Ano novo dos Pracinhas foi deprimente e torturante

Posição de morteiro no inverno de 1944-45. (Foto: Horácio Coelho/Arquivo Nacional)

A ideia de chegar a Bolonha antes do Natal de 1944 já havia sido abandonada na primeira quinzena de dezembro pelos Exércitos Aliados. Os brasileiros já estavam instalados nas linhas defensivas, que iam de Torre de Nerone até os pés de Monte Belverede, incluindo Casa Guanella (Monte Castello), e realizavam rondas quase todos os dias. A neve cobria tudo de um branco sem fim, o que para a maioria deles era novidade.

Em 25 de dezembro, os alemães haviam desencadeado uma grande ofensiva para tentar retomar Barga, o antigo setor dos brasileiros na primeira parte da campanha e por muito pouco não conseguiram. A disputa fez parte da ofensiva de inverno ordenada por Hitler e vinha acontecendo desde 16 de dezembro de 1944.

O Natal dos brasileiros já tinha sido doloroso, longe de casa, da família e perto da morte, com os bombardeios e as arriscadas patrulhas. Agora chegava o Ano Novo e mais uma vez os Pracinhas estavam com os pensamentos longe daquele inferno em que se encontravam. As histórias que seguem são alguns pensamentos naquele 31 de dezembro de 1944 e do amanhecer do primeiro dia de 1945.

Bebendo para esquecer

“A 31, véspera do ano-novo e também domingo, trabalhei o dia todo. À noite fui à casa do Virgílio, onde a meia-noite fizemos uma ceia, juntamente com alguns amigos. Tomei muita bebida e fiquei tonto. Me veio saudades de tudo que me é caro! Dizem que fiquei bravo e queria brigar e também dizem que eu me queixava de estar longe da minha família. Comi carneiro e peru assado na ceia. A gente da casa era muito camarada. O velho é muito bom e tinha duas filhas também excelentes moças. Namorei uma durante um tempo que lá fiquei. Chama-se Elda. À meia-noite desse dia foi um inferno de fogo de ambos os lados. Dizem que, conforme a lei da guerra, atiram para cima. Eu por minha vez também dei quatro tirinhos com meu fuzil. E assim venceu mais um ano”. (Aziz Salamene, 2º Sargento do 9º Batalhão de Engenharia).

Beber era uma saída, mas, não a melhor delas. (Foto: Arturb Blogspot)

Já o correspondente Joel Silveira estava em Roma. Por lá, a notícia que circulava era o ataque alemão à Barga. Joel estava tranquilo, pois sabia que os ianques tinham empurrado os alemães de volta para suas bases de partida e que estavam segurando a barra. Eram soldados da 92ª Divisão de Infantaria, tropa formada por soldados negros americanos e comandados por oficiais brancos.

Depois, Joel foi para o hotel De La Vile, onde todos os correspondentes daquele front se encontravam abrigados. À meia-noite ele já estava muito bêbado e não aguentava levantar da cadeira em que estava sentado. Porém, uma correspondente sul-africana, que ele chamava de “Norinha”, passou por ele meio que o despertando. Ela tocou nele e apenas disse: ‘Feliz Ano Novo para os brasileiros’. “Foi um pequeno instante de felicidade que fico devendo à África do Sul”, disse Joel, demonstrando que estava bastante deprimido naquela data.

Tristeza no front

Massaki Udihara, tenente do 6° Regimento de Infantaria, também demonstrava sinais de psicológico abalado, ainda mais porque tinha ficado sabendo que três conhecidos dele tinham morrido recentemente.

Massaki Udihara (Foto: livro “Um médico brasileiro no front”)

“Tarde triste, tão cheia de maus acontecimentos, dando ao espírito uma sensação de inutilidade, e levando quase ao desespero, pela impossibilidade de não se poder fazer qualquer coisa. (…) Um ano mais que se finda, e como bissexto, não desmentiu o nome. Confirmou todos os presságios com os que o atribuem. O mundo continuado nessa mesma luta tão encarniçadamente como no começo. E o último dia parece que só veio para tornar mais nítida a impressão deste mundo, deixando na lembrança uma recordação que permanecerá pela série de acontecimentos que o acompanharam. Começou logo nas suas primeiras horas e foi até o cair da noite. Ainda há muito tempo para acontecer muito. Um total de três mortos e sete feridos num curto intervalo. E se tudo continuar nesse pé, logo mais não teremos mais ninguém. Do modo que tudo está decorrendo, é de ser perder todas as esperanças. Mais que fatalista, conformado com a sorte que pode ser uma só. É o estado de ânimo que me tem minado nos últimos tempos. Se há períodos de esperança, são bem curtos em relação àquele de desespero, em que nada se espera. E este ano que se vai, será sempre recordado, por tudo que nele se passou e [que eu] passei”.

