FEB: quarto ataque ao Monte Castello quase fez Mascarenhas “pedir as contas”

O calendário marcava 12 de dezembro de 1944. Manhã fria, com garoa, neblina, cheia de lama e com visibilidade inferior a 50 metros. Oficiais e alguns soldados estavam bastante irritados, pois aquele era mais um dia de ataque ao Monte Castello, o quarto em menos de 20 dias e eles haviam acabado perder o fator surpresa, pois, baterias de artilharia americana tinham atirado sobre a elevação, deixando o inimigo sob alerta.

A aviação prevista para cooperar, em consequência do mau tempo e da falta de visibilidade, não levantou voo. Isso prejudicou toda montagem e estratégia baseada nas informações que viria das tropas áreas.

Monte Castello, nos dias atuais, visto das proximidades de Casa Guanella (Foto: Helton Costa)

O relógio marcava 6 horas. O III Batalhão do 1º Regimento saiu da base de partida, atingindo às 6h30 a linha Le Roncole/Casa Guanella, a menos de 1 km de Monte Castello. Os alemães que já estavam espertos. Quando perceberam os Pracinhas se movimentando, atiraram com suas metralhadoras e morteiros.

Duas horas depois, partiu atrasado o II Batalhão do 1º Regimento, chegando na base de partida às 8 horas. Também levaram fogo dos alemães, que agora já tinham a perfeita noção de onde estavam saindo os soldados brasileiros. Eles, afinal, tinham conseguido ler as direções em que viriam os atacantes. Atiraram nos brasileiros do II Batalhão quando chegaram na linha Casa Guanella/Lá Cá/Case Vitellina.

O I Batalhão do 11º Regimento ocupou Falfare, no flanco direito, para aguardar como tropa de reserva. Também foram hostilizados.

Nessa hora o comando do grupamento brasileiro já tinha entendido que estava dando tudo errado e que precisaria fazer algo. Foi aí que teve a ideia de acionar o III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, que também era para ser a reserva do ataque. “Por má compreensão da ordem, este Batalhão que se achava bem articulado, sobretudo para ação de Casa Guanella rumo à cota 887, ao invés de, em aproximação, colar-se à base de partida prefixada e reforçar o escalão de ataque na zona de esforço, marchou em coluna, através de itinerários desviados, o que motivou quadruplicar as distâncias, mudando completamente de terreno, perdendo tempo útil para o emprego razoável”, argumentou o general Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, no Relatório Secreto do combate, que contém três volumes e tornou-se público em 2018.

Ao mesmo tempo

Nisso, o III Batalhão do 1° Regimento, conseguiu superar a barragem de fogos e alguns soldados tentaram escalar o Monte Castello. É certo que alguns deles chegaram ao topo, porém, foram abatidos pelos defensores alemães. Os corpos desses homens permaneceram sem enterro, congelados, até 21/02/1945, quando os brasileiros expulsaram dali as tropas nazistas.

Recuo

No entanto, às 14h30, levando fogo de frente e pelos lados, de Mazzacana e Fornaci, o III Batalhão do 1º Regimento recuou. Depois, foi a vez do II Batalhão e do III Batalhão do 11º Regimento. Às 15h todo mundo estava voltando para a linha de partida, e mais um ataque tinha fracassado, desta vez, sem interferência americana e sob a responsabilidade direta de Mascarenhas de Moraes. Foram 140 baixas brasileiras, entre mortos e feridos. Do lado alemão, segundo eles, oito mortos e oito feridos.

A Artilharia brasileira, que tentou fazer alguma coisa para ajudar, já durante o combate, gastou somente quatro mil dos 12 mil tiros que deveriam ter sido usados. Isso porque, havia o risco de acertar os Pracinhas, já que não era possível enxergar quase nada.

Uma reunião tensa

Crittenberger e Mascarenhas de Moraes (na esquerda), com outros soldados atrás (Foto: FGV)

Na noite de 12/12/1944, logo após o combate, o comandante brasileiro, General Mascarenhas, acompanhado os Generais Zenóbio da Costa e Cordeiro de Farias, comandantes da infantaria e da artilharia, respectivamente, compareceu ao Posto de Comando do IV Corpo para ouvir as broncas do comandante daquela unidade, general Wills D. Crittenberger.

