Nas escolas: saiba quando a FEB aparece em História e como você pode ajudar

Brasileiros escoltando prisioneiros alemães (Foto do Arquivo Nacional, tratada pela página)

Resumo: o artigo de opinião fala sobre os momentos em que a FEB pode aparecer na disciplina de História nas escolas, trazendo uma galeria de imagens no final, com o que os alunos aprendem em cada período. Também aponta alguns problemas que podem fazer com que a FEB não apareça a todo o momento e convida a família a participar da vida escolar.

Primeiro tópico

O aluno entra na aula, canta a Canção do Expedicionário, senta-se, abre o livro e o professor ou professora começa a falar sobre Camaiore, Monte Castello, Castelnuovo, Montese, Collecchio e Fornovo. Traz os principais líderes e técnicas. Na próxima aula, apresenta mapas, e nos dias seguintes vai contando histórias de Pracinhas. Poderia ser a aula idealizada sobre a FEB, mas, na prática, não é isso que acontece.

Isso porque há regras que podem fazer com que o tema seja inserido em momentos específicos, já que é um conteúdo importante, mas, não subjuga outros que são tão importantes quanto ele. Veja como é o processo nas escolas e como você pode melhorar o quadro.

Um “roteiro” a seguir

Não é todo mundo que sabe, mas, os professores das escolas públicas e privadas seguem uma espécie de “roteiro de sugestões”, que serve para direcionar o que os alunos aprenderão, de acordo com a faixa etária e a série que cursam. Isso vale para todas as disciplinas (aqui falamos de História). Os professores têm liberdade para trabalhar os temas (liberdade de cátedra) dentro dos pré-requisitos dos conteúdos. Eles não podem chegar e dar uma aula da “própria cabeça”, como aparece na “Escolinha do Professor Raimundo”.

Os pré-requisitos que devem ser trabalhados estão dentro da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), um documento que segundo o Ministério da Educação, do Governo Federal, vinha sendo debatido entre educadores e representantes da comunidade, desde 1988 e que foi homologado em 2018.

A FEB nos anos iniciais (1º ao 5º ano)

Nesta parte de começo da vida escolar, as BNCCs são bem amplas no ensino de História (veja a galeria no final), podendo o professor falar sobre a FEB em vários momentos, como por exemplo nos temas sobre família, memória, comunidade (bairro, escola, cidade, etc…). Não há menção direta à história da FEB ou da II Guerra Mundial, o que só ocorrerá no 9º ano. Porém, há espaço para tratar do tema de forma generalista, dentro das sugestões sobre noções pertencimento, por exemplo.

A FEB no Fundamental (6º ao 9º ano)

Dentro da lógica que cada aluno aprenderá de acordo com seu desenvolvimento e dentro de um padrão, na disciplina de História, o espaço para trabalhar a FEB, aparece com maior ênfase, no 9º ano do ensino fundamental, na unidade temática “Totalitarismos e conflitos mundiais”; objeto de conhecimento: “a emergência do fascismo e do nazismo; A Segunda Guerra Mundial e Judeus e outras vítimas do holocausto”.

O objetivo dessas aulas deve ser “descrever e contextualizar os processos da emergência do fascismo e do nazismo, a consolidação dos estados totalitários e as práticas de extermínio (como o holocausto)”. Isso não quer dizer que o professor trabalhará o tema somente nesses tópicos e sim, que ele deve dar maior enfoque quando chegar nesta parte das abordagens.

No entanto, a introdução das BNCCs alerta que “os agrupamentos propostos não devem ser tomados como modelo obrigatório para o desenho dos currículos. Essa forma de apresentação adotada na BNCC tem por objetivo assegurar a clareza, a precisão e a explicitação do que se espera que todos os alunos aprendam no Ensino Fundamental, fornecendo orientações para a elaboração de currículos em todo o País, adequados aos diferentes contextos”.

