Ator da dupla “o Gordo e o Magro” nunca lutou ao lado dos brasileiros da FEB

Não é de hoje que circula uma história bem comum na Internet, que dá conta de que o Magro (Stan Laurel), da dupla “o Gordo e o Magro” (Laurel & Hardy, no nome original), teria servido na “fábrica de fumaça”, no setor de guerra química inglês, no front próximo da FEB, na Itália. Oficiais brasileiros chegaram registrar a lenda em memórias deles. Investigando a história, descobrimos que é mais dos vários mitos que vão surgindo sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

O primeiro fato que desconstrói a narrativa, é que Stan Laurel tinha 54 anos na época da Segunda Guerra Mundial e não tinha idade para o serviço ativo, tendo em vista que nunca serviu as forças armadas e não era reservista.

Outro fato é que em 1942, ele e o companheiro de comédia, Oliver Hardy, vinham percorrendo várias frentes inglesas de batalha, levando esquetes para os homens que estavam de folga na retaguarda. Há fotos deles, por exemplo, entretendo tropas de prontidão nas Guianas Britânicas.

A dupla se apresentando nas Guianas Britânicas em 17/02/1942. (Foto da Fineart America)
Os atores participando da Caravana da Vitória, em 1942 (Foto: The Big Noise)

Fora isso, os dois continuaram gravando e lançando filmes, dentro da ideia de esforço de guerra, de levar alegria aos homens nos momentos de lazer. Há uma lista de filmes do período da guerra (1939-1945). Após 1942, os dois continuaram gravando seus filmes e não foram para o front.

Relação levantada pela  Internet Movie Database (IMDB), da Amazon

Confirmação

Laurel and Hardy Magazine. Foto da página da Revista no Facebook.

Nos Estados Unidos, existe a publicação trimestral “Laurel and Hardy Magazine”, que circula há anos. Trata-se de uma referência sobre a vida dos intérpretes de “o Gordo e o Magro”. A revista é comandada pelo jornalista Robert Lewis (que há 44 anos, estuda e publica sobre a dupla). Em contato com Robert, ele disse nunca ter ouvido falar da história de qualquer um dos dois terem participado da guerra. “Definitivamente, não há verdade nessa informação. Stan Laurel nunca serviu no exército britânico. O mais próximo que Laurel e Hardy chegaram de qualquer tropa, foi entretendo-os nos shows da Caravana da Vitória”, explicou o redator da revista especializada.

Robert é da opinião que “deve ter sido um sósia”. “Já nos deparamos antes com pessoas que afirmavam ser Stan Laurel. Na verdade, naquela época [anos 40] havia muitos imitadores. Eles eram tão convincentes que as pessoas pensavam que eram os verdadeiros Laurel e Hardy. Eu conheci a filha de Stan e estive em sua casa em 1980. Eu pesquisei por todos os álbuns pessoais de Stan e, claro, com todo o conhecimento vindo de parentes e co-estrelas. Eu nunca ouvi falar dessa história, então sei que não é verdade”, explica o especialista.

No Brasil, duas versões em livros

Uma das versões registradas em livros, é do oficial de informações do 11º Regimento de Infantaria, capitão Adhemar Rivemar de Almeida, na página 87 do livro “Montese: um marco glorioso de uma trajetória” (1985, Biblex).

Falando sobre uma máquina que produzia fumaça artificial para esconder as posições aliadas em Silla e redondezas, no front brasileiro, que era operada por ingleses, Rivemar escreveu o seguinte:

“Alguns soldados, por curiosidade, foram ver de perto como funcionava aquela ‘fábrica de fazer fumaça’ e de lá voltaram com uma ‘novidade’, logo transmitida a todo o Batalhão – servia lá, como cabo, Stan Laurel, o Magro, comediante integrante da conhecida dupla cinematográfica ‘o Gordo e o Magro’, que tanto fizeram rir os brasileiros. E, durante todo dia, muitas vezes teve o Magro que retirar o capacete, coçar o couro cabeludo e fazer aquela sua tão característica cara de choro”.

Detalhe de uma manhã na cidade de Porreta Terme, onde estava o quartel general da FEB. Lá no fundo, o que parece ser neblina, é na verdade fumaça artificial produzida pelo pessoal brasileiro da guerra química. Isso tudo para esconder a cidade das vistas alemãs. Mesmo assim, volta e meia os inimigos acertavam o centro da cidade com suas bombas, inclusive causando baixas fatais entre civis e militares. (Foto: Arquivo Nacional)

Em 2000, o antigo comandante da 7ª Companhia de Fuzileiros e Comandante da Companhia de Petrechos Pesados do III Batalhão do 1º  Regimento de Infantaria, Heitor Furtado Arnizaut de Mattos declarou para o livro História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, que “os soldados diziam que era operada – a companhia de geradores de fumaça americana – pelo ‘Gordo e o Magro’, aqueles dois cômicos da televisão e cinema americanos”.

Pela declaração dos dois, ao que parece, havia alguém parecido com Stan Laurel nas ditas máquinas e os brasileiros, por associação, acharam mesmo que se tratava do ator, afinal, muitos haviam crescido assistindo a dupla de humoristas no cinema. O fato é que a história atravessou gerações e ainda hoje segue firme na Internet, circulando por quase todas as redes sociais e aplicativos de mensagens. Porém, conforme declarou Robert Lewis e como mostram dados da época, Stan estava trabalhando com a arte dele e não combatendo no front italiano.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s