição oficial. É o que escreveu Joaquim Xavier da Silveira[2].

Segundo ele, quem comandava era o Serviço Especial, aos cuidados do Major Reynaldo Ramos Saldanha da Gama, ajudado por oficiais nos regimentos. “A diversão do combatente é o bordel, a prostituição que podia dar vazão aos instintos dos soldados, mas não atendia às suas necessidades de lazer. A guerra brutaliza o homem, quebra-lhe algumas resistências e o deixa um pouco desamparado moralmente. A simples atividade sexual não é o bastante”, justifica Xavier.

O Padre Inocêncio, que servia como Capelão no 6º Regimento de Infantaria ficava abismado com a prostituição. “(…) Muitos, porém, demandavam às lagoas vizinhas, onde o refrigério do corpo pelo banho era ocasião e pretexto para a mais desenfreada bacanal. Ali pululavam as rameiras[3]. Passemos de largo pela triste página de corrupção moral que os soldados brasileiros abandonados na Itália escreveram em Francolise. Cem quilômetros ao sul, além de Nápoles, contornado o Vesúvio, jazem as ruínas de Pompéia antiga, testemunhas mudas de pavorosa tragédia. Mutismo eloquente! Vê-se claramente que toda aquela cidade, estuante de vida em seus tempos áureos, não passava de imenso lupanar[4]! O turista que reflete deixa aquela imensa sepultura convencido de que o vulcão enfurecido foi o gládio de fogo vibrado por Deus, numa repetição do castigo de Sodoma. Pois bem, aquele céu da Itália jamais terá presenciado cenas tão degradantes quanto as que, com os pracinhas brasileiros, se desenrolaram entre as colinas de Francolise. Basta dizer que o mulherio acorreu de toda a Itália, sem excluir a Lombardia e Veneza. Em cada operação de “limpeza” centenas delas eram arrebanhadas. Era só o trabalho de levá-las para bem longe e esperar. Voltavam[5]”.

Há memórias de Pracinhas em que a miséria levava as mulheres a vender o próprio corpo por comida. Em “A Cobra fumou[6]” (2002), um dos documentários sobre a FEB, há uma dessas histórias. Nela, o Pracinha preferiu entregar toda a comida que levava, quando percebeu que a esposa estava se oferecendo à ele, enquanto o marido doente estava em um quarto ao lado. Ele não quis consumar o ato e foi embora.

Nós aqui da página, quando entrevistamos ex-combatentes, eles diziam o mesmo e muitas vezes ficavam tão perplexos que deixavam o que tinham de comida para a família, sem querer o sexo. Claro que eram minoria, a maioria não estava muito disposta a julgamentos morais de porquê a mulher estava naquela situação.

Havia, lógico, sexo consentido, amor, namoro, casamento e outras formas de amor e amar. Aqui foi mencionada somente a prostituição. O leitor pode se perguntar: houve estupros[7] por parte de soldados da FEB? A resposta é sim. Dois dos estupradores foram condenados à morte e nesse caso a imprensa divulgou e fez questão de deixar bem claro que eram maçãs podres e Henry Bagley fez isso circular internacionalmente[8]. O mesmo não foi feito com os outros 13 acusados pelo mesmo crime. O agravante no primeiro é que também teve um assassinato junto, coisa que nos outros casos não ocorreu.

A miséria humana

Abuso da miséria também era motivo para aproveitar da mão de obra barata dos italianos para trabalhos na retaguarda. Desde lavagem de roupas até construção de obstáculos e abrigos ou transporte de materiais. Nesse caso, as relações humanas de necessidade e sobrevivência regulavam o preço.

Pior que isso é que parte dos italianos ricos, continuavam ricos. Quando entrevistamos Clemente Biensfield, que era do Depósito de Pessoal e, portanto, mais próximo da convivência com os civis na retaguarda, ele contou que os mais ricos queriam cigarros estrangeiros, de melhor qualidade e que mandavam os empregados comprarem via contrabando dos brasileiros. Logo, ele vendia, recebia, e combinava com alguns amigos da Polícia do Exército para pegarem o empregado e o cigarro algumas quadras à frente. O empregado tinha duas alternativas: ir preso ou devolver o produto contrabandeado. Devolvia e o grupo voltava a fazer o esquema de novo, repartindo o dinheiro. “A gente era jovem e sem juízo”, explicou para justificar.

