FEB: evento na Itália custou aproximadamente R$ 212,3 mil em recursos

Dados foram fruto da Lei de Acesso à Informação e levam em consideração números apresentados pelo Exército

O Exército Brasileiro, por meio do Centro de Comunicação Social, divulgou os valores descentralizados (investidos) nas atividades deste ano, na Itália, nas comemorações aos 77 anos da participação da Força Expedicionária Brasileira – FEB, na Segunda Guerra Mundial.

Segundo os militares as ações podem ser divididas em três partes:

1. Reconhecimento feito pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército – DPHCEx, entre 17 e 22 de fevereiro de 2022, para execução do Seminário Nacional sobre a Participação do Brasil na Segunda Guerra Nacional – Senab;

2. Realização do Senab, que aconteceu entre 20 e 27 de abril de 2022;

3. Visita do comandante do Exército à Itália, entre 23 e 27 de abril de 2022, para acompanhar o Senab, atividades na Embaixada do Brasil e junto ao Comando do Exército italiano.

Os valores gastos foram de US$ 42.461,77 (dólares), que convertidos representam R$ 212.308,85 (tendo como base o dólar a R$ 5 nas respectivas épocas).

Recursos empregados. (Fonte: CCOMSEx)

Os militares afastaram a ideia de que se tratou apenas de uma visitação bancada com recursos públicos e explicaram que o valor foi descentralizado do Departamento de Cultura e Educação – DECEx e do Gabinete do Comandante do Exército, para a Aditância do Exército da Itália.

Além do dinheiro descentralizado, foram pagas 112 diárias[1], distribuídas entre 20 pessoas (sargentos, tenentes, um capitão, tenentes-coronéis, coronéis e quatro generais [dois generais de Exército, um general de Divisão e um general de Brigada]).

Tabela com as patentes dos membros da comitiva (Fonte: CCOMSEx)

Explicação necessária

Para conseguir acesso a estes valores, foi necessário o uso da Lei de Acesso à Informação, pois, os custos não constavam no Portal da Transparência do Governo Federal. No entanto, o Comando do Exército explicou o motivo dos valores não constarem no Portal de Transparência. Seria porque “o Suprimento de Fundos é normalmente distribuído para atendimento a um trimestre de atividades, que no caso em tela seria de início de abril até o início de julho de 2022”. Além disso, há uma dependência de malas diplomáticas para fechar o balanço e por isso espera-se que no mês de setembro, “em uma projeção genérica”, cheguem os dados faltantes. Logo, “dessa forma, não há que se falar em disponibilidade de documentos, pois, no presente momento, o Suprimento de Fundos recebido ainda está sendo executado”.

Termo incorreto, segundo o Exército

Houve também discordância quanto ao uso do termo “visitação de locais de memória” da FEB, usado no pedido de informações feito pela Redação, ainda que não houvesse de forma alguma sentido pejorativo. Conforme o Comando, “o uso do termo visita diminui a relevância daquilo que realmente foi feito na presença de italianos e brasileiros para celebrar a memória da FEB e faz parecer que gastos foram feitos apenas para uma ‘visita’”.

Autoridades brasileiras e italianas durante uma das solenidades. (Foto: CCOMSEx)

Primeira parte: preparação do Senab/reconhecimento

Segundo o Exército, não houve gasto adicional para a Aditância na Itália na primeira parte, em fevereiro de 2022, uma vez que como eram poucos militares, optou-se pelo uso de condução própria, e “foram empregados os meios locais disponíveis para o itinerário interestadual realizado ao longo de mais de 710 km em cinco dias de atividades”.

Também, de acordo com a nota enviada, seria “impossível percorrer os caminhos feitos pela FEB valendo-se de meios de transporte local, pois, não existem rotas de ligação direta entre as cidades visitadas e não haveria a disponibilidade de horários que permitissem maximizar o emprego do tempo disponível para as atividades”, por isso o uso de meios próprios de locomoção.

O resultado do reconhecimento foi, segundo os militares, “o engajamento direto com 17 prefeitos de cidades italianas, com autoridades policiais e de saúde, com historiadores, com representantes da comunidade local e com membros de grupos que espontaneamente se dedicam a relembrar os fatos da FEB em 1944 e 1945”, que mais tarde deram origem aos eventos do Senab, no mês de abril.

Parte dois: o Senab

Para a realização do IX Senab, foram descentralizados pelo Departamento de Educação do Exército, US$ 21.861,77 (dólares). Quanto aos objetivos e a relação dos valores em dinheiro público empregados, o Comando do Exército defende que “o reconhecimento da participação do único país sul americano que enviou tropas para a Europa é algo de difícil mensuração em termos de recursos empregados e objetivos alcançados” e que “é um raciocínio simplista buscar criar relação de custo/efeito entre recursos financeiros empregados e o estabelecimento de uma percepção de gratidão de um país europeu ao Brasil e a sua participação na 2ª Guerra Mundial”.

