No Dia da Vitória, brasileiros já ocupavam a Itália havia quase uma semana

Quando a guerra acabou na Europa, em 8 de maio de 1945 (Dia da Vitória na Europa), fazia seis dias que a guerra havia terminado na Itália e que, portanto, os brasileiros já gozavam de relativa paz. O cotidiano já era de tropa de ocupação, porém, com todos os cuidados necessários para que esse período, precedente ao retorno ao solo brasileiro, não fosse de enfrentamento com grupos de partigiani, e mesmo com algum remanescente do exército alemão que, porventura, tivesse ficado espalhado pelas localidades sob a responsabilidade da Força Expedicionária Brasileira – FEB.

As tropas estavam alocadas conforme mostra a imagem abaixo.

Locais em que os brasileiros se encontravam em 08/05/1945 (Foto: Relatório de Campanha do 1° RI)

Como se vê acima, havia grande presença brasileira no norte da Itália. Em alguns locais, com maior tranqüilidade e em outros, cumprindo o papel de “polícia”. Alguns brasileiros deixaram registrado como foi saudado aquele 8 de maio, em que a guerra definitivamente chegava ao fim.

O tenente Italo Diogo Tavares, da 5ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, estava com seus homens estacionados em Casei Gerola e durante o dia apenas dormiam, para de noite procurarem alguma diversão. “Continua a vida seguindo o mesmo ritmo. Cada dia que se passa, mais forte se tornam as amizades, e outras e mais outras conquistamos. Já conheço toda a população da pequena cidade. Todos fazem questão de ter nossa amizade. Não sabem o que fazer para captar nossa simpatia. Os alemães estiveram também aqui quando estavam de posse do Norte da Itália. Aqui, como em outros lugares, a conduta deles foi a mesma: brutais e desumanos. Nós, com todos nossos defeitos, somos sentimentais e nosso temperamento se aproxima bastante do italiano, que é, como nós, um povo de descendência latina”, anotou no diário que deu origem ao livro “Nós vimos a cobra fumar: Diário de um jovem tenente brasileiro na Itália durante a II Guerra Mundial”.

Italo Diogo Tavares (Foto do livro citado)

O “ponto de encontro” dos soldados de Italo, em Casei Gerola, era um antigo castelo medieval, em que estava instalada a cozinha e onde eles se reuniam para as refeições. O tenente se admirava do castelo ser mais velho que o Brasil e dizia que o dono, “um milionário italiano”, tinha usado o espaço para proteger os moradores dos alemães e que no começo, estava desconfiado dos brasileiros, pois, os militares inimigos quando passaram por ali, tinham deixado muito má impressão. “O dono do castelo cedeu a garagem para nossa cozinha a contragosto, porém agora está mais satisfeito, pois, nossos soldados, compreendendo a responsabilidade que pesa sobre eles, não fazem má propaganda do Brasil e utilizam o pátio para fazer suas refeições, sem danificar as plantas e observando todos os preceitos de higiene”, observou Italo.

Castelo do qual fala Italo. Foto de Cavio Flosta

Miled Cury, cabo do 6º Regimento de Infantaria, escreveu no diário que deu origem ao livro “Memórias de um Mogiano”, que a ordem para a companhia dele, foi evitar sair às ruas de Voghera, onde estavam destacados. Ali, ele ficara amigo de um garotinha com quem muito se apegou e, por isso, aproximou-se da família dela. Se chamava Piera e todos os dias andava pela cidade com ele, como se também fosse uma infante. No dia 08/05/1945, ele escreveu que a guerra “acabou realmente”. “Os sinos de todas as igrejas estão repicando festivamente. Por toda parte ouvem-se tiros, só que agora são tiros para o ar, festejando a vitória. São tiros com armas de todos os tipos e nós resolvemos permanecer em nosso alojamento, pois é bem possível um acidente. Aliás, o nosso comandante sugeriu que fizéssemos, pois, está havendo muito excesso. Sai somente para ir à casa da Piera e jantar com seus pais. É claro que levei alguma coisa para ajudar no rango, pois, eles passam alguma dificuldade”, relatou Cury.

I Batalhão do 6° Regimento de Infantaria em Voghera, em 14 de maio de 1945. Foto do BDEx.

Rezando e um pouco indiferente

O tenente do 11º Regimento de Infantaria, Ruy de Oliveira Fonseca, no livro “Uma face da glória: reminiscências e diário de campanha de Ruy de Oliveira Fonseca”, deixou escrito que em Il Christo, perto de Alessandria, o clima também era de festa, mas que ele preferiu rezar. “Rendição incondicional da Alemanha aos exércitos Aliados. Foi um dia de festa aqui em Alessandria. Os sinos das igrejas não paravam de repicar. Tudo é alegria e a volta da paz na Europa é comemorada em todos os lugares. Fui à missa e agradeci a Deus pelas graças recebidas durante esses dias de sofrimento, de angústia e de incerteza que atravessei, com constante perigo de vida”, disse Fonseca.