Ensino Médio: um campo aberto (do 1º ao 3º ano)

Já no Ensino Médio, que teve uma reforma sancionada em 2017, é o aluno quem escolhe, quando entra no 1º ano, quais as áreas que cursará com maior afinco: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas/Sociais ou Formação Técnica/Profissional. Matemática e Português são obrigatórias para todas as áreas.

Especificamente a disciplina de História, está na área de “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas”, junto com Filosofia, Geografia e Sociologia. “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas” é área flexível.

“Nessa organização curricular a disciplina de História (…) poderá ser ofertada no itinerário formativo ‘Ciências humanas e Sociais Aplicadas’, no entanto, sem caráter obrigatório, podendo ser ofertada ou não pelo sistema de ensino responsável pelo Ensino Médio, nas diversas cidades brasileiras”, escreveu Geyso Dongley Germinari, doutor em Educação e Professor Adjunto e pesquisador do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Estadual do Centro-Oeste, campus Irati/PR.

É aí que as coisas se tornam relativas. Isso porque, por ser flexível e não obrigatória, sem aquele “roteiro de sugestões” do Ensino Fundamental, cabe a cada escola montar a base do Ensino Médio, seguindo, aí sim, a lista de competências que se espera que os alunos de “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas” devam ter (ver na galeria no final do texto).

Nesse sentido, a competência n°6, abre espaço, novamente para o debate sobre II Guerra e consequentemente, FEB. Não que as outras competências não abram o mesmo espaço, é que a sexta é mais direta. Consta nela que o aluno deve “participar, pessoal e coletivamente, do debate público de forma consciente e qualificada, respeitando diferentes posições, com vistas a possibilitar escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade”.

Na BNCC, a sugestão do que deve ser tratado é a seguinte: “nesta competência específica, pretende-se tratar da linguagem política (aristocracia, democracia, república, autoritarismo, populismo, ditadura, liberalismo, marxismo, fascismo, stalinismo etc.), mostrando como os termos passaram por mudanças ao longo da história. Portanto, cada uma das palavras precisa ser explicada e interpretada em circunstâncias históricas específicas”. Dentro das diretrizes do Ensino Médio, é o único momento que os termos fascismo, marxismo e stalinismo aparecem de maneira literal.

Problema de desvios de função

Uma vez apresentadas as BNCCs, outro item precisa ser observado. É a formação dos professores, a parte que humaniza as orientações.

Neste ano, com dados do Censo Escolar 2019, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), foi constatado que 40% dos professores que atuam no ensino médio não têm formação adequada nas disciplinas que lecionam. “O quadro mais crítico é no Centro-Oeste, onde apenas 50,7% dos professores de ensino médio e 50,2% de ensino fundamental II têm a formação apropriada”, noticiou o site G1.

Dois fatores explicariam esses números elevados do parágrafo acima: número insuficiente de formandos em determinadas graduações e baixa atratividade da carreira docente (poucos querem ser professor[a]). “Por causa dos baixos salários e das condições ruins de trabalho, menos estudantes se interessam pela licenciatura. E, para quem escolhe a carreira de professor, a remuneração insatisfatória obriga que o indivíduo dê aula em mais de uma escola”, constata o texto. (Leia na íntegra aqui)

Em artigo da Revista Nova Escola, especializada em Educação, foi apontado que no Censo Escolar de 2016, em História, o índice de professores sem a formação na área se aproximava de 30%. (Leia aqui o artigo citado ).

Logo, como tratar questões históricas, entre elas a FEB, sem a qualificação necessária? É preciso investir em formação e formação continuada (aquela que prossegue após a formação acadêmica, com cursos e oficinas). Além disso, a profissão de professor precisa ser valorizada, para que bons alunos sintam o desejo de seguir a carreira.