O contrabando parecia ser comum, não só com coisas pequenas, mas com comida também. “Alguns bandidos desviavam gêneros nossos para fazer comércio. Os chefes estavam já bastante ocupados com o sério problema da nossa volta, pois, iríamos regressar com armas e bagagens, e não era pouco o material a ser embarcado. Aproveitando essa circunstância, meia dúzia de salafrários envergonhavam a farda que vestiam, fazendo câmbio negro. Era uma coisa difícil de provar, por isso mesmo ninguém queria falar a respeito com o capitão, mas era revoltante depois de tantos sacrifícios, sofrermos privações para que alguns enriquecessem”, escreveu Joaquim Xavier da Silveira, em outro livro: “Cruzes brancas, o diário de um Pracinha” (1963). Eram minoria os contrabandistas, mas existiam.

Entre as maçãs podres também havia os ladrões[9] de bagagem. Paulo Dumangin Santos, 2º Tenente do 6º RI, que serviu como oficial de Informações da FEB, conta que na volta para casa, já no final da guerra, a bagagem dele foi roubada assim que desembarcou no Rio de Janeiro. Os que não perderam tudo tiveram os pertences violados. Levaram fardas, troféus de guerra e lembranças que o pessoal tinha trazido para a família. “Sinceramente até fico com raiva por ter pensado que as coisas iam ser honestas”, escreveu em 1952 no “Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB”.

Impunidade

Infrações brasileiras registradas na Itália[10]: abandono de posto (08), lesão corporal dolosa (24), lesão corporal culposa (19), homicídio doloso (04), homicídio culposo (14), resistência (03), desacato (21), deserção (42), dano (03), roubo (06), furto (19), desobediência (08), peculato (03), crimes sexuais (15), Violência contra superior (07), Apropriação indébita (02), covardia (02), Insubordinação (09), Desrespeito a superior (01), falsidade (01) e abandono de posto (01).

Esses crimes e infrações geraram 215 processos, com 148 condenados e 68 inocentados. Uma pessoa podia ser acusada no mesmo processo por mais de um crime. Nos casos de deserção, apenas uma foi de fato deserção. Foi o soldado B.L. que se entregou para os alemães. Ele era filho de alemães e lutava pelo Brasil. Se suicidou no Acampamento de Luchy Steik, em Saint-Valéry, França e lá mesmo foi enterrado, conforme constatou Joaquim Silveira em “A FEB por um soldado”.

“A maioria das sentenças proferidas pela Justiça Militar não foi cumprida, pois, em 03 de dezembro de 1945, através do Decreto nº 20.082, o Governo resolveu indultar todos os oficiais e praças que, como integrantes da FEB, houvessem cometido crimes ou infrações que não de homicídio doloso ou deserção perante o inimigo. (…) Na verdade os nossos juízes agiram com mais benevolência do que seus companheiros do Exército norte-americano, sempre mais frios e insensíveis às súplicas dos delinquentes. Não há nisto qualquer crítica aos magistrados, pois, não é possível obter de duas consciências distintas o mesmo julgamento, particularmente quando sofrem influências de meios diferentes. O que importa, em última análise, era julgar os delitos de acordo com as leis penais existentes e isso fizeram com isenção e segurança[11]”.

Fechamento

Para não acusar a imprensa da época de cumplicidade, é preciso lembrar que havia a censura militar e do Estado Novo, comandado por Getúlio Vargas, em cima dos jornalistas e também que, em uma guerra, como escreveu Phillip Knightley[12], a primeira vítima é sempre a verdade, pois, os meios de comunicação são usados como armas de guerra psicológica e, portanto, não ficaria bem fornecer informações negativas que poderiam servir de munição para as críticas dos inimigos. Por isso, sempre o lado bom das notícias do front foi trazido por quem cobria a FEB, como forma de acalmar os ânimos do pessoal em casa, no front interno e confortar o Pracinha combatente.

