II GM: Grupo de Pracinhas fazia guerra, samba e sucesso na Itália

Por Helton Costa, com fontes da BBC e arquivos das famílias

O ano era 1966. Fazia 21 anos que a II Guerra Mundial tinha acabado, mas, um grupo de amigos, compartilhava uma lembrança em comum dos dias na Itália. Eles haviam servido juntos na 3ª Companhia, do I Batalhão, do 1° Regimento de Infantaria e entre uma pausa e outra na linha de frente, compunham e executavam músicas sobre a Força Expedicionária Brasileira.

Primeiro tocaram algumas delas em uma edição especial para o correspondente da BBC junto à FEB, Francis Hallawell, o Chico da BBC, ainda durante o conflito e 21 anos depois, estavam juntos novamente, agora para transformar suas composições em um LP, pela gravadora Chantecler.

O disco foi gravado e por alguns meses as músicas tocaram nas rádios do país, lhes garantindo algum reconhecimento público, e servindo para fazer ressurgir a memória do conflito em quem dele tinha participado. Trazia sambas, marchas e emboladas, segundo trabalho de conclusão de Ester Gonçalves da Silva, produzido em 2016, na Universidade Estadual de Londrina/PR.

Foram 12 músicas. “Quatro delas são de autoria do Cabo Seraphim José de Oliveira; quatro do soldado Pieri Junior; duas de Guttemberg e duas de Natalino Cândido. Destes, apenas Seraphim José de Oliveira e Pieri Júnior participaram da nova gravação em 1965 para compor ‘Expedicionários em ritmos’”, escreveu Ester.

Na época da FEB

Na época da FEB, quem participou do encontro musical que mais tarde deu origem ao LP, foram o Cabo Seraphim José de Oliveira, o 2º Sargento Roldão Alves Guttemberg e os soldados Pieri Júnior e Natalino Cândido da Silva. Conforme descrição do LP, eles se reuniam “nos seus abrigos, em pleno combate, aproveitando as motivações que lhes iam surgindo”.

Com as composições prontas, juntavam os músicos ao grupo. “O Cabo Oliveira e os bravos rapazes do conjunto, ou seja, Sargento Ary de Vasconcelos, Cabo Arodi Lourenço da Silva, 3º Sargento Quidaldo de Azevedo Lemos, Cabo Walter Gomes, Cabo José Augusto Nogueira, Cabo Newton Ventrick Fraga, Cabo Nelson Barros, soldados Pieri Júnior e Raimundo Oliveira da Silva, que nos raros momentos de trégua, reuniam-se e cantavam suas músicas, improvisando com as armas de guerra seus instrumentos musicais”, atesta outra parte do texto impresso na capa do LP.

Oliveira era o líder do grupo e quem puxava o ânimo da rapaziada. Inclusive, foi promovido à sargento por merecimento em combate. Propaganda ou história real, conta no LP, que após a queda de Monte Castello, foram os “soldados cantores” do grupo que alegraram os homens cansados de tão forte conflito, tendo sido aplaudidos por muitos minutos.

Depois da guerra, em Francolise, à espera de embarque para o Brasil, o comandante do 1° Regimento, Aguinaldo Caiado de Castro pediu um show para a tropa e foi aí que Chico da BBC entrou para gravar e transmitir aquela obra de arte popular.

Uma das imagens que ilustrava a capa do LP. Ao fundo, o Monumento Nacional aos Mortos da II Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.

21 anos depois

Oliveira, que embarcou para a guerra como Cabo e voltou sargento, em 1965 já era Major reformado. O Governo Federal, chefiado por Humberto Castelo Branco, que tinha sido do Estado-Maior da FEB, teve a ideia de homenagear os 20 anos da FEB e chamou Oliveira para reunir os colegas.

Capa do LP.