Livros com pouca coisa

Nos livros, as editoras costumam colocar pouco conteúdo sobre a FEB e por conta disso, complicam ainda mais a questão para quem tem e para quem não tem formação na área. No momento da escolha do livro didático, que é feita baseada em resumos de catálogos enviados para as escolas:

“É tarefa de professores e equipe pedagógica analisar as resenhas contidas no guia [Guia do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)] para escolher adequadamente os livros a serem utilizados no triênio. O livro didático deve ser adequado ao projeto político-pedagógico da escola; ao aluno e professor; e à realidade sociocultural das instituições. Os professores podem selecionar os livros a serem utilizados em sala de aula somente pela internet, no portal do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A escola deve apresentar duas opções na escolha das obras para cada ano e disciplina. Caso não seja possível a compra da primeira opção, o FNDE envia à escola a segunda coleção escolhida. Portanto, a escolha da segunda opção deve ser tão criteriosa quanto a primeira. No volume “Apresentação do Guia”, encontram-se as orientações detalhadas referente à escolha das coleções”, aponta o MEC.

Escola sem estrutura

Depois das orientações e dos professores, o ambiente em que os alunos estarão deverá ser adequado também, e é aí que a situação complica. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, segundo a Organização Mundial de Saúde e a Unicef, se as aulas voltassem hoje de forma presencial, 39% das unidades de ensino não teriam sequer onde os alunos lavarem as mãos!

“Além disso, de acordo com o Censo Escolar 2018, 26% das escolas brasileiras não têm acesso a abastecimento público de água. Quase metade (49%) das escolas brasileiras não tem acesso à rede pública de esgoto”, atesta o site Trata Brasil, especializado em saneamento básico.

E a situação pode piorar. O Ministério da Educação planeja reduzir os gastos em educação para 2021, com um “um corte de R$ 4,2 bilhões no orçamento das despesas discricionárias (não obrigatórias) para 2021, redução de 18,2% em relação ao orçamento aprovado para 2020”.

“Em razão da crise econômica em consequência da pandemia do novo coronavírus, a Administração Pública terá que lidar com uma redução no orçamento para 2021, o que exigirá um esforço adicional na otimização dos recursos públicos e na priorização das despesas”, afirmou o MEC, em nota publicada no portal G1.

Caminhos: como você pode ajudar?

Para quem defende uma maior inserção da FEB no currículo escolar, o caminho pode estar em projetos de extensão, em que escola e comunidade se unem para exposições, palestras, aulas temáticas e outras práticas, que promovem uma troca de experiências e conhecimentos sobre um tema. Neste caso, é importante informar-se na unidade de ensino ou mesmo na Secretaria de Educação, como funciona para apresentar um projeto deste tipo.

Em épocas de campanhas político-eleitorais, em qualquer das esferas, é preciso cobrar compromisso com a educação, junto aos candidatos, para que eles invistam e não diminuam recursos. Depois de eleito, vale a cobrança em cima dos mesmos.

Além disso, é dever constitucional dos pais e responsáveis, da família em geral, acompanhar os estudos dos alunos sob sua responsabilidade. “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, assegura o artigo 205 da Carta Magna do Brasil.

Esse acompanhamento pode ser feito ajudando nas tarefas, corrigindo trabalhos, estudando junto, comparecendo às reuniões de pais e mestres, fazendo parte de Conselhos de educação e, no caso da FEB, falando do tema com as crianças e adolescentes, uma vez que, como foi visto, as escolas, se seguirem as BNCCs só tratarão o assunto de forma direta, do 9º ano em diante, quando o estudante já está com 14 anos de idade.

A família pode ajudar ainda com uma formação cultural complementar, que pode ir desde o incentivo de leituras, consumo de filmes e músicas, até visitas a museus e espaços históricos. Nesse sentido, a família agirá como parceira da escola e dos professores. Haverá uma união de forças.

Separamos abaixo uma galeria com as BNCCs, para que o leitor possa saber o que os alunos estudam em cada período. Para quem quiser ler na íntegra, o link é: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Veja também:

“Professores comunistas não ensinam sobre a FEB”: verdade ou mito?FEB: boatos sobre professores comunistas repercutem, mas não fazem sentido

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