RELATOS SECRETOS: Recepção americana “aborreceu” comando brasileiro

Tropa brasileira se preparando para o embarque

            O Comando Brasileiro na 2ª Guerra Mundial não gostou nem um pouco de como as primeiras tropas foram recepcionadas pelo Exército dos Estados Unidos. Após 14 dias de viagem a bordo de navio, os pracinhas desembarcaram em Porto de Nápoles, na Itália, no dia 16 de julho de 1944.

Para a surpresa geral, não havia sequer um local para eles dormirem. Para piorar a situação, eles foram colocados próximo a uma cratera de vulcão para pernoitarem, local em que o frio vigorava durante as noites. A afirmação é do General João Batista Mascarenhas de Moraes, Comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e consta em seus relatórios secretos sobre a participação brasileira na 2ª Guerra Mundial. Ele deixou escrito três volumes de relatórios, cada um com mais de 150 páginas, que se tornaram públicos apenas em 2018. 

“A falta de barracas ao chegar ao porto de Nápoles trouxe sérios aborrecimentos ao Comando Brasileiro que teve que se conformar em deixar sua tropa ao relento na primeira noite”, relata.

A bagagem das unidades foi limitada para evitar excesso e complicações ao problema dos transportes, ficando reduzido ao seguinte: malas, cofres metálicos, máquina de escrever, mesa de campanha, bancos de campanha, cantinas, Pavilhão nacional, instrumentos musicais e material sanitário. A bagagem chegou a passar por censura para impedir que muita coisa considerada inútil pudesse acompanhar a tropa.

Aguinaldo Senna Campos, que fazia parte da tropa, relata no livro “Páginas do meu diário” que foi realizada uma devassa nas bagagens das tropas brasileiras antes de partir rumo à Itália. Entre o material devolvido e que foi impedido de ser levado estavam medicamentos e justamente algumas barracas. A ausência das barracas, nas palavras de Senna Campos, constituiu motivos de sérios contratempos”.

 “A tropa partira sem barracas por imposição da Missão Americana. A surpresa foi geral quando não foram cedidas as barracas”, enfatiza o General Mascarenhas de Moraes em seus relatórios secretos. Assim, a área em que chegaram a Nápoles não estava preparada para receber a tropa.

Acampamento de Staffoli Itália. Foto de “Heróis do Brasil” de Giovanni Sulla e Ezio Trota, publicada na página do Facebook V de Vitória

Doentes

“Sob forte neblina e intenso frio”, muitos pracinhas adoeceram e foram acometidos por fortes gripes e resfriados. No dia 17 [07/1944], foi dado início a distribuição de barracas e mosquiteiros.

 “A noite terrivelmente fria foi mais uma rude para a nossa gente. No dia imediato, isto é, em fim da jornada de 17, já todo o acampamento estava montado e a vida tendia a normalizar”, revela Mascarenhas.

O Major Elber de Mello Enriques, na obra “A FEB – doze anos depois”, ressalta que “um grande número de homens se resfriou porque a passou, fria e úmida ao relento”. Ele reforça o que Mascarenhas constatou: “A Missão Americana no Rio de Janeiro aconselhou que não levássemos as barracas (já estavam no cais) porque no destino as encontraríamos. Mas não avisou ao Comando de Nápoles”. Ou seja, a falta de comunicação fez com que os primeiros pracinhas dormissem sem proteção alguma do frio e, consequentemente, adoecessem.

O Coronel Fernando Biosca, chefe da Intendência da FEB, no livro “A Intendência no teatro de operações da Itália”, escreveu: “A surpresa foi geral quando se soube não ter havido comunicação ao Comando de Teatro (em Nápoles) por parte da Missão Americana do Rio”,

Alimentos

Mas outro problema perdurou por mais dias. A falta de cozinha e de fogão. Os pracinhas foram obrigados a se alimentar com a ração tipo C dos americanos. Esse tipo de ração era formada por seis enlatados. Eram seis latas douradas que pesavam 340 gramas e que totalizavam 3.800 kcal. Continham: pacote de biscoitos, torrões de açúcar, latas de presentado, processado de frango ou peru, barra de frutas, caramelos, barra de chocolate concentrado, pó de café, limonada ou laranjada, goma de mascar, quatro maços de cigarro, papel higiênico, colher de pau e fósforos.

Essa situação durou quatro dias, segundo escreve o General. A partir do dia 20 começou a se normalizar, “revelando uma magnífica capacidade de adaptação e de assimilação” dos pracinhas, conforme constata Mascarenhas.

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