REFERÊNCIAS E NOTAS

[1]Ver as memórias de Curzio Malaparte em “Kaputt”, transformadas em romance.

[2]A FEB por um soldado (1989, p.121).

[3] Uma das designações de prostituta.

[4] Termo que designava os prostíbulos na Roma antiga.

[5]Depoimentos dos Oficiais da Reserva sobre a FEB. São Paulo: IPE, 1949.

[6]Do diretor Vinicius Reis.

[7]Tropas da Mongólia (na época Ásia soviética, desertores) incorporada ao Exército alemão teriam estuprado pelo menos 262 italianas em seis meses de ocupação nos Apeninos Piemonteses. Os franceses são acusados de estupro em massa nas vilas próximas do Lácio, Itália. Entre 15 junho e começo de julho de 1944, pelo menos 60 mil pessoas, homens e mulheres, dos oito aos 72 anos foram estupradas  por soldados do Corpo Expedicionário Francês. Assim como no caso alemão, a desculpa é que os soldados eram de outra nacionalidade e incorporados ao Exército deles. No caso francês, das colônias do norte da África (60%). Disponível em Jornal RFI (http://migre.me/wmD0v) e em Associazione Linea Gotica (http://migre.me/wmD1b) . Acesso em 03/04/2017.

[8]Os soldados Adão Damasceno Paz e Luiz Bernardino de Morais seguiram duas moças até a casa delas, agradaram a família partiram. Mais tarde voltaram com tocas fechadas em que só se podia ver os olhos e expulsaram os parentes delas. Uma ficou para trás e foi estuprada pelos dois. O tio da jovem apareceu e foi morto a tiros. Na fuga deixaram cair um cachecol e uma lanterna. Foi fácil identificar os dois, que confessaram o crime. A pena foi extinta em 1945, como todos os demais crimes que não fossem crimes ou infrações que não de homicídio doloso ou deserção perante o inimigo. Isso indultou os outros 13 estupradores condenados em penas que variavam de cinco a pouco mais de nove anos de prisão. Uma lástima as penas não terem sido cumpridas. Adão e Luiz Bernardino já tinham ficha militar suja no Brasil por falta de disciplina e mesmo assim foram postos na FEB. Morreram nos anos 90, sozinhos, passando por dificuldades e carregando o fardo dos crimes de guerra… Fonte: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,apos-estupro-soldados-brasileiros-foram-condenados-a-pena-de-morte,921578

[9]Isso porque não falamos aqui dos ladrões de pertences. Se havia casas abandonadas no caminho dos soldados, é de se supor que alguns devam ter pegado pertences, mais ou menos como fez o correspondente Joel Silveira em uma igreja dos Apeninos, roubando livros fascistas de um armário como souvenir. Porém, sobre esses casos, há no máximo relatos de combatentes, o que leva a crer que uma ínfima minoria agiu dessa forma, até porque tinham medo de armadilhas deixadas pelos inimigos em objetos de valor. Da mesma forma não falamos dos objetos tomados de prisioneiros, de cadáveres e/ou trocados por comidas nas rendições.

[10]Para ficar por dentro do assunto e da atuação dos juízes e advogados brasileiros na FEB, bem como ler as ultrajantes práticas de crimes sexuais brasileiros na Itália, indicamos a Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília com o título de “A atuação da Justiça Expedicionária Brasileira no teatro de Guerra da Itália (1944-1945)”, do pesquisador William Pereira Laport, disponível em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/22624/1/2016_WilliamPereiraLaport.pdf. É um trabalho belíssimo e muito detalhado, que mostra que menos de 1% dos combatentes brasileiros esteve envolvido em crimes (ou pelo menos foi acusado de tal) na Campanha da Itália.

[11]SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um Soldado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

[12] Livro “A primeira vítima” (1978).

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