Zenóbio e Cordeiro foram levados juntos pela primeira vez, para terem a noção de como funcionava a relação entre os americanos e brasileiros, já que “desconheciam, em parte, as incompreensões e exigências do comando americano em relação à nossa tropa, empregada sempre de um modo desastrado e sem nenhum respeito às regras táticas psicológicas”, escreveu Mascarenhas de Moraes.

Crittenberger foi duro e direto, perguntando se os brasileiros tinham capacidade ofensiva, o que era o mesmo que perguntar se os brasileiros ainda davam conta do recado.

Antes que Mascarenhas respondesse, Zenóbio e Cordeiro pediram a palavra. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da Divisão brasileira, mas os generais Zenóbio e Cordeiro, numa intervenção feliz ponderaram que a resposta só poderia ser dada por escrito pelo Comandante brasileiro. Na resposta desse ofício, o [general] divisionário brasileiro fez considerações sobre o que se entende por capacidade ofensiva diante dos meios, na situação e da missão, terminando por dizer que a Divisão brasileira só poderia ter capacidade ofensiva, com redução de seu setor e com a concessão de um prazo de 10 dias para o reajustamento de suas unidades, cujos claros já subiam à mil”, conta Mascarenhas de Moraes.

Quase “pediu as contas”

Mascarenhas e Crittenberger (Foto: World War II Museum)

Mascarenhas saiu da reunião bastante nervoso e desapontado. Estava disposto a abandonar o comando da FEB. A ideia era ele ir ao Rio de Janeiro, entregar uma carta de demissão para o ministro da Guerra, Eurico Dutra, e não regressar mais ao front. Quem o dissuadiu de tal propósito, foi o general Cordeiro de Farias. “O senhor não pode abandonar-nos, entregando-nos à outro comando. Trouxe-nos para a guerra: juntos e vitoriosos deveremos a regressar. Capaz e respeitado por seus comandados, alcançará sem dúvida o êxito pelo qual tanto anseia. Não renuncie, não deserte da missão que lhe foi dada. Este é o apelo que lhe faço”, disse Cordeiro.

Sem mais nenhuma palavra, porém, emocionados, os dois se abraçaram em silêncio. Depois disso, Mascarenhas fez os americanos entenderem de uma vez por todas que essas missões que estavam sendo dadas para a FEB, eram impossíveis para serem cumpridas por uma só divisão. Na opinião dele, os erros vinham acontecendo porque a frente era extensivamente larga e o terreno montanhoso, “exigindo tropa mais numerosa e mais adestrada”. “Afinal do comando de Washington acabou reconhecendo a impossibilidade de cumprir o slogan ‘Bolonha antes do Natal’”, explicou Moraes.

Politicamente ele também tomou atitudes e ao mesmo tempo em que enviou resposta para Crittenberger, escreveu para o superior do americano, o já conhecido dos brasileiros, general Mark Clark, que comandava o V Exército. Além de justificativas e do desagrado pela forma como tinha sido tratado e como vinham sendo empregadas as tropas brasileiras, Mascarenhas lembrou Clark que a FEB era também um elo político entre os dois países e que, por isso, carecia de maior respeito.

Nem tudo era culpa de Crittenberger

No Relatório Secreto de Mascarenhas, ele deixa mais claro que Monte Castello não foi ideia de Crittenberger, que tendia a atacar sobre o Monte Belvedere ou sobre o Monte Gorgolesco. Porém, argumentou que a FEB não tinha gente e nem meios para cumprir tais missões, e que, por isso, escolhera Monte Castello como objetivo. Com isso, Mascarenhas chama a culpa para si e não põe na conta do general aliado, de quem continuaria próximo e que, após Montese e na rendição dos alemães, não pouparia elogios aos brasileiros, com palavras bem mais amáveis do que as que disse em 12/12/1944.

Foi mais pesado

Mascarenhas e Crittenberger (Foto: World War II Museum)

O chefe do estado Maior da FEB, coronel Floriano de Lima Brayner, estava na reunião com Crittenberger e entendia inglês. O acompanhava o comandante do setor de Operações, Tenente Coronel Humberto Castello Branco. Transcrevemos abaixo o que ele anotou:

“Crittenberger não escondia seu estado de irritação, embora controlado. Perdera aquele ar blaguer que o caracterizava. Mascarenhas, mais sereno, principalmente pelo testemunho dos dois auxiliares ali presentes, suportou bem o embate, conservando-se a altura do seu interlocutor.