“(…) O conjunto foi convidado pelo jovem João Roberto Kelly a comparecerem em seu programa de TV, o que aconteceu em 2/7/65 e logo, a Chantecler interessou-se, não só pelo valor artístico, mas também pela história vibrante do punhado de heróis anônimos que mantiveram um atrativo permanente, sustentando o alento de nossos homens durante a guerra. O interesse da Chantecler perpetuou em disco as músicas compostas e cantadas em plena Guerra”, explica outra parte do texto do LP.

As gravações foram em 1965, porém, o trabalho foi disponibilizado para o público em 1966. Na época, faziam parte do grupo Seraphim José de Oliveira – Crooner e violinista; Raimundo Oliveira da Silva – Violinista; Arodi Lourenço da Silva – Violinista tenor; Pieri Júnior- Tan tan; Nelson Barros – Pandeiro; Newton Ventrick Braga – Cabaça; José Augusto Nogueira – Réco-réco e Ary de Carvalho Vasconcelos – Ganzás.

As fotos da galeria acima são de uma apresentação do conjunto, no final dos anos 60 e foram enviadas para Alessandra Oliveira, filha de Seraphim, pela página “Imortais Combatentes da FEB”. O mais alto e mais magro do grupo, é o Sargento Ary Vasconcellos. Sempre próximo do microfone, com violão, é o Seraphim Oliveira. O segundo da esquerda para a direita, é Antônio Pieri Júnior.Os outros, não conseguimos identificar.

O que faziam os soldados em 66?

“Hoje o cabo Oliveira é major reformado; o soldado Raimundo é funcionário público, o cabo Arodi é motorista de táxi, o soldado Pieri Júnior é funcionário público aposentado, o cabo Newton Ventrick Braga foi reformado do Exército por ferimentos, o cabo José Augusto Nogueira é comerciário aposentado, o sargento Ary de Carvalho Vasconcelos é comerciário, o sargento Roldão Gutemberg é tenente reformado, e o soldado Natalino espera reforma do Exército”, observou Ester, em referência que encontrou sobre o grupo no pós-guerra.

Na galeria acima, parte dos componentes do grupo original. No vocal, perto do microfone, Seraphim Oliveira. O mais alto e mais magro, Ary Vasconcellos. Acervo de Ary Vansconcellos/Museu do Som, disponibilizadas por Daniel Dinnucci, com autorização da família.

Natalino, o compositor

Em 2015, a BBC Brasil entrevistou familiares de Natalino Cândido da Silva, compositor de “A Lurdinha está cantando”, “Pro brasileiro, alemão é sopa” e “Onde eu vi muito tedesco”. Os filhos dele contaram que depois da guerra Natalino voltou para o antigo emprego de metalúrgico e depois prestou concurso e se tornou funcionário do Estado.

Natalino com a família, anos depois da guerra. Foto da BBC Brasil.

Porém, as lembranças da guerra não tinham desaparecido. “Bastava ouvir um barulho para ficar nervoso. Às vezes, até um pouco agressivo”, recordou na época, Claudete, uma das filhas dele.

O médico que o acompanhava sugeriu ele sair do Rio de Janeiro e mudar para uma região mais calma. Foi assim que foi morar em Petrópolis. A pensão como terceiro-sargento e depois como tenente, só veio, segundo a família, nos anos 80. Participava de palestras em escolas e da Associação de Ex-combatentes. Ele faleceu em julho de 2017.

Oliveira, o líder

Seraphim, em primeiro plano na esquerda; outro componente atrás dele, Antônio Pieri Júnior, Ary Vasconcellos e aqui na extrema direita, Arodi Lourenço da Silva. Foto tirada em 21/11/1970. Pertence ao Arquivo Nacional e foi encontrada por nós aqui do site. Notem que eles usam abrigos do Regimento Sampaio.

Já Seraphim José de Oliveira continuou no quartel até se aposentar. Foi casado três vezes e teve cinco filhos, três deles depois dos 60 anos de idade. Alessandra Oliveira é filha dele, do terceiro casamento e conta que a família foi morar no interior, em um sítio bem afastado, onde ele viveu os últimos dias de vida, até falecer em 1988, de câncer no pâncreas. “Ele fazia de tudo. Só tenho coisas boas. Era um ótimo pai e cuidava da gente”, conta ela.