O tenente Fonseca. Foto do livro citado

Newton Correia de Andrade Mello, que era capitão do II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados escreveu que “notificaram, pelo rádio, a rendição incondicional da Alemanha”, porém, ele estava um tanto quanto indiferente. “Desse modo que chega a termo à guerra na Europa: uma Alemanha desmoronada com um exército fragorosamente derrotado. Daí o não ter sido efusiva a alegria geral. De uns tempos para cá, vinha o inimigo sofrendo revés atrás de revés, sempre desandando qual fera acuada. É como que se não tinha orgulho de vencer um adversário tão desmoralizado”, registrou o capitão, afirmando que o pessoal nem comemorou tanto, porque a Alemanha já não era a mesma dos primeiros combates e que era previsível que não resistiria por mais tempo.

Newton disse ainda que também foi pelo rádio ficaram sabendo da descoberta dos corpos da família Goebbels (ministro de propaganda de Hitler), inclusive das crianças, que haviam todas sido envenenadas pelos pais, que em seguida tiraram as próprias vidas. “(…) Sobre o corpo do pintor paranóico [Hitler], nada se sabe”, deixou escrito.

A proclamação de Zenóbio

O comandante da Infantaria da FEB, general Euclides Zenóbio da Costa fez circular um comunicado claramente encomendado com palavras bonitas, para que os comandantes de unidades lessem aos soldados. Zenóbio não era unanimidade entre os pracinhas, aliás, a maioria não o enxergava com bons olhos. O documento dizia:

Dia da Paz:

Meus camaradas da Infantaria Divisionária!

Sinto-me profundamente emocionado e sinceramente jubiloso em poder, hoje, ao vários repiques dos sinos que saúdam nervosamente a paz, pela humanidade ansiosamente esperada, felicitar-vos, como vosso comandante e amigo, pelo muito que fizestes em prol do exército das armas aliadas. Escrevestes, com vosso sangue rubro de brasilidade, páginas imortais de devotamento, de lealdade e de heroísmo sem limites.

Ao lado dos nossos leais e sinceros amigos da grande república norte-americana, combatestes, sem desfalecimentos, em busca da vitória.

Zenóbio da Costa. Foto do AHEx.

Desembarcamos em Nápoles não como conquistadores desta grandiosa terra e, sim, como libertadores do glorioso berço de Cavour. O povo italiano bem compreendeu as nossas intenções e saudou com amizade.

Nesta guerra que, felizmente, teve hoje seu término, do direito contra a iniquidade, do bem contra o mal, da luz contra as trevas, da liberdade contra a opressão, em suma, na democracia contra o nazifascismo, os vossos feitos, intimoratos [sem temor] infantes do Brasil, que desde Camaiore até Turim, numa profundidade de várias centenas de quilômetros, são dignos os aplausos irrestritos dos nossos compatrícios e da benção de Deus.

Não tenho unidades a destacar. Todas cumpriram, com entusiasmo, com devotamento, lealdade e heroísmo, as missões que eles foram confiadas. Não houve um só momento da incerteza ou vacilação. Todos aguardavam ansiosos, o momento de lançarem-se à luta. Ressaltar o que fizestes, seria descrever aqui, todos os combates por vós travados na Itália. Em todos eles, tinham as o coração voltado para aqueles que deixamos do outro lado do Atlântico. A Infantaria, meus comandados, continua ser a rainha dos campos de batalha.

Por mais possantes que sejam os canhões, por mais poderosos que sejam os encouraçados, por mais eficiente que seja a arma automática, todos os esforços fracassarão, se não houver um coração de infante cheio de fé e virilidade para, desassombradamente, conquistar e manter a posse do terreno conquistado. A guerra que hoje findou está cheia de exemplos que ratificam o que acabo de vos dizer. Bastaria, entre muitas, citar: a tomada de Monte Castello, Montese e Castelnuovo.

Cumpristes, com inexcedível bravura, o vosso dever de soldados, intrépidos e desiemados [sem medo].

À memória dos nossos bravos que dormem o último sono nas fileiras dos Apeninos, o nosso profundo reconhecimento e a gratidão eterna do Brasil. Estes, infelizmente, não poderão voltar, dentro em pouco tempo, ao seio de nosso abençoado torrão natal, que tanto souberam amar e engrandecer. Aqui tombaram em holocausto aos compromissos por nós assumidos. Eles, que penetraram naquela noite em que não há mais alvorada, viverão, para sempre, em nossos corações e eternamente no reconhecimento da nossa idolatrada Pátria, pela qual, heroicamente, deram as suas vidas.

A guerra, meus companheiros, está terminada. Saibam ser dignos da vitória alcançada pelas nações unidas, com tanto sangue e sacrifício. Tenhamos, constantemente, o pensamento voltado para Deus e os corações a pesar pelos que souberam, dignamente, morrer pelo Brasil, para que o possamos fazer sempre e cada vez mais feliz, forte e poderoso. (Fonte do discurso: Diário de Campanha do 11° Regimento de Infantaria)

TEXTO E PESQUISA: HELTON COSTA/JORNALISMO DE GUERRA

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