O Major [Vernon] Walters sentiu o peso de sua responsabilidade como intérprete. Usou todos os recursos de sua sagacidade e inteligência para desbastar a aspereza eventual da linguagem. Conhecia bem os dois chefes. Não podia, entretanto, exagerar a deformação da linguagem, pois, o chefe do estado-maior divisionário conhecia o idioma inglês:

– Eu vim aqui, para dizer-lhe que empreguei a tropa brasileira porque não tinha tropa americana ao meu alcance – disse Crittenberger.

Mascarenhas replicou:

– Diga ao general Crittenberger que, quando empregou o tropa brasileira em condições normais, ela soube sempre corresponder à confiança dos seus chefes.

– Nem sempre foi assim. No último ataque, na zona de Monte Castelo, uma companhia brasileira, empregada no eixo de Abetaia, correu diante de um simples tanque inimigo – insistiu o americano.

Era uma referência direta ao ataque dos dias 24 e 25, em que a tropa brasileira foi desastrosamente empregada, sob o comando de um coronel americano, que não demonstrou capacidade. O General Mascarenhas não gostou e reagiu:

– Diga o general que ele não está bem informado. De fato a companhia do III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria, que atacava no eixo de Abetaia, deveria ser levada ao objetivo na esteira de uma sessão de tanques americanos. Entretanto, um desses tanques pousou em cima de uma mina alemã que, ao explodir, destruiu as lagartas do engenho americano. Este ficou imobilizado no terreno. Os outros tanques não quiseram prosseguir no acompanhamento da tropa brasileira, já agora se defrontando com uma seção de tanques alemães dotados de canhões de 88mm, que martelava intencionalmente as nossas formações e os próprios tanques americanos, provocando inúmeras baixas do nosso lado. Nenhuma Infantaria desacompanhada poderia prosseguir naquelas condições. Retirou-se em perfeita ordem, para suas posições iniciais – respondeu Mascarenhas.

A serenidade com que o General Mascarenhas descreveu o lance impugnado por Crittenberger, interrompeu a agressividade do chefe americano, que arrematou:

– Eu vou usar uma expressão da gíria esportiva dos Estados Unidos: neste momento, eu lhe passo a bola!

Com isso ele queria dizer que toda a tropa brasileira que desviara do comando normal, para ficar diretamente com o IV Corpo, voltava imediatamente o comando brasileiro. Mascarenhas não se furtou à resposta:

– Diga o general que também temos, na gíria esportiva do Brasil, uma expressão correspondente: eu recebo a bola, mas em muito más condições.

Queria Mascarenhas se referir ao estado deplorável em que se encontrava o III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria, que fora empregado pela Task Force 45 em estado de exaustão. E depois dos esforços infrutíferos das jornadas de 24 e 25, voltava o comando brasileiro, moral é materialmente desfeito, apesar de ter um excelente enquadramento.

Levantou-se General comandante do IV Corpo para regressar ao seu quartel em Taviano. Saiu com a mesma secura de trato com que entrou, não perdendo a oportunidade de dizer ao comandante da FEB que lhe fizera sentir, no ofício aqui transcrito, o peso de suas responsabilidades face o governo brasileiro:

– Nada tenho a ver com a parte diplomática ou responsabilidades do governo. Estou aqui para empregar homens em combate, desde que estes estejam sob meu comando.

E retirando-se o chefe americano para o seu posto de comando, estava praticamente encerrado o incidente e solucionada a questão da disseminação da tropa brasileira, desviada do seu comando normal”.

Referências

MORAES, João Baptista Mascarenhas de. Memórias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1984, 2 vols.

BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB (memórias de um chefe de Estado-Maior na Itália). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968

FARIAS, Osvaldo Cordeiro de. Meio século de combate. Diálogo com Cordeiro de Farias, Aspásia Camargo, Walder de Goes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

Revista do Exército Brasileiro. Número comemorativo do centenário do Mal. Mascarenhas de Moraes.Vol. 120, No. 4, p. 242-243, out-dez 1983.

DONATO, Hernani. Dicionário das Batalhas Brasileiras. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001

MINISTÉRIO DA GUERRA – FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA: RELATÓRIO SECRETO VOLUMES I, II E III – 1943 – 1945

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