Vá em paz, soldado Maciel, nosso eterno pracinha

Por Helton Costa*

Dourados/MS perdeu um pouco de sua história no dia de hoje. A morte do ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira – FEB, Januário Antunes Maciel, representa a perda de parte da memória social na cidade. Ele tinha 100 anos de idade.

Januário foi um dos 25 mil soldados que partiram do Brasil para combater o nazifascismo na Itália, na Segunda Guerra Mundial, entre 1944 e 1945. Ele era filho de pai gaúcho e mãe argentina, bisneto de italianos, de onde herdara o sobrenome Maciel.

Januário em 2019 (Foto: Helton Costa)

Antes da FEB, Januário servia no quartel em Ponta Porã/MS, em 1944, quando um amigo que já estava na Itália se correspondeu com ele e o orientou que fosse como voluntário. A ideia era que depois da guerra as coisas ficariam melhores, no quartel, para quem tivesse servido na FEB. O jovem acreditou e foi voluntário.

No começo, Januário foi para a reserva da FEB, no Depósito de Pessoal, mas poucos dias após o desembarque, foi mandado como recompletamento de tropa para o 1º Regimento de Infantaria, que vinha desfalcado desde o começo de dezembro, quando realizou os primeiros ataques sem sucesso ao Monte Castello.

O pracinha Januário passou um inverno duríssimo em posições que variavam de Torre di Nerone à localidades vizinhas de Monte Castello. As temperaturas foram de até -20°C nos pontos mais elevados. Ele teve pé de trincheira, foi tratado, melhorou, mas depois da guerra, ainda sofreu alguns meses por uma paralisia nas pernas. Demorou semanas para recuperar os movimentos.

Quando em fevereiro de 1945 o Monte foi tomado, lá estava o sul-mato-grossense e foi dali que ele carregou para o resto da vida, as piores lembranças, vendo amigos sendo mortos e lutando para sobreviver.

Depois de Monte Castello, ainda esteve em La Serra, quando os alemães tentaram retomar a posição perdida e foram barrados em um combate noturno. Patrulhas constantes foram realizadas nos dias seguintes.

No cerco os alemães, já no final de abril de 1945, a tropa de Januário foi enviada ao norte da Itália para garantir uma segunda linha de defesa, para barrar os alemães, caso conseguissem fugir da região de Collecchio e Fornovo.

Quando a guerra acabou, Januário havia voltado diferente para casa. Já não era o mesmo jovem alegre de outrora. Trazia cicatrizes invisíveis da guerra. Ainda assim, entrou para Polícia Militar e serviu por mais de 30 anos na corporação, onde novos traumas moldaram a sua personalidade.

Plaqueta de identificação de Januário (Foto: Helton Costa)

A esposa tentava acalmar os ânimos do pracinha, que não era violento em casa e nem agia de forma desordenada no trabalho, mas que constantemente sofria com pesadelos e crises de ansiedade, trazidas do front italiano. Hoje chamamos isso de estresse pós-traumático.

Chegou uma época que a família já não sabia mais para quem apelar e foi quando ele aceitou a religião em sua vida, o que o ajudou a ser uma pessoa mais tranquila e a controlar as crises. Porém, sempre que havia alguma comemoração ou que o assunto era a FEB, naquela noite ele sofria com as lembranças novamente.

Eu o conheci no final da minha graduação, nos idos de 2007 e o entrevistei por mais três vezes ao longo dos anos. Januário nunca negou a dividir suas memórias, para que elas ficassem (da forma que ficaram), como registro histórico de uma época, de uma vida que não foi em vão e de uma história que nunca será esquecida.

Agora, ele volta ao lar eterno, onde certamente encontrará seus antigos colegas de FEB, onde antes dele muitos outros chegaram primeiro e onde um dia nós também chegaremos. Que Deus o receba e dê forças para a família. Nós, que o conhecemos como o eterno pracinha, sempre nos lembraremos dele com carinho e com aquele jeito pacato de contar as coisas, sorrindo e não escondendo nada. Obrigado por tudo, soldado Maciel.

*Jornalista sul-mato-grossense, Dr. em comunicação e autor dos livros Confissões do front: soldados do Mato Grosso do Sul na II Guerra Mundial (Arandu, 2011), Crônicas de sangue: jornalistas brasileiros na II Guerra Mundial (Matilda, 2020), Dias de quartel e guerra: diário do pracinha Mário Novelli (Matilda, 2021) e Camarada Pracinha, amigo partigiani: anotações brasileiras sobre a resistência italiana na Segunda Guerra Mundial (Matilda, 2021).

Texto e fotos de Helton Costa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s