“Para manter tal memória acesa da parte do Exército brasileiro, o SENAB realizou eventos em 17 cidades da Toscana, Emiglia Romagna e Lombardia, com público italiano total estimado em mais de 2.000 pessoas no somatório dos eventos. O público, como já citado, foi composto de crianças, estudantes, autoridades do funcionalismo público italiano, familiares brasileiros de “pracinhas”, historiadores, religiosos, militares e grupos culturais locais. Dentre tais pessoas, cabe destaque o testemunho de italianos que, voluntariamente, verbalizaram como o soldado brasileiro se portou na Itália naquele conflito: com coragem, compaixão, humanidade, bom humor, adaptabilidade e como exemplo de um povo que sabe fazer o duro trabalho de combater em uma guerra, mas não esquece de ajudar os necessitados”, acrescentam os militares.

Membro da comitiva brasileira explica sobre a FEB à autoridades italianas. (Foto: CCOMSEx)

Além do Simpósio, o Exército afirma que foram descerradas quatro novas placas em locais de passagem/estadia da FEB (Vechiano, duas em Santa Maria a Monte e uma em Barga). “Adicionalmente foram realizadas cerimônias cívicas em monumentos já existentes que fazem referência à FEB, aos pracinhas mortos/feridos e mesmo à libertação de cidades pelas tropas brasileiras. Isso ocorreu em Massarosa, Camaiore, Borgo a Mozzano, Barga, Gaggio Montano, Montese, Zocca, Sassuolo, Colleccio, Fornovodi Taro e Neviano Rossi”, atesta o Cento de Comunicação Social.

O pessoal do Exército ainda apresentou vídeos sobre a FEB, em Chiesa e em Sassuolo. Também houve o lançamento do livro “As Vitórias da FEB”, escrito pelos irmãos Rosty (General de Divisão e Coronel, respectivamente), escrito em idioma português e em italiano, com distribuição gratuita de 100 cópias em Montese. De acordo com o Exército, “tais livros estarão presentes em lares, escritórios e escolas italianas contando os feitos da FEB”.

De modo geral, o Comando do Exército avaliou como produtivo o desenvolvimento das atividades, pois, “houve a divulgação positiva do evento nas páginas das prefeituras e em sites de notícias locais”, além de o Senab ter possibilitado a captura de imagens que serão usadas para divulgar a FEB em vídeos institucionais da corporação.

Parte três: a visita do Comandante do Exército

Já a visita do comandante do Exército Brasileiro, general Freire Gomes, necessitou da descentralização de US$ 20.600,00 (dólares). Os recursos serviram para que a comitiva participasse do próprio Senab, de agendas na Embaixada Brasileira e de um encontro com o comandante do Exército Italiano no Estado-Maior do Exército, em Roma.

Pistoia – O Embaixador do Brasil e o Comandante do Exército Brasileiro (Foto: ADIEx)

Especificamente no que tange à FEB, houve cerimônia no Monumento Votivo de Pistoia e em outras cidades por onde os brasileiros passaram entre 1944-1945. O comando do Exército também classificou que a “participação em diversos eventos permitiu à comitiva do Comandante do Exército o engajamento com autoridades locais e grupos que se dedicam à manutenção da memória da FEB”. “O Comandante do Exército também participou de jantar de trabalho com o Embaixador Hélio Ramos, no qual foram discutidos assuntos relevantes à manutenção da memória da FEB, atividades do EB na Itália e oportunidades futuras para que as atividades da Embaixada e do EB possam se somar na busca por melhor ampliar a percepção da Itália sobre a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial”.

Números

Em setembro de 2021, o Exército informou, também via nota, que não havia investimentos específicos para divulgar a FEB na Itália, porém, que eles aplicavam verbas para a divulgação da Instituição como um todo (abarcando a FEB nesse conjunto). O valor investido foi de US$ 2 mil (dólares) por ano, em média, entre 2011 e 2021 (aproximadamente R$ 10 mil em valores atuais).

Também disseram que outros US$ 2.500,00 (dólares), por ano, foram usados para “manutenção e preservação do patrimônio arquitetônico, histórico e natural do Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistoia”.

Ou seja, com os US$ 42.461,77 descentralizados dos cofres públicos para a Itália, aplicados em um único evento, levando em conta a média anual de publicidade do Exército naquele país, daria para divulgar a Força por mais de 20 anos. Também daria para pagar a manutenção do Monumento de Votivo por quase 17 anos.

Se cada uma das duas mil pessoas que participaram dos eventos tivesse recebido algum valor para estar nas atividades, o custo per capita da divulgação para elas seria de aproximadamente US$ 21 (R$ 105 em valores da época).

Da mesma forma, os mais de US$ 42 mil, se convertidos em reais, renderiam aproximadamente R$ 212 mil. Com este valor, seria possível digitalizar o acervo de documentos da FEB, em poder no Arquivo Histórico do Exército, de três e cinco vezes, já que o montante para tal tarefa varia de R$ 36 mil a R$ 70 mil. Porém, como o Exército fez questão de ressaltar em documento enviado à Redação, tais comparações não seriam justas, na opinião deles, pois, “é um raciocínio simplista buscar criar relação de custo/efeito entre recursos financeiros empregados e o estabelecimento de uma percepção de gratidão de um país europeu ao Brasil e a sua participação na 2ª Guerra Mundial”.


[1] Não fica claro na nota do Exército se as diárias pagas estão inclusas no valor informado ou se foram pagas à parte, o que elevaria ainda mais o valor descentralizado. Também não fica claro se houve algum custo extra em passagens aéreas.

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