Festa no front

Antorildo Silveira, observador avançado da Cia de Obuses do 6º Regimento de Infantaria organizou uma festa junto com os partigiani e convidou todas as moças da região de Marano. Algumas delas foram acompanhadas de pais, parentes e namorados/noivos/maridos. No entanto, por volta das 22h, os civis homens foram retirados e deixadas apenas as moças que quisessem ficar.

Logo em seguida, o vinho tinto foi distribuído em grande quantidade. No entanto, os alemães já tinham manjado aquela posição e mesmo sabendo que não poderiam acertá-la com precisão, podiam, ao menos, arruinar a festa e torcer para que estilhaços fizessem vítimas. Por isso, começaram a atirar perto da casa, de modo que a residência tremia. Foi uma grande confusão, porque a porta estava trancada para que os civis homens não voltassem e por isso, quem estava dentro não podia sair. Por sorte, após alguns minutos de pânico, ninguém ficou ferido. Depois disso, a festa continuou até às 3h da madrugada, quando o baile terminou por falta de iluminação. Os partigiani levaram as moças para casa e os brasileiros voltaram para suas posições.

Indiferença no front

O capitão Newton Correia de Andrade Melo, do II Grupo do 1° Regimento de Obuses Auto-rebocados, conta que para o pessoal dele, foi mais um dia de trabalho. “Esperamos romper do ano. À meia-noite cumprimentamos uns aos outros, conforme a velha tradição. Nos telefones se trocavam os votos de feliz ano novo. Entrementes, nossos canhões ribombavam, as metralhadoras gargalhavam sua risada histérica, atirando projéteis traçantes e os alemães respondiam uma polêmica sacrílega de balas”, marcou no diário dele.

Esperança e fé

O 3º sargento Ferdinando Piske, do 6º Regimento de Infantaria, fazia ronda das posições confiadas para ele e seus homens. De madrugada, no silêncio que reinava no setor dele, teve tempo para pensar na vida, nos parentes que estavam longe e principalmente na mulher amada.

Ferdinando Piske (Foto: Museu da Paz/AAMPAZ)

“Sentei-me à beira de um abrigo individual, num canto de uma das casas de Varaiana. Um soldado soluçava no outro abrigo, procurando disfarçar a emoção daquele momento de profunda tristeza para todos nós. E uma prece ardente brotou do mais íntimo do meu ser. Foi mais ou menos isso que eu disse a Deus: ‘Senhor! Eis que um novo ano se inicia na Terra. É um momento de profunda reflexão, este que vivemos, e é nessa hora que erguemos nossos pensamentos ao alto para implorar a Vossa infinita misericórdia. Dignai-vos, Senhor, lançar um olhar de compaixão sobre vossos filhos exilados neste mundo infeliz. Que o sublime exemplo de Jesus inspire os homens nesta hora tão solene, para que o entendimento fraterno volte a ditar seus atos, e essa tremenda hecatombe, que ensanguenta o planeta, encontre um fim, o mais rapidamente possível. Olhai, também nossos entes queridos, lá longe na Pátria distante, e fazei com que se tranquilizem e sintam que estamos todos bem. Protegei-nos, senhor, para que todos em breve possamos regressar aos nossos lares’. Lágrimas corriam pelas minhas faces. Não me importei… Depois senti um enorme alívio”.

Todos os personagens deste texto voltaram vivos para suas famílias, apesar de todos os sofrimentos que estiveram sujeitos.

Referências

GRECO, Maria Madalena Dib Mereb. Febianos: histórias e recomeços. 1. ed. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2015. 82 p. v. 1.

SILVEIRA, Joel. Histórias de Pracinha; Oito Meses Com a Força Expedicionária Brasileira. Rio de Janeiro: Cia. Editora Leitura, 1945.

SILVEIRA, Antorildo. O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionária (Fatos da campanha do 6º. R.I. no território da Itália. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar, 1946.

MELLO, Newton Corrêa de. Meu diário de guerra na Itália. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947.

UDIHARA, Massaki. Um médico brasileiro no front. Diário de Massaki Udihara na II Guerra Mundial. São Paulo: Hacker Editores; Narrativa Um; Imprensa Oficial do Estado; Museu Histórico de Imigração japonesa no Brasil, 2002

PISKE, Ferdinando. Anotações do Front Italiano. Florianópolis: FCC, 1984.

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