Ary de Carvalho, o sargento

Outro integrante do grupo, o 3° Sargento Ary Vasconcellos, morreu em agosto de 2020. Daniel Dinucci, que estuda a FEB, acompanhou o veterano nos últimos meses de vida e resgatou fotos do acervo do Pracinha junto à família. Parte delas estão publicadas nesta reportagem. Depois da guerra, Ary foi funcionário público em Niterói/RJ.

Daniel conta que o amigo Pracinha, Ary, era muito ativo na Associação de São Gonçalo/RJ, tendo sido vice-presidente da Associação do Ex-combatentes do Brasil, na seção local. Além disso, segundo o pesquisador, Ary foi um exemplo de líder, tendo se correspondido com as famílias de todos os homens sob seu comando, para tranqüilizar o pessoal no Brasil. “O Ary enviou cartas para todos os pais de seus comandados no grupo de combate”, contou Daniel. E quando os músicos se reuniam, era a casa do sargento que servia de ponto de encontro da turma.

As músicas, segundo o LP (descrição conforme o LP)

ACELERADO (de Seraphim José de Oliveira) – Depois do bom-dia do Cel. Do Regimento, a tropa desfilava em acelerado para os Alojamentos dos Cios, onde lhe era servido um suculento mingau.

TEDESCO EU QUERO VER (Seraphim José de Oliveira) – Assim que os pracinhas pisaram em Território Italiano, desafiaram o inimigo para a luta – o TEDESCO – título que davam aos Alemãos.


NO BRASIL TEM (Seraphim José de Oliveira) -Retrato de Uma Alma nostálgica do soldado que recorda tudo, cantando, para que a lágrima não lhe chegue aos olhos.

CAPITÃO IEDO COMANDOU (Seraphim José de Oliveira) – O cume do Monte Castelo foi tomado a baioneta34 pela 3ª Companhia, comandada pelo Capitão Iedo do Regimento Sampaio.

TEDESCO LEVANTE OS BRAÇOS (Pieri Junior) – O espírito humano dos pracinhas para matar os inimigos, pediam que levantassem os braços, pois, a vitória estava agarantida.

HERÓIS DA RETAGUARDA. (Pieri Junior) -Os da linha de frente pilheriam os da retaguarda que não
sentem de perto o metralhar da Lourdinha.

SORRINDO E CANTANDO (Pieri Junior) – O pracinha anima os seus companheiros para o avanço.

MINHA HOMENGAEM (Pieri Junior) – O soldado Pieri Junior descreveu em versos, os feitos gloriosos do Regimento Sampaio.

PRESENTE (Guttemberg) – Era Natal, o mês dos presentes. Por isso, Guttemberg intitulou o seu primeiro Samba composto na Itália. – Presente.

PARABÉNS À FEB (Guttemberg) -Êsse samba foi a expansão da alma brasileira, ansiosa de regressar à Pátria para dizer a todos que a FEB comportou-se à altura e o Brasil está de parabéns, pois, seus filhos cumpriram o seu dever.

ONDE EU VI MUITO TEDESCO (Natalino Cândido) – Depois da grande vitória todos cantaram a embolada em comemoração ao glorioso feito.

A LOURDINHA ESTÁ CANTANDO (Natalino Cândido) – A infernal metralhadora Alemã que o pracinha comparou à uma certa noiva tagarela do Brasil.

Ouça o álbum

Se você ficou com curiosidade sobre o LP, há uma versão on-line dele. Confira:

Agradecimentos
Daniel Dinucci, pela ajuda com as imagens.

Alessandra Oliveira por compartilhar o arquivo pessoal.

Para a família de Ary Vansconcellos por autorizar o uso do arquivo.

Museu da Imagem e do Som da Associação Nacional dos Veteranos da FEB – Direção Central.

Se Copiar o conteúdo, pedimos que seja honesto, ético e dê os créditos. Obrigado.

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